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Especiais Alessandra L. Rocha

Preconceito, marginalização, intolerância, desrespeito e violência fazem dos seres humanos “minorias” a cada segundo.

Paralerepensar/Textos escolhidos

03/09/2020 12h12 Atualizada há 2 semanas
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Alessandra L. Rocha
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Textos escolhidos. 

Convidada: Alessandra Leles Rocha*

 

Preste atenção!

Alessandra Leles Rocha.

Ao contrário do que uma grande maioria da população imagina, as ações de preconceito, marginalização, intolerância, desrespeito e violência fazem dos seres humanos “minorias” a cada segundo. Está na obrigatoriedade do uso de uniformes pelas empregadas domésticas e babás. Está na presença de elevadores sociais e de serviço em edifícios comerciais e domiciliares. Está nas edificações que não atendem as normas de acessibilidade para deficientes e idosos. Está na distinção da qualidade do ensino em todos os níveis entre os sistemas público e privado. Está... em inúmeros momentos da vida cotidiana que passam conscientemente invisíveis entre nós.

Sim, a sociedade legitima essas narrativas, esses discursos, por meio da banalização ou trivialização dessas práticas. De modo que elas criam um “consciente coletivo” que autoriza todas as fronteiras da desigualdade social, favorecendo um universo amplo de “minorias” desassistidas e, portanto, destituídas de algum modo dos seus direitos constitucionais mais elementares.

São milhares de pessoas que transitam dentro da sociedade impossibilitadas de caber na estrutura social. Como no filme “Coração de Cavaleiro” (A Knight’s Tale) 1, de 2001, elas são “medidas, pesadas, avaliadas e consideradas insuficientes” com uma naturalidade aviltante. Coisas de um mundo que persiste em tratar seres humanos sob a insígnia do “vale quanto pesa”.

Por esse infeliz modus operandi centenas de milhares de seres humanos são deixados à margem. Suas competências, habilidades, talentos, criatividade, também. O que significa que a sociedade se encolhe em razão do obscurantismo de suas próprias escolhas e atitudes. Há uma perda descomunal nesse processo; mas, por mais incrível que possa parecer, insuficiente para esconder a presença maciça das “minorias” que só fazem proliferar. É; sua presença é marcada pelas estatísticas. Números que se reafirmam discursivamente em palavras de ódio e desprezo, que teimam em desqualificar... a vida humana.

Quando reflito sobre essas questões, o espanto que me arrebata é justamente perceber a total incapacidade que a sociedade tem em enxergar pessoas simplesmente como seres humanos. São os rótulos e os estereótipos que impedem a percepção clara da humanidade que reside em cada indivíduo e faz desse conjunto uma única raça, a humana. Que vive e morre sem aviso prévio. Que chega e vai embora sem levar um quinhão, que seja, de material. Que precisa de ar, de água, de alimento e de abrigo se quiser sobreviver. Nada mais do que seres vulneráveis ao imponderável da vida.

No entanto, fecham-se olhos, tapam-se os ouvidos e permitem que as bocas vociferem impiedosas, os insultos que transformam gente em “minoria”, em coisa menor, vulgar, desprezível. Como se o mundo pudesse ser um lugar melhor sem essas pessoas. Mas, será mesmo? Porque de um jeito ou de outro, aqui e ali, a dependência das “minorias” se faz visível. Sem constrangimento ou drama de consciência fazem delas alvo de sua exploração, a fim de atenderem as suas regalias e privilégios.

Pelo voto. Pelos impostos cobrados. Pelas atividades profissionais que não se adequam ao status quo de uns e outros. Enfim... Ultrapassam quaisquer limites éticos e morais para tal, considerando legitimadas as suas ações pelo silêncio que paira conivente na amplidão social.

É assim que a roda da vida tem girado, mas não transformado. Porque essas práticas insistem em silenciar o lugar de fala das “minorias”. Entretanto, chega a um ponto que todos, de um modo de outro, tornam-se “minorias” por razões diversas, fazendo com que o silêncio seja, então, geral. Por isso, fazem vista grossa. Fazem ouvidos de mercador. Para que nenhuma voz ouse romper a “paz” instituída. Afinal, ruídos são sempre desconfortantes e embaraçosos.

Mas, eis que a Pandemia chegou promovendo um verdadeiro pandemônio. Bradando aos quatro cantos a sua fúria. Nivelando sem quaisquer cerimônias “minorias” e “não minorias” e brincando de roleta-russa com elas. Quem morre? Quem vive? Quem sobrevive? Só o COVID-19 dirá. Um imenso telhado de vidro brilha sobre as cabeças e desconstrói as certezas, as convicções, os direitos.

Do mundo pós-pandemia, talvez, emerja uma imensa “maioria” em busca de uma nova identidade, de novos valores, de novos princípios, de novas perspectivas, de uma nova consciência e práxis humanitária. Mas, por enquanto, o máximo que se pode afirmar é que a manutenção das desigualdades e a reafirmação das “minorias” não cabem mais no contexto. O desgaste oriundo desse pensamento só aponta para o desapego real e imediato; porque já sobram fundamentações para se perceber que entre nós só existiram até aqui “pseudodiferenças” e nada mais. Afinal, todas as vidas importam.

 

(1) - https://www.youtube.com/watch?v=_J5rJqiUiBA

(*) https://www.paralerepensar.com.br/paralerepensar/texto_jornal.php?id_publicacao=54799

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