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Brasil VICEVERSA

Entrevista exclusiva com a atriz e escritora maranhense Linda Barros

Linda Barros entrevista Mhario Lincoln

02/09/2020 12h21 Atualizada há 2 semanas
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Por: Mhario Lincoln Fonte: ML/LINDA BARROS
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VICEVERSA (Especial Linda Barros)

Quem é Linda Barros? Linda Barros, formada em Letras, pela Universidade Federal do Maranhão, possui Pós Graduação em Língua Portuguesa, Pós em Dança Educacional e Pós em Artes Cênicas. É professora do Ensino Médio e Superior, é também  Escritora e Atriz (é membro do Grupo Teatro Improviso). Atualmente faz parte da AJEB - Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil e é membro da Sociedade de Cultura Latina.

 

LINDABARROS/MHARIOLINCOLN/LINDABARROS

Decidi capturar detalhes de alguns textos que você escreveu sobre pessoas ou casos, para ilustrarem minhas perguntas:

1 –MHARIO LINCOLN pergunta. Neste belo texto, você escreveu sobre DILERCY ADLER: “(...) a singeleza e singularidade da mulher, como sendo dona de características suaves (...) que embora possa demonstrar fragilidade, tem traços de força e vigor (...)”.

LINDA BARROS: Veja, é difícil para uma mulher moderna detentora dessas bases antropológicas no todo ou em parte, (singeleza e do vigor), admitir-se realmente apaixonada, sem prejuízo dessas características?  No momento, vivemos um efusivo e até um pouco descontrolado período de empoderamento feminino, no entanto, muitas pessoas não têm a mínima ideia do que temos que passar no dia a dia para alcançar nossas metas, nossos sonhos. A fragilidade da mulher está nos alicerces da sociedade, ou seja, nós viemos ao mundo para ser donas de casa e procriar, ou no mínimo, bordar, costurar e seguir profissões que nos foi culturalmente imposta, como a de docência, a de manicure, a de cabelereira, etc.  Sim, podemos driblar todas as bases antropológicas e todos os preceitos de que mulher é um ser frágil e demonstrar uma força descomunal a ponto de gerar e parir um outro ser.

 

2 –ML: Quando você escreveu sobre CÉSAR BOAES, nosso grande ator e um dos idealizadores do projeto cultural ‘Pão com Ovo’, o scoult foi um velho ditado “... os melhores perfumes estão nos menores fracos (...)”. Pois bem. O respeitado perfumista e empresário Jean Paul Gaultier, para garantir que seus produtos fossem os melhores do mercado, decidiu formulá-los, incluindo alguns elementos construtivos, como as formas, linhas, curvas e acessórios. Não só o inigualável estigma do cheiro. Como especialista em resenhas e análises literárias, quais os elementos que você acopla às ideias para escrever textos tão brilhantes e cheirosos, claro, já que se fala de perfume da alma? 

LB: Acredito que o estilista, perfumista e empresário francês Jean Paul Gaultier, tinha toda razão ao colocar os melhores cheiros nos menores frascos. O que perpetua e o que se sobressai no mundo contemporâneo, são as coisas grandes, sejam pessoas ou objetos. Eu como uma pessoa minuta que sou, sei bem o que é isso. Ainda que você se esforce para que lhe vejam, são os grandes monumentos que normalmente são destacados no mundo. Mesmo lutando com isso que lance olhar mais apurado para nós de baixa estatura, as dificuldades são muitas. Mas graças à dádiva de Deus, que nos deu sabedoria, essa fila só tem a crescer, basta lembrar de nomes que fizeram história mesmo não sendo gigantes de tamanho, é o caso por exemplo da “nossa’ pequena notável Carmem Miranda, o pequeno Nelson Ned, uma das vozes mais bonitas que o Brasil já teve, o gigante minuto e imenso estrategista Napoleão Bonaparte, entre tantos nomes. Por fim, a necessidade da vida nos faz crescer e mostrar de passos pequenos chegaremos longe.

 

3 – ML: Na carona do seu texto sobre DOMINGOS TOURINHO, gente grandiosa, pessoa do bem, pergunto, aproveitando a frase: “Domingos Tourinho, este canceriano nascido em 20 de julho, sempre levou muito a sério seu ofício de representar”. Sobre os signos, eles realmente influenciam no comportamento inato do ser humano? Ajudam a vesti-lo de características dos signos pertinentes?  

LB: Devo concordar com William Shakespeare dizer que “há mais coisas entre o céu e a terra que pode imaginar nossa vã filosofia”, independente de qualquer corrente religiosa (sou católica), temos que pensar que somos iluminados pelos astros. Sou de escorpião e sou fielmente condizente com as características desse signo do zodíaco e para completar verdadeiramente, sou uma mulher de fases.   

 

4 – ML: Em um trecho bem interessante da matéria assinada por você sobre UIMAR JUNIOR, esse imenso ator performista, há o seguinte parágrafo: “Uimar Júnior é uma ponte entre o real e o imaginário, usando seus inúmeros personagens para protestar, instigar e compartilhar suas angústias”. Com base nisso, a arte é um palco para extravasamento pessoal, íntimo ou, apenas, um local onde há muito mais explosão de talento, criatividade e improvisação, do que de catarse, propriamente dita?

LD: A Arte existe como forma de representação do real e do imaginário. Acredito que talento é um dom, e quando esse, é usado para ajudar o outro, torna-se mágico. Aliar arte ao desenvolvimento social, seja para o bem seja para o mal, sim, pois há pessoas que se transformam em desafetos, por achar que essa arte de representar em forma de protesto, é tão somente para destruir a imagem de outrem; essa arte chega a seu limite.

 

5 –ML: Esse é um poeta vencedor do Prêmio ‘Cidade de São Luís’ e outro na cidade de Recife, em Pernambuco. Sobre JOSÉ MARIA NASCIMENTO, assim você escreveu: “Seus versos não são meramente palavras encontradas no vento e colocadas no papel para preencher vazios (...)”. Ao ler, ‘versos/palavras encontradas no vento’, veio-me à lembrança do trabalho de Chico Xavier – “Parnaso de Além-Túmulo”, onde uma das apresentações desse livro traz “De pé, os Mortos”, atribuída ao espírito maranhense Humberto de Campos. Pois bem! A partir dessa introdução, passo a indagar: você acredita em vida pós-morte, na reencarnação e na comunicação mediúnica entre os vivos e os desencarnados? No caso das artes, especificamente, há insights reais desses espíritos pertinentes às ideias, cores, palavras, colocações, harmonias quando alguém está realizando uma obra, mesmo não sendo espírita? Há informações preludianas que interceptam essas criações? É normal isso acontecer, ou não?

LB: Este é um tema muito delicado. Acredito fielmente nos insights, eles acontecem a qualquer hora e em qualquer lugar, então ouvimos aquela velha frase “nossa hoje você estava inspirada!”.  Às vezes a inspiração está nas coisas mais simples da vida e então, começamos a refletir sobre os mistérios da própria vida. De onde veio isso? Como consegui fazer isso? Uma luz “baixou” em mim? Não é nada disso, é tão somente o insight mostrando sua cara. Todo o resto, é o mistério da vida.

 

6 –ML: No seu PERFIL DO FACEBOOK. Li a seguinte frase: “Todos nós temos duas vidas: a vida que sonhamos e a vida que somos obrigados a viver!". Na verdade, isso funciona, é real, ou só uma expertise poética? 

LB: Infelizmente vivemos em uma sociedade que só enxerga o que quer ver, ou seja, vivemos em sociedade que “caminha” em linha reta e não curvilínea. Ainda assim, conseguimos dribla-la e pular algumas dessas curvas, sem olhar para trás e sem se preocupar com o que os outros vão dizer ou pensar. Tem uma frase maravilhosa que ouvi há muito tempo assistindo a uma série chamada JK, uma personagem falava para outra: “Aproveite a vida enquanto você pode tirar a roupa na frente de um homem”. Metaforicamente para mim, esse “homem” é a sociedade, que nos cobra, que nos mede, que nos exige, principalmente de nós mulheres. E sim, por mais, digamos, faço isso, ou faço aquilo, sempre o fazemos com receio. Mas, o mais importante, é que uma hora ou outra você tem que olhar para frente e pular algumas dessas curvas. Eu também sou atleta de rua e às vezes nos meus treinos eu ouço mulheres que têm mais ou menos a mesma faixa etária que eu, conversando sobre comidas, receitas ou o que vão comer ao chegar em casa, enquanto eu, estou mentalmente memorizando meus textos para o teatro, ou formulando meus próximos artigos. E é óbvio que nesse turbilhão de acontecimentos há coisas que infelizmente eu não posso fazer por causa de um outro lado meu, que é a carreira de docente. Por fim, todos temos uma vida dupla.  

 

7 –ML: Em seu INSTAGRAM, uma foto com a família. Pergunto: como é viver intensamente as artes e a literatura quando todos são ligados a esse mundo? O esposo é da Academia Maranhense de Letras, o filho escritor e formando em jornalismo e a filha totalmente envolvida com o teatro. Sobra espaço para que? 

LB: Certa vez um amigo me disse “você é uma pessoa proparoxítona”. Até então eu não havia pensado nisso, no entanto, eu costumo sempre dizer que minha vida é 360° na tomada. Não sobra tempo para muita coisa não. O ritmo é intenso, todos os dias. Não um só dia que possa dizer “hoje não tenho nada para fazer”. As pessoas devem pensar “será que ela não cansa?” Eu respondo: não.

 

8 –ML: À propósito, em um texto escrito para o marido, JOSÉ NERES, você diz: “Mesmo com títulos que honraria qualquer mortal, Neres faz questão de não ser chamado de Doutor, pois para ele, ‘é somente um título’ o que não o faz sentir-se melhor que ninguém”. Valem aplausos, não é? Todavia, todos os setores humanos estão cheios de pessoas egoístas. Oscar Wilde tem uma frase muito marcante acerca disso. Ele diz: “Egoísmo não é viver à nossa maneira, mas desejar que os outros vivam como nós queremos”. Como você, transeunte por tantas áreas profissionais, vê essa disritmia psicótica? 

LB: Eu acredito que vivemos em um mundo totalmente egocêntrico. Esses valores estão por toda parte, seja na vida real, seja no virtual. O mundo virtual está impregnado de valores incultos, quer dizer, o que mais importa são os números de seguidores que você tem. Os títulos sejam eles acadêmicos ou não são abastados de valores, muitos casos, não nada a oferecer. E, lamentavelmente, essa abstinência de simplicidade, está em uma pequena minoria, pois na realidade, o que observamos, são nomes carregados de títulos e muitos deles, são canudos vazios de conhecimento.

 

9 – ML: JOSÉ NERES (2) – Quando você abre o texto sobre seu marido, você esclarece: “Dizem que a profissão é uma vocação ou um dom, certo ou errado, algumas pessoas já nascem predestinadas a seguir seu curso, podendo até desviar do caminho, mas o certo é que, de uma forma ou de outra, sempre acabam fazendo aquilo que mais têm afinidade”. Com todos de sua família, inclusive com você, aconteceu a mesma coisa, ou é algo genético, inato?   

LB: O famoso dito popular “filho de peixe, peixinho é” se sobressai muito bem na minha casa. No entanto, acredito mais na influência do que na genética. Minha filha Laura quando tinha apenas 7 anos, arrumava uma mesa com cadeiras e colocava as bonecas para assistir aulas que ela ministrada dizendo-se professora. Nessa idade, acredito que uma criança não tem muita noção da profissão de ser docente, mas ela o fazia e com 14 anos começou a escrever seu primeiro livro, que foi lançado quando ela completou 16. Meu filho Gabriel desde que começou a entender da realidade, sempre quis ser jornalista, ele lançou seu primeiro livro de literatura infantil aos 7 anos de idade. Os dois sempre nos acompanharam nos eventos: lançamentos de livros, palestras, peças de teatro. Enfim, dizer que o meio tem muita influência, mas fico na dúvida também sobre a genética, eu não descarto essa possibilidade. E para deixar essa dúvida no ar, cada um tem sua própria biblioteca.

 

10- ML: TEATRO – ”O teatro é o primeiro soro que o homem inventou para se proteger da doença da angústia”. De Jean Barrault. Concorda ou discorda? Se for um outro viés, gostaríamos de saber. 

LB: Como disse em uma recente postagem, a Arte nos impulsiona a sairmos do nosso próprio corpo e nos faz chegar outros mundos que só nós enxergamos. O teatro, os palcos de forma geral, os espetáculos, sejam esses grandes ou pequenos, nos ajudam, nos conforma e nos transformam em seres humanos melhores. O teatro te ajuda a superar os obstáculos e enxergar através das cortinas um mundo completamente desconhecido e os personagens que incorporamos nos ajudam a superar tudo isso. O teatro é vida e a vida é Arte.

 

LINDABARROS/MHARIOLINCOLN/LINDABARROS

 

1. LINDA BARROS: Na sua entrevista com Paulo Rodrigues, foi tocado em um ponto muito importante, no que tange às artes, em específico na música. Você fez um belo passeio por outros estados mostrando que lá se valorizam seus artistas. Gostaria de mencionar que lamentavelmente, não sei se pelas bandas de lá, mas pelas daqui o que se observam, são as mesmas vozes, mesmos nomes, pouco se vê ou se apoia nomes que estão começando e que “gritam” e clamam para serem reconhecidos. Como você vê isso e o que poderia sugerir aos governantes para minimizar essa situação?

MHARIO LINCOLN: Há quem acredite de pés juntos, que a nossa cultura perdeu a importância e, assim, dificilmente entra numa lista política de prioridade, seja o governo que for, até agora. Prioridades esquecidas que causaram, por exemplo, quase a destruição completa do Museu Nacional, além do que descascou a ferida da negligência das políticas públicas para esse setor. Parece que não há mais nenhum interesse em resgatar valores, nem mesmo através dos incentivos culturais. E muitos sabem da força transformadora dessas manifestações, em quaisquer que sejam os nichos. A precariedade atinge igualmente a base da pirâmide: a qualificação técnica e os festivais reveladores das novas gerações musicais. Em estudo recente do pernambucano Leonardo Sales, um dos mais completos já publicados sobre a Música Brasileira, um ponto também importante, é suscitado:  a guerra televisiva dos anos 1990, como criadora da linha de ‘hits’. A partir daí, com qualidade ou não, desde que atingisse audiência e dinheiro, os programas populares de “Faustão” e “Gugu Liberato”, lançavam ‘hits’ que logo viravam sucesso. Isso, interligado a rádios, em cuja programação abusavam dos lançamentos ocorridos na TV, no dia anterior, em detrimento à melhor música feita nos Estados ou Municípios. Hoje, para muitos, inclusive para mim, tudo depende de sorte no Youtube, o palco democrático (?) e universal das Artes. E nem precisa tanto de talento assim para o sucesso chegar. A sorte é o padrão. Sim, tudo hoje é uma questão de sorte. Como teve o autor de ‘caneta azul’, claro, sem nenhum desmerecimento de minha parte. Ele lutou e conseguiu!

 

2.  LB: Ultimamente muito tem-se falado sobre censura, liberdade de expressão. Qual sua visão desse cenário comparado a décadas anteriores?

ML: Vivi momentos muito tensos quando escrevia em alguns matutinos de São Luís nas décadas de 70/80. (Na minha segunda fase, escrevi mais 20 anos). Fui, muitas vezes, indisciplinado quando o assunto mexia com as pessoas menos favorecidas. Minha voz soou forte por sobre os muros do poder, na época. Tive retaliações. Perdi algumas coisas importantes. Lutei até não poder mais. Até o momento em que todas as pessoas que me usaram como mestre-sala, me deixaram só. Não reclamei. Não quebrei. Não chorei. Alguns anos depois da recomposição, construí um atalho, pelo qual acabei fazendo ecoar meu grito, ainda mais forte. E se brincar, ainda tem alguns deles bem guardados nas cercanias da Fonte do Ribeirão. Era lá que muitas vezes recitava meus parcos versos nas madrugadas pálidas, para Netuno e Poseidon ouvirem. Únicos espectadores. Quando nada mais restava, conseguia ouvir as sandálias dos capuchinhos em fuga, ecoando pelos restilhos de água corrente, fugindo pelas galerias da fonte, dos problemas existenciais do ontem. Assim, neste outono de meus dias, tenho vivido em paz, pois é inabalável a certeza de que nunca ultrapassei os limites de minha benquerença. Por isso, é inevitável não relembrar: “Eles passarão.../ Eu passarinho!”, de Quintana.

 

3.  LB: Você é considerado um dos grandes intelectuais da atualidade. Embora more fora de terras maranhenses, vive intensamente a cultura de sua terra. Como vi certa vez um depoimento (que não me recordo quem o fez) “Você saiu do Maranhão, mas o Maranhão não saiu de você”. Então, como você avalia o atual cenário cultural maranhense?

ML: Falar em cultura me deixa bem triste, Linda Barros. Existem tantos erros estruturais na máquina pública que, caso não haja uma reação pessoal e intransferível, de um lado, de quem a comanda, e de outro, de quem a faz e corre atrás, esse 'status quo' dificilmente vai mudar, a começar pela autoridade pública. Essa, nem se dá ao luxo, em muitos casos, de “reconhecer os diversos segmentos existentes no contexto cultural da região", como aprendi ao estudar José Carlos Durand, Coordenador do Centro de Estudos da Cultura, na FGV-SP. Ele tem razão! Pelo menos três segmentos têm que ser observados em quaisquer que sejam os planejamentos, enquanto bem público-sociocultural:  a cultura erudita, a indústria da cultura propriamente dita, e todas as manifestações populares e suas variáveis. Tenho certeza de que havendo interesse em engrenar todo esse aparato cultural regional, dentro de pouco tempo a máquina produtiva de cultura estaria azeitada, com grandes chances de funcionar por si só. Porém, falta a alguns que se dizem gestores públicos culturais, uma visão mais ampla e sensível, que fuja aos padrões ingênuos, interceptados por pinceladas eleitoreiras. Isso se vê muito na promoção de shows (no caso da música), de esparsos espetáculos em praças públicas (no caso da arte cênica), ou em raros movimentos literários, que acabam caindo no descrédito junto a toda comunidade artística. Essas ineptas ações não azeitam a máquina. Não servem de alavanca para voos mais altos. Não capacitam o elemento-chave da cultura: o feitor. Seja literário, musical ou artístico, incluindo aí, também o cinema, o teatro físico ou mamulengo. Pelo contrário, faz toda população artística de uma região depender diretamente das minguadas verbas da cultura. Muitas vezes, nem são cumpridas as obrigações do pagamento. Por outro lado, como fazer cultura e arte em lugares em total degradação? Nossas praças e largos, nossos teatros de arena, nossas casas de show, públicas, as plataformas das regiões turísticas, o próprio turismo... e por aí vai. Fazer cultura, antes de qualquer coisa, é conhecer uma interdependência orgânica, muito além de um chocalho com fitas coloridas. E sabe o que é mais grave? A cultura é um produto. E como tal, produz de forma direta ou indiretamente, divisas para o Estado, para o município ou para a localidade onde é praticada. A cultura dá retorno. A cultura, educa, refaz más ideias, recupera, cura, enaltece e glorifica. E mais grave ainda: alguns dos gestores que conheci em minha terra, nem tentaram, pelo menos, estudar esse diferencial e entender o espírito incomensurável da cultura; pelo visto, desconheceram o retorno físico, moral, espiritual, financeiro e profissional, tudo isso, que a cultura pode trazer para seu povo.

 

4.    LB: Mesmo de longe, você é definitivamente um homem de visão holística das coisas. Falando mais especificamente sobre o teatro no Maranhão e mais restritamente a São Luís o que falta ao nosso teatro em termos de espaços físicos?

ML: Acredito que essa resposta também pode se enquadrar na assertiva anterior. Todavia, tento fazer aqui uma analogia com uma das peças mais premiadas do teatro popular do Estado. Essa minha forma de pensar me remete ao ano de 1975, onde assisti "Tempo de Espera", de Aldo Leite, encenada pelo Grupo Mutirão. Essa peça é um marco e um exemplo de até onde o teatro maranhense é capaz de chegar. “Tempo de Espera” é uma história-denúncia mostrando um núcleo familiar em eterna espera de ajuda do poder público, para suprir as necessidades básicas de sobrevivência. Por isso, vivem de forma miserável, tendo que cometer alguns atos bastante constrangedores, para a época. Trazendo para nossa realidade, existem excelentes escolas de teatro no Maranhão. Existem excelentes atores. Existem roteiros multiplicadores de excelência. E daí? Onde estão os festivais anuais? Onde estão as reformas modernizadoras necessárias nas casas de espetáculo? Onde estão as oportunidades de financiamento? E quando existem, são para bem poucos. Onde estão, na verdade, a disposição e o 'querer' do Poder Público em ampliar as mínimas condições para que o teatro maranhense possa fluir de forma hábil e maravilhoso como aconteceu com "Tempo de Espera", representante do Brasil no "Festival Internacional de Teatro de Nancy/França", em 1977, um dos mais prestigiados festivais europeus da categoria? O fato de "Tempo de Espera" fazer tão grave denúncia, transmutada para a Cultura, neste caso, tem uma razão constitucional de ser. As manifestações culturais não podem ser mendigas, pedindo esmolas para o Estado. Não! Pelo contrário. É uma obrigação que está na Constituição do Brasil. Leia-se: "Art. 215. O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais". (Grifos nossos). Ora, então o que falta, senhores do Poder?

 

5. LB: E ainda na sequência da arte de atuar, certa vez uma determinada pessoa falou claramente, “o nosso teatro não é valorizado, porque não temos bons espetáculos”. Como você vê as produções teatrais na contemporaneidade? Mudou alguma coisa, se comparada aos grandes nomes do passado, como Aldo Leite, Ubiratan Teixeira, Reinaldo Faray, Fernando Moreira, entre outros gigantes do teatro?

ML: Também falei disso acima. Contudo, acho que comparar Pelé com Neymar é um risco grande. Na época de Pelé, o gramado era diferente, as medidas eram diferentes, as chuteiras eram diferentes, os exercícios e as concentrações antes das partidas eram diferentes. Os salários eram diferentes. E isso pode ter levado o Pelé a ser Pelé, naquelas condições e Neymar a ser Neymar, nas condições atuais. Apenas o talento, esse sim, é incrivelmente imutável. Mas adaptável a cada evolução de vida. Assim, é o Teatro do Maranhão. Aldo, Bira, Faray e Moreira, indiscutivelmente são os ‘pelés’ do teatro do Maranhão. Todavia, em outras realidades. Isso não significa dizer que o talento do exército teatral tenha diminuído. Em hipótese nenhuma. Quem realmente diminuiu foi o caráter e a disposição dos homens que comandam a ‘roda da fortuna’ e relegam à condições mínimas a cultura neste país.

 

6. LB: Como foi para você essa transição dos programas de rádio, que podemos dizer “físico” para a Radioweb?

ML: Uma experiência leva a outra. Meu primeiro programa de rádio, foi na emissora ‘Timbira”, ainda funcionando no último andar do Edifício BEM, em S.Luís-Ma. Fazia o “Mundo Científico”. Discutia sobre viagens espaciais, descobertas científicas, evolução do Mundo, Extraterrestres e estudo das catástrofes da Terra. Era muito interessante. Aprendi muito. Então, fazer uma radioweb não foi difícil. (Nossa primeira emissora na internet foi em 2004). Uma experiência sensacional! Um dos principais programas da nova radioweb (junto com este portal) foi o de músicas maranhenses, narrado em português de Portugal, dirigido à toda a Europa. Foi fantástico! Quem quiser ouvir, está disponível em: https://soundcloud.com/user-891786142/radio-web-mlb. Este mês estaremos colocando no AR a ‘DIALRADIO’, a nova estrutura de rádio da nossa plataforma que agora se chama FACETUBES, ampliando os horizontes para os EUA e Europa.

  

7.  LB: Estamos, em pleno século XXI, vivemos em total efervescência de absolutamente tudo. Nada hoje é como era algumas décadas atrás. A televisão mudou seu formato, hoje há um dinamismo muito grande, a rádio mudou, já podemos abrir um aplicativo e ouvir e ver as notícias e quem as noticia (que é o radialista). O livro mudou de formato, agora temos as revistas eletrônicas. Enfim, nada hoje é como antes. Como você se adapta a tudo isso?

ML: Eu me reinventei! Lembrei neste instante de Marshall Luchan. Li em um dos textos dele que as ferramentas criadas pelo homem o acabam recriando, pois nesse caso o homem observou o fogo e o fogo recriou o homem. Então, com algumas experiências básicas que acumulei ao longo de quase 50 anos de vida ativa em diversos campos da atividade humana, acabei me adaptando melhor à estas mudanças, reinventando essas experiências.

 

8.    LB: Uma das perguntas que me foi feita, nesta entrevista, foi relacionada à genética, pois como muitos sabem, aqui todos estamos ligados à arte de escrever e de atuar. Mas conte-nos você, como é essa veia artística na sua vida? Já que você é filho de uma das maiores estrelas da TV maranhense, a saudosa Flor de Lys.   

ML: Primeiro, muito bom lembrar de minha mãe. Foi uma briga no começo de minha vida profissional. O jornalismo começou em 73. A Faculdade de Direito, alguns anos depois. Meu pai, José Santos, de tradicional família de juristas, queria me levar para trabalhar com ele no escritório. Todavia, já estava atuando nos rádios, jornais e TV. Foi bem difícil tomar uma decisão. Porém, meu coração venceu. Expliquei ao meu pai e ele entendeu. Mesmo assim, exerci alguns cargos políticos na área jurídica, publiquei dois livros “Teoria e Prática do Inquérito Administrativo” e “Remuneração de Cargos e Funções Públicas”, além de dezenas de ensaios, resenhas e textos jurídicos publicados na imprensa local e nacional. Com isso, cheguei a ser um dos membros-fundadores da Academia Maranhense de Letras Jurídicas. Meu patrono é meu tio, advogado Mário Santos. Na sequência estreei na TV Difusora com programa de entrevistas. Depois, passei a fazer reportagens externas para o programa de minha mãe, na mesma emissora, onde dirigi “Flor de Lys na Difusora”, até minha irmã assumir, após a morte dela em 2011. Já morava em Curitiba. Na capital paranaense retomei meus trabalhos virtuais com o “Portal Aqui Brasil”, por 10 anos, sendo substituído por minhas atividades atuais, incluindo a Academia Poética Brasileira.

 

9.  LB: Em um artigo muito interessante que você escreveu, sobre a história de Dom Pedro I, você nos conta fatos muito interessantes, desconhecidos por muitos, inclusive por mim. Sobre isso, eu gostaria de fazer uma ponte entre o referido artigo e uma novela de época, reprisada em uma das maiores emissoras de TV em nosso país. Como você vê essa mescla do real com o fictício? Será que de certa forma esses fatos que são colocados na TV, podem influenciar na opinião daqueles leigos, que não conhecem a história verdadeira? 

ML: A mim não me chegam momentos em que há influência (histórica) direta nisso. O leigo, quando leigo, desconhece, inclusive os fatos reais. Porém, o que realmente preocupa é o absorvimento da narrativa e as consequências que tal fato poderá gerar dentro de um contexto sociológico, claro. Antes, vale aqui ‘en passant” lembrar rapidinho da teoria de Paul Ricoeur, com pertinência à novela reprisada (com algumas incongruências explícitas). Ele disse: “...a História seria simultaneamente lógica e temporal, de modo que surge com ela a possibilidade de integrar dialeticamente aspectos que antes pareceram inconciliáveis”. No meu bestunto, à narrativa histórica se pode, então, ficcioná-la, a fim de que se exponha o processo dialético, cujas discussões, possam levar a outros conceitos e outras indagações. Entretanto, quando o campo alocutário é leigo, esse entendimento ficcional não o leva a discussões ou questionamentos. Mas, leva à incertezas perigosas diante da narrativa conceituada. Desta forma, mensagens subliminares, agregadas como (‘forma de narrativa ficcional’), podem facilmente povoar um determinado público alvo, fragilizado pelo desconhecimento do fato real.

 

    LB: Em um dos seus belos textos ESPELHOS, você diz “A gente acaba descobrindo não precisar mais de espelhos, quando aceita que a alma legítima não tem ego...”. Tendo ou não tendo ego, é muito bom ouvir críticas, construtivas, de preferência. Como você convive com isso?

ML: Meu ego já foi imenso, claro. Já precisei de espelhos, de aplausos, de reconhecimento. Isso tudo numa época em que vivenciava uma concorrência das mais disputadas em minha área, quando passei longo período da vida escrevendo em dois jornais muito conceituados no Maranhão. Numa época de ‘glamour’ e de vaidades, onde as colunas sociais representavam uma espécie de ‘Google’, sim. Até mesmo influenciavam em comportamentos sociais, ideológicos e sofismáveis. Desta forma, quanto mais pessoas liam e seguiam minhas orientações como colunista diário, diante de um cenário onde só tinha grandes nomes desse tipo de jornalismo, na época, fez-me chegar a muitas vitórias e muitas decepções, com meu ego crescendo e diminuindo a cada momento desse período. Porém, com o amadurecimento e a consciência do real objetivo da passagem do Homem pelo Planeta Terra, filosofia encontrada em alguns segmentos espirituais, os quais frequento até hoje, mudaram meus conceitos e me colocaram no meu verdadeiro lugar, neste pequeno ponto azul do infinito universo. (Muito obrigado).

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