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EXCLUSIVO: Será que a literatura brasileira está em processo de extinção?

E de quem é a culpa?

16/09/2020 10h19 Atualizada há 4 horas
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Keila Marta
Keila Marta, da APB/Seccional MA
Keila Marta, da APB/Seccional MA

 

EXCLUSIVO

Será que a literatura brasileira está em processo de extinção? E de quem é a culpa?

Convidada: Keila Marta é membro-efetivo da Academia Poética Brasileira

No momento em que o mercado editorial em diversas partes do mundo anda em queda, e não tendo despontado grandes obras de ficção nacional, o que chama mais atenção é o crescimento vertiginoso dos chamados livros de autoajuda. Só para ter uma ideia, entre março e julho de 2020 não teve quase espaço para outros gêneros, conforme publicado pelo jornal O Estado de São Paulo¹, dos 15 livros mais vendidos no Brasil 10 são de autoajuda, e na liderança pelo segundo ano consecutivo se encontra, A sutil arte de ligar o foda-se.

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E fazendo uma varredura, é possível constatar que esse fenômeno vem ocorrendo desde o início dessa década, principalmente nos últimos seis anos, quando em 2014 estavam entre os mais vendidos os títulos, Nada a Perder, de Edir Macedo e Como enfrentar o mal do século, de Augusto Cury.

Em 2015 a revista Veja² faz uma publicação sobre o cenário editorial daquele ano, em que mesmo apresentando baixa na economia houve um aumento de 5,9% nas vendas de livros de autoajuda em relação ao mesmo período do ano anterior e na ocasião Vera Rita de Mello Ferreira, professora de psicologia econômica da Fipecafi, justifica que “a ansiedade provocada pelo medo de perder o emprego, entre outros temores que grassam nos períodos de retração econômica, é um fator que pode ajudar na venda de livros”.

Já no final de 2019 o Extra lança a seguinte manchete: cresce a venda de livros de negócios. Sobre esse tema, Thomás da Veiga Pereira³, sócio diretor da editora Sextante afirma:

 

— Vimos uma grande demanda por esse conteúdo, tanto de livros novos quanto de clássicos, o que mostra interesse no tema. Em média, tivemos um crescimento de 40% em relação ao ano passado. Alguns autores dobraram suas vendas neste ano. Estamos apostando nisso, porque há mais vontade de empreender, e o consumidor percebeu que os livros têm um grande custo-benefício em relação a conteúdo.

Em vista dessa realidade, Edson Aram publica pela Revista Bula4, a autoajuda matou a literatura no Brasil e a culpa é das editoras. Alvo de muitas críticas, muitos não entenderam o porquê de uma afirmativa tão categórica e por que a culpa é das editoras? Mas autoajuda não é literatura? Qual o motivo de tantas críticas para com essa modalidade textual?

Partindo desses questionamentos, para a maioria dos leitores fãs de autoajuda a decisão da compra partiu deles mesmos, sem nenhuma interferência das editoras. Mas, na realidade acontece uma grande jogada de marketing, livros dessa categoria ficam expostos em grande quantidade nas principais prateleiras das livrarias, em sites de vendas, além de canais e páginas exclusivas, e esse alto investimento não é em vão. Consson (2014, p. 38)5, confirma que,

 

[...]nesse sentido, além ou a partir das constrições históricas mais gerais, a leitura sofre das limitações dos discursos que informam e determinam os textos e os sujeitos. Não lemos como queremos, mas como é permitido ler. Não lemos sozinhos ou por nossa própria conta, mas sim dentro das possibilidades que nos são oferecidas pelo contexto[...]

 

Quanto ao segundo ponto questionado, o grande problema é a generalização, pois há um modismo de se utilizar termos como literatura política, médica, automotiva e dentre outras, que Segundo Lilian Martins (2018)6, “o correto seria utilizar o termo bibliografia”, e utilizar o termo literatura para especificar somente a escrita em que a linguagem artística se faz presente, e vale lembrar que nem todos os livros de autoajuda podem ser definidos como ficção, tendo em vista que a maioria parecem manuais de economia e psicologia, com uma linguagem de fácil entendimento e recursos linguísticos literários não muito ricos.

Daí os motivos de tanto os estudiosos e críticos literários se preocuparem quando o assunto é autoajuda, pois os gêneros literários cobram um maior trabalho, mesmo quando se utiliza uma escrita mais acessível, “a linguagem literária nos oferece a possibilidade de uma maneira como tal que nenhum outro modo de ler poderia oferecer” (COSSON, 2014, p. 50)5. É importante pensar nos leitores em formação que precisam beber nas melhores fontes, precisam buscar nos livros palavras que transbordam.

Sendo assim, o que está faltando é a expansão da qualidade da leitura, ou seja, uma sociedade letrada literariamente, pois a ficção, possibilita ao leitor questionar, pensar o mundo e a si mesmo sob a perspectiva de um narrador e de outros elementos que a compõe. E adaptando a fala do crítico literário Flávio Vassoler7 ao falar sobre a obra de Dostoiévski, precisamos de autores que pegue o machado de Raskólnicov e parta a superfície do lago congelado, e mesmo a água permanecendo estancada, jorre em uma temperatura escatológica.

Por diferentes motivos não vemos deslanchar um Machado de Assis aos moldes do século XXI, talvez até exista esse romancista só que ainda não foi revelado, seja pelas suas relações com o livro, ou por não acreditar no próprio talento, e mesmo com um bom material em mãos não enxerga as perspectivas de um dia seus livros serem aceitos. É bem sabido que a maior probabilidade é que as editoras não queiram perder tempo corrigindo e adaptando originais para se tornar livros comerciais, como acontece em outros países e mesmo aqueles que estão no mercado não enchem os olhos dos amantes da literatura.

E a culpa de boa parte dessa fase crítica é das editoras, e a outra parte é da forma como a leitura chega a uma parcela da população brasileira, como o ensino de Língua Portuguesa e literatura é organizado nas escolas, a leitura para muitos se torna enfadonha. Assim, é preferível um texto em que o leitor entenda rápido, e é cômodo ler algo que está remoído, que não dar trabalho para imaginar.

Por todos os motivos essa é uma crise do romancista que afeta o leitor, e não do romance como bem destacou Paulo Bezerra, ao citar Mikhail Bakhtin8 “o romance é o único gênero que nasce em plena luz do dia da história e a história é um processo em formação, o romance é um gênero em formação”. O grande problema conforme o tradutor é que está faltando um romancista que consiga trazer a realidade como questões universais, “e não como um departamento do bairro dele, mesmo que apresente fragmentos, mas que eles façam parte do todo”.

 

Notas: 

¹ - notícia republicada pelo jornal Diário da Região. Disponível em: https://www.diariodaregiao.com.br/vida-e-estilo/2020/07/1201415-livros-de-autoajuda-foram-os-mais-vendidos-na-quarentena.html#:~:text=Dos%2015%20livros%20mais%20vendidos,%22Pequeno%20Manual%20Antirracista%22%2C%20de

² - notícia publicada pela revista Veja em 14 de novembro de 2015. Disponível em: https://veja.abril.com.br/cultura/autoajuda-um-segmento-que-floresce-em-tempos-de-crise/

 3 - Fala retirada da matéria do jornal Extra, disponível em: https://extra.globo.com/emprego/cresce-venda-de-livros-de-negocios-confira-os-mais-procurados-o-que-dizem-os-autores-24127992.html

4 – Título da Revista Bula,  https://www.revistabula.com/34333-a-autoajuda-matou-a-literatura-no-brasil-e-a-culpa-e-das-editoras/#:~:text=Comentei%20outro%20dia%20no%20Twitter,s%C3%B3%20autoajuda%20de%20cima%20abaixo.

5 – COSSON, Rildo. Círculos de leitura e letramento literário. – São Paulo: Contexto, 2014. 

6 -  Curso Formação de Mediadores de Leitura / vários autores; organizado por Raymundo Netto, Lidia Eugenia Cavalcante Lima; ilustrado por Rafael   Limaverde. - Fortaleza, CE : Fundação Demócrito Rocha, 2018. 

7 – parte do texto adaptada conforme a fala de Flávio Vassoler (crítico literário) no Café filosófico sobre Crimes sem castigo e a banalidade do mal. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=NHplOno4NFs&t=4569s

8 – Citação extraída da fala de Paulo Bezerra – (tradutor de literatura russa) Palestra de Paulo Bezerra sobre a tradução das obras de Fiódor Dostoiévski no projeto Tertúlia do Sesc São Paulo. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=TpgJbKzGPrM&t=4746s

 

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