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ENTREVISTAS ESPECIAIS: VICEVERSA com ALEX BRASIL & MHARIO LINCOLN. Vale ler e comentar.

EXCLUSIVO

13/09/2020 17h33 Atualizada há 2 dias
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Por: Mhario Lincoln Fonte: ML
VICEVERSA ALEX E MHARIO
VICEVERSA ALEX E MHARIO

VICEVERSA

ALEX BRASIL/MHARIO LINCOLN / ALEX BRASIL

 

ALEX BRASIL.

MHARIO LINCOLN PARA ALEX BRASIL

1 – MHARIO LINCOLN:  "Ah, a manhã da última promessa, / manhã de um novo mundo que começa, / mais acessível, mais humano e bom". Esses versos são de José Chagas, um poeta imenso, com o qual você conviveu. Versos fortes incluídos no livro "Canção da Expectativa", de 1955. A pergunta: será que vivemos esse novo mundo mais humano e bom?

RESPOSTA. ALEX BRASIL: – Creio que a humanidade está vivendo o limiar de um Admirável Mundo Novo, antevisto por Aldous Huxley em sua obra de ficção inquietante. A ciência, as máquinas e a tecnologia avançam vertiginosamente reconfigurando a realidade e a sociedade em que vivemos. Chamamos isso de progresso. Mas nossas utopias e distopias caminham lado a lado: ao mesmo tempo em que ampliamos nossa consciência sobre o próprio Universo, num conhecimento agora quântico, além de nossa simples compreensão tridimensional, trilhamos o abismo que pode nos aniquilar, pois esse progresso é desumanamente apenas material. Existe um novo mundo, mas não existe um NOVO HOMEM. Nossa barbárie ancestral interior continua em nós, e fora do nosso controle: o homem lobo do próprio homem. Espiritualmente continuamos nas cavernas, continuamos sem ouvir Buda ou Cristo: "Sê como as abelhas, que se alimentam do mel sem praticar nenhum mal às flores." "Amai o próximo como a si mesmo." É assustador percebermos que as máquinas estão cada vez mais humanas, e os humanos cada vez mais máquinas.

 

2 – ML:  Nauro Machado em seu poema "O Parto", versa-se: "Meu corpo está completo, o homem - não o poeta. / Mas eu quero e é necessário / que me sofra e me solidifique em poeta, / que destrua desde já o supérfluo e o ilusório (...)". Pergunta: em que momento da vida você realmente se sentiu solidificado como poeta?

Alex Brasil – Theodor Adorno disse: "Três paixões simples governam minha vida: o desejo imenso de amar, a procura do conhecimento e a insuportável compaixão pelo sofrimento da humanidade." Desde criança, sempre me senti assim, amaldiçoadamente conectado com as minhas dores e o sofrimento de todas as formas de vida ao meu redor. Tento conciliar o pragmatismo cerebral com a voz do meu coração poeta, mas estou sempre esquecendo o ódio e perdoando a mão que me apedreja, sufocando minha alma de sonhos de amor e paz que não consigo nem para os outros, nem para mim. Agora, o poeta integral na forma e nas metáforas, esse não se completa nunca: está sempre nascendo a cada momento para a eterna novidade da vida e do mundo. 

 

3 –ML:  José Sarney, da ABL, escreveu: "Estou sempre aqui / na porta de mim mesmo, / porque não basta / nem a tarde, nem a madrugada, / mas uma sombra de vida (...)".  Pergunta: em algumas vezes, você também já esteve na porta de si mesmo. E como você reagiu a isso?

Alex Brasil - Diz a sabedoria oriental: "Um homem sonhou que era uma borboleta que sonhava que era homem. Quando acordou, não sabia se era um homem que sonhava que era uma borboleta, ou uma borboleta que sonhava que era homem." Essa linha tênue entre a realidade e o sonho, entre a lucidez e a loucura não me deixa diante de mim mesmo como um ser com identidade definitiva. "Uma parte de mim pesa e pondera, outra parte delira..." Em mim, a única certeza é a dúvida, nunca a completude, estou sempre em autoanálise, todos os dias me estranho no espelho da vida.

 

4 – ML: Você escreveu: "Estou com insônia (...). Seria um caso banal se aquela cidadezinha, ao longo de trinta anos, não estivesse pesando tanto dentro de mim. (...) Celene e meu coração de dezoito anos (...)". Pergunta: como é a reação de um poeta que se apaixona desesperadamente aos dezoito anos, cujo cenário é uma cidade, cuja lembrança, ainda é forte o suficiente para deixa-lo sem dormir?

 

Alex Brasil – Essas lembranças fazem parte de um conto meu, que é autobiográfico. A Celene foi o meu primeiro amor, e a única mulher que me disse que eu era bonito, olhando nos meus olhos, como se estivesse vendo, não a minha assimétrica aparência exterior, mas a minha alma adolescentemente apaixonada por ela. "...é fogo que arde e não se vê... é ferida que dói e não se sente... é um contentamento descontente..." Da Celene, nunca vou esquecer, até porque, às vezes, diante dos problemas existenciais, continuo tendo insônia.

 

5 – ML: Arlete Nogueira da Cruz escreve no prefácio do seu 20º livro, "Amor.com":  (...) sua poesia caminha em dois sentidos: a do indignado cantor da "pátria amarga Brasil" (...) e a do sonhador de etéreas musas". Afinal, qual das duas vertentes, enquanto poesia, mais te atrai?

Alex Brasil – A temática do amor entre um homem e uma mulher, ou entre duas pessoas é eterna, e nos atinge sempre, inescapavelmente. O primeiro homem que comparou a mulher a uma flor, era um poeta. Os antigos gregos diziam que, no princípio, homem e mulher formavam um só corpo com duas cabeças. Por quererem ser mais inteligentes que os deuses, Zeus os separou, jogando-os distantes um do outro. Desde então, uma parte procura a outra parte desesperadamente. A paixão tem essa chama poética que nos faz lembrar e procurar o paraíso perdido. Escrever sobre o amor é sempre mais prazeroso porque nos induz à esperança da felicidade, da completude paradisíaca.

 

6 – ML: Ainda no livro "Amor.com", você versa: "Deixa o fogo arder, / o coração se consumir, / o sangue em erupção / e o corpo todo ferver / no fogaréu dessa paixão. / ". Seria muito difícil para um poeta conseguir distinguir, verdadeiramente, entre o 'amor' e a 'paixão', enquanto lírico ao extremo?

Alex Brasil – A paixão entre duas pessoas é uma espécie de feitiço, magia, uma hipnose ancestral irresistível; e todas as decisões que tomamos nesse êxtase encantatório são passíveis de nos arremessar no paraíso ou no inferno. O amor é um querer bem mútuo que gera cumplicidade, admiração, confiança, capacidade de perdoar os erros e defeitos humanos do outro. "Amar são duas pessoas de mãos dadas, caminhando e seguindo na mesma direção." Feliz daquele que, depois da paixão, encontra o amor na pessoa amada.

7 – ML: Bandeira Tribuzi, como um profético, escreveu – "Não quero meus versos / numa antologia / Quero-os rolando/ caminhos e dias / na boca do povo" – você também se viu nessa situação ao ver seus versos, crônicas e pensares navegando abundantemente nas redes sociais. Pergunta: adaptar textos, versos e prosa à realidade do século XXI tem alguma mágica, além da qualidade, claro, mas que não (apenas) condição sine qua non?

Alex Brasil -  Nauro Machado, meu amigo e poeta genial, dizia que minha poesia é solidária e participativa. Talvez por que o que escrevo seja reflexo do que sinto diante das perplexidades, do espantos e novidades do meu tempo em minha rua, em minha província, no meu país e no meu planeta. Não há magia, só um coração que desobedece ao cérebro e se irmana com a dor de todas as formas de vida na incerteza de um futuro que preserve e aperfeiçoe a humanidade.

 

8 – ML: O maranhense Maranhão Sobrinho, depois de Cruz e Souza, foi um dos maiores simbolistas do Brasil – "... E um dia as monjas foram dar com ela / morta, da cor de um sonho de noivado, / no silêncio cristão da estreita cela, / lábios nos lábios de um Crucificado ...". Pergunta: a que escola você se prendeu para moldar sua obra vasta, reconhecida nacionalmente; se não, foi por enunciados da alma?

Alex Brasil – Quando lancei meu primeiro livro, já tinha tido contato com praticamente todas as tendências literárias. Mas sempre achei um paradoxo ser plenamente criativo, seguindo essa ou aquela escola com suas orientações artísticas e estéticas. Mesmo a versificação me causava um certo desconforto, dando-me uma impressão de camisa de força. Então, sempre escrevi do meu jeito, livremente, com originalidade. Geralmente há rimas em meus poemas, mas só as uso quando veem naturalmente. Se no meu poema há musicalidade, beleza, conteúdo e mensagem ele cumpre o meu fazer poético, e assim espero que ele toque a alma de quem o lê. Não há metafísica no que escrevo, nem malabarismo formal deserto de lirismo ou metáforas; só a arte pela arte não basta para expressar o homem e suas circunstâncias.

 

9 – ML: Assis Brasil em seu indispensável "A Poesia Maranhense do Sec. XX", afirma que foram as décadas de 70/80 que abriram as portas para a nova poesia da região, incluindo, entre os novos, Luís Augusto Cassas, Arlete Cruz, Wanda Cristina, Jorge Nascimento, Cunha Santos filho, Francisco Tribuzi, Adailton Medeiros, Chagas Val, João Alexandre Junior, Valdelino Césio, Raimundo Fontenelle, Viriato Gaspar e você. Todos, brilhantes, com publicações históricas, incomensuráveis. Você chegou à Academia Maranhense de Letras, primeiro. Isso pode levá-lo a ser um dos representantes dessa geração maravilhosa de poetas maranhenses?

Alex Brasil – No labirinto estético, acrítico e fragmentado em que vivemos, não me acho representante de nada; peço que não me sigam, pois eu também estou perdido. Sinceramente, não consigo avaliar conceitualmente o que produzi até agora na literatura maranhense. Nós somos, inclusive como artistas, pelo menos três pessoas: a que achamos que somos, a que os outros acham que somos, e a que realmente somos. No final, quem nos julgará mesmo é o tempo, a história, a posteridade. Todos esses nomes que você citou, e que os conheço, de fato, pela nossa contemporaneidade, alguns não mais fisicamente entre nós; todos têm a sua luz de contribuição no enriquecimento da literatura maranhense.

 

10 – ML: Em seu discurso de posse na Academia Maranhense de Letras, você inclui a seguinte citação: "A opção de continuar empurrando a pedra ladeira acima é que supera o nada da existência". Isso dito exatamente no dia 14.10.2004. Anos atrás. E hoje, a percepção sócio-lírica permanece a mesma?

Alex Brasil – Um repórter perguntou ao Einstein que armas o homem usaria numa provável terceira guerra mundial. Einstein respondeu: "Na terceira eu não sei, mas a quarta será de pau e pedra". A humanidade vive esse eterno dilema: de evoluir e destruir, de avançar e recuar, de progredir e retroagir: em busca da sanidade, estamos sempre a um passo da loucura; em busca da imortalidade, construímos o que pode nos aniquilar. Convivemos o tempo todo, mesmo no plano existencialista, com a tese e a antítese, com o eterno castigo de Sísifo, de carregar a pedra ao cume da montanha, missão que nunca se completa, porque a pedra está sempre rolando montanha abaixo. É um dilema que não resolveremos só com a ciência e a tecnologia, enquanto não evoluirmos espiritualmente, vivendo e deixando viver, iluminados pela essência do amor.

 

Mhario Lincoln.

DE ALEX BRASIL PARA MHARIO LINCOLN

 

1-) *ALEX BRASIL: Eu conheci você no início de sua carreira, como jovem jornalista, colunista aplaudido e já conceituado na imprensa de São Luís do Maranhão. Por que deixar São Luís e sua vida intelectual?

**Mhario Lincoln: Tenho um pequeno verso com o qual concorri, certa vez, num concurso do nosso grupo Radio Amadores (eu era o PX-8/0013/SLZ), década de 80. Dizia assim: “Mudar...mudei/ Pra que mudar? Não sei.” Hoje, muitos anos depois, ainda suspeitava de minha decisão. Sabia da necessidade de mudar. Porém, foi muito oportuna essa pergunta porque somente em 2018 acabei encontrando minha própria resposta, moldada no pensamento do professor José Alves de Freitas Neto, livre-docente do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH). Bastou que lesse o primeiro parágrafo do artigo para me imunizar da culpa ou do arrependimento, ou as duas juntas. Isso porque, sempre fui uma pessoa por demais sonhadora e, destarte, sempre quis mudar um status quo que me incomodava dentro de minha alma e dentro do meu caos e de minhas angústias.  Conversei com Lacan, fui visitar Freud e não consegui as respostas. Todavia, ela a mim me veio exatamente lendo o professor Alves de Freitas: “(...) os sentidos de urgência e transformação são um dos sintomas mais visíveis dos incômodos que experimentamos (...)”. Esse foi o viés inconsciente de minha (fuga?) partida, pois algo precisava se transformar em mim, para que aliviasse a minha dor, mesmo sabendo que deixaria para trás a cidade onde nasci e que amo fervorosamente. Cabe salientar, entretanto, que meu tempo de espera se diluiu rapidamente, diante de muitas incertezas profissionais. Hoje, fazendo o que faço, alimento meu espírito, não mais o deixarei morrer de fome.

 

2-) ALEX: Ao fazer um paralelo cultural entre São Luís e Curitiba, duas cidades marcantes em sua vida, o que você destacaria nesta comparação?

ML: Minha mãe Flor de Lys me contava uma história de um velho sábio. Ele se sentava à porta de uma cidade para receber visitantes. Recebia todo tipo de gente. Um dia chega um andarilho e pergunta ao sábio como era a cidade que ele iria visitar. O sábio diz: “Diga-me primeiro como é sua cidade?” O andarilho então disse poucas e boas sobre a cidade de origem, pelo que o sábio respondeu: “não vale a pena ficar aqui, pois esta cidade é igual a que você veio”. Algumas horas mais tarde outro andarilho aparece e faz a mesma pergunta. Mas responde que a cidade de onde vinha era maravilhosa, alegre e respeitosa. Então o sábio respondeu. Meu filho, esta cidade aqui é igual a sua. Pode entrar (...)”. Como se vê, São Luís é muito rica em manifestações populares e literatura, (áreas a que me dedico). Curitiba também,  por causa da miscigenação oriunda de vários países europeus, historicamente ricos em Cultura. Entretanto, há um pequeno diferencial nisso, com pertinência ao meu trabalho, que talvez me tenha feito prosperar um pouco mais. Aqui errei também e mesmo errando, não fui cobrado de forma incisiva, em razão de fatores que me remetem a minha descendência. Essa simples ação me levou a errar menos. E participar mais, pois Curitiba, especialmente na parte literária, é uma cidade respeitosa, a começar pela “Feira do Poeta”, espaço que reúne a maioria dos poetas da cidade, numa festa dominical indiscriminada e com apoio impessoal, cheio de muito carinho.

 

3-) ALEX: Você sempre foi um visionário. Como surgiu a ideia de criar a Academia Poética Brasileira?

ML: A Academia Poética Brasileira foi institucionalizada em 27 de março de 2016 por mim e por três grandes amigos: Clevane Pessoa, de Minas Gerais, Humberto Napoleón, de Quito, no Equador e pelo professor Edomir Martins de Oliveira, de S Luís-MA. Logo nos vimos diante da escolha dos nomes. O seu foi quase imediato. Você é, sem dúvida um, grande representante de nossa APB, seccional do Maranhão. Nos orgulhamos disso. E, a partir daí as escolhas bateram à porta de 80 intelectuais, músicos e artistas visuais. Depois vieram a Revista Poética Brasileira, o Suplemento Literário Acervum, o Portal MLB (agora Plataforma FACETUBES), com um amplo espaço no Brasil, nos EUA e na Europa, e a DialradiowebTV. Com muita felicidade consigo tocar esses instrumentos de viabilização e divulgação da APB, tentando levar o nome de seus membros aos mais altos escalões pertinentes. A APB é composta de membros de várias capitais e municípios brasileiros, de alguns países como Argentina, Estados Unidos, Holanda, Portugal e Alemanha, com uma atividade diuturna que, às vezes, ultrapassa os meus limites físicos. (Risos). Uma instituição sem fins lucrativos que se sustenta pela vontade de continuar. Já editamos livros, livretos, cartilhas. Colocamos no ar programas de tevê, vídeo-poemas, ‘podcast’ literário e muitas outras atividades. Nossa APB segue firme e forte, apesar de não termos mensalidade, nem anuidade. Isso, por ser uma academia virtual, sem sede física, nem obrigações pecuniárias outras.

 

 

4-) ALEX: Quais os autores que te impactaram na tua experiência com a literatura?

ML: Tudo começou com “Cem anos de Solidão”, livro a mim presenteado pelo poeta e amigo Luís Augusto Cassas.  Outro livro que me fez chorar bastante: “Meu Pé de Laranja Lima”, desse excepcional José Mauro de Vasconcelos. Na poesia, destaco Augusto dos Anjos. Pois bem! Até conhecer García Márquez, meu interesse era por livros técnicos de minha área, o Direito. Mesmo sendo uma área técnica (eu penso assim), no fundo o Direito é das mais humanas que conheço. Por isso, me arvorava em ler e reler o maranhense Agostinho Marques e seu livro “A Ciência do Direito”. E nele fui conhecendo grandes pensadores, inclusive, filósofos. Max Weber, Auguste Comte, Hegel, Kant. Esse livro me fez começar a pensar coisas novos, mundos novos, até Augusto Cassas me fazer conhecer Gabriel García Márquez. Outro dia escrevi uma pequena resenha sobre esse livro. Está no link (a seguir), para quem se interessar: https://www.mhariolincoln.com/noticia/131/ao-pe-da-constituicao-brasileiras-varias-cantigas-de-roda-seriam-inconstitucionais-fora-da-realidade-dos-artigos-1o-e-3o-cf- Assim se deu minha entrada nesse maravilhoso mundo da literatura universal. De lá para cá, li quase tudo que caiu em minhas mãos. Uma pitada de influência aqui (sobretudo com Lacan) outra pitadinha ali (Edgar Allan Poe, e a pluralidade de William Blake) ou mais ali, com Drummond, Quintana, Bandeira, Cecília Meireles, Hilda Hilst, Maiakovski, Machado de Assis. Do Maranhão, li quase todos. Desde a velha e tradicional “Movelaria”, de Sarney, Belo Parga e Tribuzi, passando pela “Academia dos Novos”, fundada por Marconi Caldas, Murilo Sarney e Sá Vale, chegando ao movimento Antroponautico (que vc lembra bem). A partir daí o conhecimento poético se expandiu e assim, somente com essa experiência existencial absorvida através desses movimentos é que consegui entender o espírito das poesias consequentes. Por essa razão, minha biblioteca possui uma centena de novos poetas maranhenses e eu, uma centena de vezes me emocionei (e me emociono) com o que se escreve em minha terra. Assim, um rápido exemplo:  (...) “Do que a humanidade é feita/ senão de fera e faca, / de predador sobre a presa, / da vida que vive quando mata? (...)”. Alex Brasil. In “Todas As Estações”. Fantástico, não é?

 

 5-) ALEX: Ezra Pound dizia que os artistas são as antenas da raça. Você concorda com ele?

ML: Excelente pergunta! Muito mais por se tratar de um poeta seminal do século XX, como um de meus ídolos, Alan Poe, o foi no século anterior. Com ele, juntam-se Hemingway, Joyce e T.S.Eliot, até onde vislumbro. Aliás, em uma frase minha, (com base na ideia de Pound), publicada no Facebook, neste setembro (2020), e criticada por alguns amigos, digo que não só o talento vale para produzir uma obra-prima. Há necessidade de burilar esse talento, fazendo-o transformar-se em ‘sintonia’. Com certeza, é o mesmo viés, de serem os artistas, antenas da raça. Marshall McLuhan também teve essa assertiva quando disse:          “(...) todas as obras da imaginação podem exigir não só talento para a criatividade, mas para a sintonização, captando os sinais (ou ideias) que estão no ar” (Citação adaptada por mim). Ora, aqui faço um parêntese para lembrar que a frase de Pound tem uma razão fundamental. Rogo-me a citar em meu bestunto antroposófico, os Registros Akáshicos. Esses, muitos estudiosos acreditam, estão gravados no Universo desde o momento do sopro da criação. É uma espécie de biblioteca cósmica com todos os eventos, pensamentos, palavras, emoções e intenções, disponibilizada aos que são sensíveis. Pergunto: quem é o mais sensível dos humanos, senão o artista, digno representante de sua raça? A prova maior disso, que os artistas verdadeiros são antenas, é a velha polêmica sobre quem é o criador do avião. Os irmãos Wright, Wilbur e Orville conseguiram captar a mesma mensagem cósmica que o nosso Santos Dumont. O telefone é outro exemplo: Apesar de Graham Bel ser amplamente conhecido como pai do telefone, tal fato não é verdade absoluta, sabendo-se que o italiano Antonio Meucci, de Florença, também pensou o telefone. E assim, centenas de fatos ao redor do Mundo, acontecimentos e invenções são atribuídas a um ou mais ‘pensadores-cientistas’, bem separados em gênero, número e grau, pela vastidão do Planeta Terra, numa época que não tinha nem mesmo o polêmico ‘telefone’, nem redes sociais, nem rádio, nem televisão e os livros técnicos eram devidamente escondidos do grande público. Aí está a prova de que Pound acertou e eu assinei em baixo, desde criancinha.

 

6-) ALEX: Conhecer o seu talento musical foi, para mim, uma grata surpresa. Quando você iniciou o seu envolvimento com a música e quem o influenciou?

ML: Outro dia encontrei uma foto minha, bisbilhotando os alfarrábios da família. Estava com 12 anos. Eu, o piano da sala de minha casa e minha professora Dadá. Na foto, um garoto empolgado, imitando a pose de Chopin, tocando “Sonata nº 2”. E por que eu escolhi fazer a pose de Chopin? Porque foi exatamente ele que revolucionou a música tradicional para piano, criando uma nova arte do teclado. No meu primeiro CD de músicas instrumentais, com Chiquinho França (meu amigo e leal parceiro, que me ensinou muita coisa de harmonia) compus uma Ária, intitulada “Bisaflor”. E essa melodia teve algo a ver com minhas noites inteiras ouvindo Chopin, numa época não tão distante. (O link para ouvir essa e outras músicas do CD “Baixada”: https://www.youtube.com/watch?v=qEJeprMA_kw&list=PLo_BEXi55AixiL4QdMVmsdEhSEOPsq8FF. Bem, lá por volta de 15 anos até 17, toquei na noite com um conjunto de baile que formamos. Eu e mais 4 amigos. O ‘Super-5’. Muita diversão. Depois, minha família me proibiu e me fez estudar para o vestibular. Foi-se o sonho, retomado quase 40 anos depois, após minha aposentadoria. Além de Chopin, sou useiro e abuseiro de Pink Floyd, Hendrix, Bob Marley, Emerson, Lake em Palmer, Rick Wakman e os brasileiros, Os Incríveis. Esses, mais me influenciaram. Isso fica claro quando se ouve o CD Baixada. Uma das músicas que dá nome ao disco, é um arranjo extraordinário de Chiquinho França, juntando os timbres da guitarra de David Gilmour, do Pink Floyd, com o sotaque de Bumba-Meu-Boi da baixada maranhense, num casamento muito agradável. Assim, aproveito, para agradecer a esse músico brilhante do Estado e do Brasil. Valeu CF.

 

 

7-) ALEX: Considerando suas relações telúricas com São Luís, você pensa em voltar para a Atenas Brasileira?

ML: Assisti a uma palestra da Monja Coen, ano passado. E uma coisa ficou realmente gravada em minha alma. Ela disse que a gente acha que o Mundo está muito distante de nós, que está separado de nós. Mas não é bem assim. Nós somos esse Mundo, somos a vida do Universo, em constante movimento. Com base nisso, penso que a minha cidade está bem dentro de mim. Sinto-me acariciado pelo palavreado de migrantes nordestinos, quando visito o centro de Curitiba. O paralelepípedo que restou no calçamento da rua Riachuelo, rasga meu mindinho, da mesma forma que a antiga Rua Grande o fazia, quando andava de chinelos de dedo. Quando o sol se revolta contra a umidade e frieza de Curitiba e se alarga no parapeito da saudade, sinto-me à beira mar de São Luís. Outro dia, atentei para a placa de uma lojinha de esquina. Esta lá: Boutique Flor de Lis. Quando me acerco das paradas de ônibus, vez por outra passa um, cujo bairro é Boqueirão. Tem uma linha que segue direto no rumo do São Francisco. Tem um amigo, em um dos sebos que frequento, que se chama Gullar. Outro, Bacelar. O japonês do pastel da feira tem o nome do meio (Santos). Na feira de artesanato, tem milho cozido. Canjica (em Curitiba, Cural). Aqui, tenho alguns amigos que também me transferem calor e carinho nos abraços. Aqui se fala nas palestras literárias de Ferreira Gullar, Catulo, Sousândrade, Bandeira Tribuzi. Aqui se canta Zeca Baleiro e Claudio Fontana. Aqui se fala em Praia dos Lençóis. E para quem gosta de tomar uma bebida alcoólica para matar a saudade, existe o Bar da Madá. Tem a rua São Luís, no bairro Cabral. Tem a capela Madre de Deus. Então, caro Alex, acho que carrego minha amada São Luís dentro de mim, como disse a Monja Coen. Tais cenários são pura criação apaixonada de um saudoso ludovicense. E como ensina Sun Tzu em “A Arte da Guerra”, (Trate seus homens como filhos e eles o seguirão aos vales mais escuros. Trate-os como filhos queridos e eles o defenderão com a própria morte), voltarei, sim, algum dia, pois São Luís sempre me tratou como um filho querido.

 

8-) ALEX: Se você fosse sondado para ocupar uma cadeira em uma Academia de Letras, você aceitaria?

ML: Minha vontade é grande, especialmente por ser a AML um celeiro de boas cabeças e ótimos relacionamentos. Aprenderia muito com seus membros, confrades e confreiras. Porém, como disse o imortal Carlos Gaspar, “estou consciente de que a escolha de um novo confrade traduz um desejo de convivência, acima de mera disputa eleitoral”. Se assim o fosse, acho que teria alguma chance, pois admiro a personalidade de cada um da AML. E não tenho vergonha alguma, nem se tivesse que consultar meu alter ego, diria o mesmo que o imortal, desembargador Lourival Serejo, Cadeira 35, ao ser empossado: “Minha emoção tem a extensão do ideal que plantei um dia: o de integrar o quadro dos membros da Casa de Antônio Lobo (...)”. E eu pensei que esse sonho era resultado de noites mal dormidas. Não! Lendo Jacques-Marie Émile Lacan, entendi por que meu sonho continuava, com essa pertinência, após acordar: (porque) “só acordamos para continuar sonhando e sonhando no real, ou, para ser mais exato, na realidade". Ou seja, o inconsciente (nosso) acaba insistindo na hipótese de que a gente não sonha apenas quando dorme". A Academia Maranhense de Letras é uma instituição maior, como o Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão que faço parte. Como a Academia Maranhense de Letras Jurídicas que a integro, sendo um dos membros-fundadores. Como o Centro de Letras do Paraná, cujo orgulho de ser recebido por grandes intelectuais paranaenses, me fez sonhar ainda mais com essa possibilidade em minha terra. E, finalmente, como presidente da Academia Poética Brasileira, cujos resultados são surpreendentes. E por que recusar tão alta regalia; não por mim, mas por obras produzidas ao longo desses 40 anos de jornalismo e crítico literário. Aliás, numa das últimas entrevistas que fiz com você, Alex, uma coisa ficou muito viva em minha lógica: “(...) Mhario, eu estou na AML, não por mim. Por isso, acredito que o título de imortal não seja para o acadêmico. Mas pelas minhas obras. Isso é que deixa o escolhido, imortal! (...)”.

 

 

9-) ALEX: A arte é uma perfeita inutilidade, disse Oscar Wilde. Você acha que a arte capta o belo, mas não exerce funcionalidade transformadora na sociedade?

ML: Esse dramaturgo irlandês já me fez chorar e rir. Mas também já me fez pensar. “O retrato de Dorian Gray”, por exemplo, fez-me refletir e entender como aquelas pessoas que me cercavam, em determinada época de minha vida, pensavam, sentiam, reclamavam, putrefavam, algumas vezes. Também aprendi com Wilde que não se deve fazer nenhuma atividade artística pensando exclusivamente em aplausos do público. Achei muito significante, por exemplo, ele dizer: “O artista nunca deve tentar ser popular. Em vez disso, o público deve ser mais artístico”. Aí uma grande verdade! Sinto boa parte do público ser menos artístico; menos belo; menos sério. E qual a razão dessa ‘grande verdade’? Talvez eu esteja vendo essa ‘Arte como Transformação’ dentro dos meus padrões de idade, conhecimento e experiência de vida.  Ou pela qualidade intrínseca da ‘nova’ arte, que ainda não consegui captar. De uma forma ou de outra, acredito ser a Arte dinâmica, pois cada ciclo, a faz passar por um processo profundo de mudanças sensitivas, estruturais, criativas – moldes imperceptíveis - incorporando outros – novos – valores a suas entranhas. O importante é que, também, a cada período novo, essa Arte sempre estará diretamente ligada ao conjunto de conhecimentos, costumes, crenças, padrões de comportamento, adquiridos e transmitidos socialmente, a determinados grupos sociais pertinentes. E por essa razão, as influências empíricas e temporais acabam qualificando cada tipo de ‘mudança social’ (ou não), a cada período interlocutório.

 

10-) ALEX: Diante da revolução digital por que passa a humanidade, em que cada usuário é meio e mensagem, a crítica especializada ainda terá grande influência na formação de opinião sobre uma obra artística ou autor?

ML: Excelente pergunta, Alex Brasil. Acabei de ler anteontem, uma matéria que recebi do site “Fronteiras do Pensamento”, do qual sou assinante. Nele, uma entrevista com o filósofo da informação Pierre Lévy. Com base no que li e entendi, de repente, chego à conclusão de que a força imbatível da WEB, (com pouco mais de três décadas, integrando uma teia global, com os hipertextos e com a navegação na rede, indiscutivelmente, ao alcance de todos), essa influência existe, sim e de forma brutal, nem sempre para o bem. Lévy, sobre o assunto é bem claro: "É absurdo imaginar que um instrumento que aumenta os poderes da linguagem em geral pudesse favorecer somente a verdade, o bem e o belo. É preciso sempre perguntar: verdadeiro para quem? Belo para quem? Bem para quem? O verdadeiro vem do diálogo aberto aos diversos pontos de vista. Direi até mais do que isso: se tentássemos transformar a internet numa máquina de produzir somente a verdade, o belo e o bem, só chegaríamos a um projeto totalitário, de resto, sempre fadado ao fracasso”. Sigo o relator.

 

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(*) Membro da Academia Maranhense de Letras, publicitário, poeta, escritor e compositor.

(**) Mhario Lincoln é presidente da Academia Poética Brasileira.

 

 

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