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Cultura VICEVERSA

Paulo Rodrigues, Prêmio Internacional de Literatura 2019, da União Brasileira de Escritores

VICEVERSA: Mhario Lincoln/Paulo Rodrigues/Mhario Lincoln

23/08/2020 19h57 Atualizada há 4 semanas
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Por: Mhario Lincoln Fonte: ML
ML/PR/ML
ML/PR/ML

VICEVERSA: De Mhario Lincoln para PAULO RODRIGUES

 

1 – “Escombros de Ninguém” é uma catarse inexplicável ou tem algo de muito explicativo naqueles poemas de individualidade explicita? Ou, não?

Resposta – Paulo Rodrigues: Escombros de Ninguém é um livro bem dividido, que se projeta para além do óbvio. Eu pensei o corpus do livro quando estava escrevendo, porque o poeta precisar ir além do poema para forjar uma geografia lírica mais ampla. Em tempo, Mhario, a poesia não carece de explicação. O Ferreira Gullar diz no poema de abertura do livro Em Alguma Parte alguma: “ é que só o que não se sabe é poesia”. Eu penso exatamente assim. 

 

2 – Kant dizia: “Age sempre de tal modo que o teu comportamento possa vir a ser uma lei universal”. Transmudando-se tal assertiva para o lírico, quais as similitudes que compõem esse teu ‘eu poético’? 

Resposta – Paulo Rodrigues: A poesia deve caminhar nas terras da imprevisibilidade, porque a vida é imprevisível. Deve nascer com a verdade dos dedos arrancados pelas pedras, com uma linguagem certeira. O poeta que consegue administrar bem a imprevisibilidade, o amargo dos dias e a palavra exata (acaba alcançando a universalidade). Não é fácil, mas deve ser o alvo sempre.

 

3 – Nos livros teus lidos e relidos, absorvi um ‘eu lírico’ muito forte. Então, o ‘eu lírico’ é o que dá realmente voz ao poema ou essa voz é a mesma do autor real? Há simbiose? Pois há quem acredite que não se deve confundir uma coisa e outra. Concorda ou não?

Resposta – Paulo Rodrigues: Cada vez mais acredito que literatura é um lance de personalidade. Carta ao Pai do Franz Kafka só poderia sair de uma mente perturbada com uma relação trágica com o pai. Kafka está todo naquele texto, mas encontra-se também no Processo, com Josef K que é acusado e vive a angústia do inexplicável. É condenado sem provas numa narrativa densa e envolvente. O menino que sofria com os xingamentos do pai arranha cada palavra da novela. Não tenho dúvida.  Não temos como separar a criação literária do criador. Eu estou inexplicavelmente espalhado como uma fina poeira em cada texto que produzo.

 

4 – “Subversivo/ como os grãos de enganos/ são os cultos/ deste segredo: ”. Esses versos me levam a raciocinar junto com Maiakóvski, in ‘Blusa Fátua’: “Costurarei calças pretas/ com o veludo da minha garganta/ e uma blusa amarela com três metros de poente(...)/”. Noto claramente nos dois versos, angústias internas e coletivas. No teu caso, em que momento o todo coletivo se impôs ao eu lírico? Ou ambos são equivalentes na construção intestina da ideia poética?

Resposta – Paulo Rodrigues: O Affonso Romano de Sant’Anna diz num poema do livro Sísifo desce a montanha: “erguer a cabeça acima do rebanho, é um risco, que alguns insolentes correm”.  O poeta deve erguer a cabeça acima dos homens que não se pensam e não pensam o espetáculo de uma existência findável. Ao erguer a palavra, as nossas dores e angústias individuais devem representar o ser coletivo.  

 

5 – E por falar nesse brilhante poeta russo, um dia achei num Sebo, um livro de Eduardo Alves da Costa, que contém aquele poema maravilhoso chamado “No caminho, com Maiakóvski” e parte da velha geração que lutou contra a Ditadura de 64, acreditava ser de autoria de Vladímir Maiakóvski. Pois bem! Eduardo foi preso em 1972 e levado para o temido DOPS. Durante 20 dias os agentes tentaram lhe tirar informações do PCB. Ele não sabia. Então, extenuado com a pressão policial, Eduardo chorou. Aí o delegado disse: Você é poeta? “Sim”, respondeu Eduardo. “Vocês, poetas, são sensíveis, né? Replicou o cara do DOPS. Foi a partir daí que foi pronunciada pelo delegado a frase mais chocante na história da poesia: “Na minha opinião o negócio de poeta é dar o ....”. Uma historinha rápida para provar como certos setores brasileiros tratam os poetas. À propósito, essas opiniões ainda sobrevoam as cabeças líricas brasileiras?

 

Resposta – Paulo Rodrigues: O Brasil é um país incauto no sentido literal da palavra. A exclusão pela ausência de leitura é um projeto da pequena burguesia do nosso país desde o zero ano da colonização. Os escritores, poetas, músicos são vistos como subversivos, por isso é necessário o exílio nos tempos de ditadura e persegui-los abertamente em tempos de fascismos como o que estamos vivendo com o Bolsonaro, um presidente terraplanista que odeia o conhecimento e a cultura. Chegando ao absurdo de não assinar o ‘Prêmio Camões’, porque o ganhador foi Chico Buarque de Holanda. Devemos construir nossos artefatos linguísticos, de maneira que eles possam interferir na “ordem social” e promovam uma mudança efetiva na desgraça humana, orquestrada por meia dúzia de financistas.  

6 – Não fosse meu bestunto irracional, antes de tentar escrever poesias, teria perguntado a Rainer Maria Rilke. Em teu caso, bem diferente, claro, algum dia houve necessidade de fazer uma profunda investigação sobre qual motivo te leva escrever poesias ou morreria, se te fosse vedado escrevê-las, como in ‘Cartas a um jovem poeta”?

Resposta – Paulo Rodrigues: Eu só existo na minha escrita. A minha carne, o meu rosto, os meus olhos castanhos não são mais verdadeiros que os meus versos. Rilke tinha razão em buscar uma necessidade enlouquecida para escrita, porque a vida precisa de loucura. A escrita também.

 

7 - Ao receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1971, o poeta Pablo Neruda, em seu discurso, previu que em quaisquer que fossem as tendências do mundo novo, “a poesia nunca faltará”. Foste um dos grandes vencedores (2º) do Concurso Internacional de Literatura 2019, promovido pela União Brasileira de Escritores. Um concurso de poesias o qual sempre chama muita atenção dessa parte do Planeta. Assim, como estamos no século XXI e praticamente ‘no novo mundo’, significa dizer que as profecias de Neruda se materializaram?

Resposta – Paulo Rodrigues: Pablo Neruda sabia do alcance simbólico da poesia. É o gênero literário com menos espaço na mídia televisiva, nos grandes jornais escritos, na crítica literária, no entanto, sempre terá alto prestígio humano. O que explica tal fato? Respondo com o Oswald de Andrade: “a poesia é a descoberta das coisas que eu nunca vi”.   

 

8 - “Uma interpretação para São Gregório”, é considerado um dos três livros mais importantes de todos os países de língua lusófona. Sem dúvida, uma honra para o Maranhão. Conseguiste entrar na lista dos quatros maiores poetas vencedores desse prêmio, elencada pelos maranhenses Ferreira Gullar, Salgado Maranhão e Nauro Machado. Um livro excepcional. Quais insights poético, sensorial e lírico materializaram-se na produção desse trabalho vitorioso?

Resposta – Paulo Rodrigues: Há um certo exagero em relação ao livro ‘Uma Interpretação para São Gregório’. Ele venceu um prêmio importante e charmoso da literatura nacional, promovido pela UBE-RJ. Quando você olha a biografia dos imortais da ABL, praticamente todos tem um prêmio da União Brasileira de Escritores. Eu fiquei muito feliz, pois é um sonho ganhar uma distinção que Ferreira Gullar e Salgado Maranhão levam no curriculum. O poeta Fernando Abreu diz na apresentação: “Paulo Rodrigues sabe que a poesia será sempre um campo minado”. A minha maior virtude no livro ‘Uma Interpretação para São Gregório’, é saber a lição explicitada pelo poeta.

     

9 – Há relação direta entre a tua militância política, tuas ideias, tua vida agitada contra as injustiças público-humanas e tua poesia? Em que graus, se tivesses que listar as prioridades?

Resposta – Paulo Rodrigues: No poema NA LUTA DE CLASSES de PAULO LEMINSKI ele diz de forma brilhante: “Na luta de classes/ todas as armas são boas/pedras/noites/poemas”. O poeta não pode esquecer que vive num mundo injusto, montado para excluir negros, mulheres, índios, enfim qualquer grupo humano que não seja homem branco, machista, racista e proprietário. A poesia deve denunciar a vida, sem cair no panfleto. Toda literatura de qualidade tem profundo engajamento social. É claro que sou atravessado por uma visão marxista, com o encantamento declarado pela obra existencialista de Sartre. Acredito, inclusive, que poetas, escritores, intelectuais de outras áreas que não se preocupam com os aspectos injustos da sociedade capitalista são amebas perfeitas.

 

10 – Saiba que é muito importante para a Academia Poética Brasileira tê-lo nos quadros. Especialmente quando és Vice-presidente Regional, da Seccional do Maranhão. Mas, vamos mais longe: tu guardas alguma pretensão de ingressar na Academia Maranhense de Letras? Esse é o próximo passo, já que as cadeiras da AML estão ocupadas também por jovens poetas brilhantes como Joaquim Haickel, Alex Brasil, José Neres, Félix Alberto, Antônio Carlos Lima, entre outros?

Resposta – Paulo Rodrigues: Mhario, meu caro amigo, sou um autor que trabalha muito duro, durante longas horas pelas madrugadas, numa solidão terrível, porque não tenho gato, nem cão em casa. Meus filhos são alérgicos e isso me proíbe a adoção de animais de estimação. Então, enfrento a tarefa de escrever sozinho literalmente. Estudo muito literatura, filosofia, o pensamento social brasileiro, o racismo estrutural para entender esse país injusto. Estou na construção de um romance. Finalizei mais dois livros de poemas que estão concorrendo aos concursos de inéditos de 2020. Sou um resenhista incansável também, meu amigo. Para mim seria uma honra, um dia merecer uma cadeira na Academia Maranhense de Letras, pois lá estão os melhores nomes da literatura do Maranhão.

 

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VICE-VERSA: De Paulo Rodrigues Para Mhario Lincoln

 

1.     PAULO RODRIGUES: Mhario, o livro ‘A Bula dos Sete Pecados’ é um profundo olhar para existência?

Mhario Lincoln: Isso me lembrou a essência da estética na filosofia de Platão, isto é, Platão dividiu (...) “a realidade em dois universos distintos: o inteligível e o sensível. O primeiro contém as formas puras, as essências e o fundamento da existência dos seres do Segundo (...)”. A ideia inicial foi dar vazão à vontade de construir minha lírica, meus dramas e minhas verdades, livremente. Depois recolhi-me a minha insignificância para tentar pinçar o que era realmente inteligível, naquele amontoado de frases soltas. Não deu muito certo. Vi-me diante de poemas, escritos e versos altamente dármicos, avassaladoramente catártico. Daí a mim não coube fazer mais nada!

      2 PR: Sartre afirmou na conferência O existencialismo é um Humanismo: “a filosofia ocidental é contemplativa, o que conduz a uma filosofia burguesa”. Como você encara a contemplação artística?

MH: Um detalhe: antes de Jean-Paul Sartre lançar “o Existencialismo é um humanismo”, ele havia produzido um trabalho muito mais robusto e o intitulou de “O Ser e o Nada”. Li essa obra. Então, no meu bestunto, tento responder a esse inteligente questionamento. Começo com as críticas sofridas por Sartre, pertinentes à obra. A primeira assegurava que ele pregava o pessimismo, ou seja, querendo apagar toda a parte positiva que a existência humana pode ter. A segunda, embutia a ideia de quietismo. Um monte de zumbis parados, com ideias bloqueadas, sem a mínima ação diante da existência. Em terceiro, a filosofia de Sartre foi levada a entender que o indivíduo – seu eu – era o único importante no universo e isso o fazia negar a existência de todas as outras pessoas que o cercavam, possivelmente (‘juris tatum’), negando a ideia de solidariedade. Numa quarta observação do próprio Sartre, existiam aqueles que o criticavam também porque a sua filosofia poderia estar pregando a liberalidade moral. Isto é, não estava mais ligada à ideia de serem julgadas, nem de julgar ninguém. Desta forma, com a aniquilação de um ser supremo da existência humana, tudo era permitido ser lançado sobre quantos tantos e não mais julgados. Foi por causa dessas críticas que ele, então, elaborou a obra relacionando o existencialismo ao humanismo. Mas no fundo, há aquele velho questionamento que eu mesmo me faço em diversas situações: qual existencialismo estou vivenciando no momento? O existencialismo Cristão ou o existencialismo sartreano, o Ateu? Nessa segunda opção, há algo interessante: o homem não foi criado por um Ser Superior, ancorado em regras e leis divinas, mesmo com o livre arbítrio. Mas agregada diretamente à ampla e irrestrita liberdade individual. Assim, quem escolhe sou eu. Quem decide sou eu. A partir daí Sartre afirma que é baseado no conceito de ‘escolha’ que estão todos os outros conceitos. Um deles, ‘o homem é livre. Mas a única prisão do indivíduo é a de que ele tem que escolher a todo instante”, diz Carmen Fretter (tradução livre). E Fretter ainda pergunta: “Será que por ser livre, mas ter que escolher a todo instante, isso não pode implicar no indivíduo um grande desespero por não ter nenhum mecanismo espiritual, almático ou superior para lhe aliviar ou ajudar nas escolhas? ” Mas, Sartre diz: ‘Na hora de escolher, mesmo que outras pessoas lhe acerquem, é você quem vai escolher sozinho. Cabe a você a única opção de escolher’. Muito forte, não é? Especialmente quando se sabe que a vida é uma prova de múltiplas escolhas e na hora de marcar a opção, você sempre estará sozinho. Volto a Sartre para finalizar, refazendo as quatro acusações que citei acima. Primeira: o existencialismo não pode ser comparado ao quietismo, como o acusaram. Isso porque faz o homem, na verdade, se engajar no autoprojeto de se construir, pois toda a felicidade que ele quiser, por exemplo, terá que correr atrás. Segunda: falou-se de pessimismo. Como? Se o existencialismo faz com que o indivíduo seja belo por se autocriar de várias formas, sejam artísticas, sejam profissionais, políticas, humanas etc.? Terceira: não há também, individualismo. Quando eu faço uma escolha, essa pode servir de exemplo (bem ou mal) para outros. E isso (as escolhas pessoais) nunca irão levar a deixar de enxergar determinadas escolhas de outras pessoas; e, finalmente, quarta: a história da liberalidade moral. Aqui tenho algumas dúvidas. Porque há um certo arcabouço de leis pré-estabelecidas. Antes de minha existência. Então quando eu acabo me desviando disso, posso tirar a liberdade do outro, o que, de forma livre, construiu essas normas sociais.

 

3       PR: No disco Baixada, a parceria com Chiquinho França rendeu belíssimas canções. Qual é a avalição que você faz da repercussão deste trabalho?

MH: Na verdade, tinha produções feitas há anos. Comecei minha vida musical estudando piano (por 5 anos). Depois engajei-me em alguns ‘conjuntos musicais’, tocando bateria – Rogeryo du Maranhão era o ‘crooner’ – mais 5 anos. A família não deixou mais. Fui fazer concurso público e cursar Direito e Comunicação, em dois períodos diferentes. Acabou o tempo. Eis que, após minha aposentadoria, em meados de 2014, voltei à música. Passei a compor muito. Na minha volta a São Luís (já morava em Curitiba), mostrei o material para Chiquinho França – uma pessoa admirável - e ele disse algo que nunca esqueço: “Isso dá liga”. E foi assim que meu sonho se realizou. Gravar um CD com músicas instrumentais. Logo estará saindo o segundo, com músicas verbalizadas, também com França. Quanto à avaliação, nossas músicas foram tocadas em muitos países, segundo as plataformas especializadas, as quais estão nossas composições.

 

4       PR: O Chiquinho França é um dos maiores músicos do Brasil. Vi que ele produziu o disco Baixada e colocou três faixas ‘bonus’. Vocês projetam novos discos com essa parceria?

MH: Nós temos alguns projetos juntos. É um homem com um perfil humanitário grandioso. Saiba que todos os nossos projetos futuros serão sempre devidamente elaborados com a sensibilidade poética de França. E isso faz total diferença.

 

5       PR: Você é advogado, auditor fiscal aposentado, poeta e escritor brasileiro e presidente da Academia Poética Brasileira, instituição da qual sou membro com muito orgulho. Quais são os novos projetos para a APB, em 2020?

MH: Este ano tivemos um baque enorme com a proliferação da pandemia. Tínhamos muitos projetos importantes, inclusive o Portal APB que reunirá obras e biografia de nossos membros. Gravação de um DVD com a participação de cada membro recitando duas poesias e a expansão da APB em alguns estados e em alguns países, onde brasileiros-poetas já enviaram currículos para isso. Acho que até 2023 fecharemos os projetos, além de uma parceria com uma editora nacional para produzir, a preço de custo, livros de seus membros.

 

6       PR: No livro a ‘Bula dos Sete Pecados’, o diálogo é intenso, lírico, com uma intenção de remodelagem do sentimento poético. A intertextualidade é uma constante nos teus poemas?

 

MH: Posso (e não posso) dizer que há, sim, intertextualidade em vários momentos do ‘Bula’. Essa costura entre meus textos líricos, muitas vezes, é quase implícita, porque tive poucas musas e delas, retirei o máximo para construir meu ‘eu poético’. Então há sim correspondências interorgânicas em alguns versos. Vale aqui ressaltar a virilidade de sua leitura em razão dessa minha intertextualidade ser muito mais implícita, no contexto. Desta forma, não é facilmente identificada. Usei a intertextualidade para tentar enriquecer meu textual (acho-o simples sem esse artifício), explorando alguns temas com um pouco mais de profundidade. O caso do poema “Ah, Humanidade!”. Ou mesmo nos (eu considero) épicos “A Cigana do Flamenco”, ou mesmo “Demônios do nosso Deserto”, onde escrevo: “Desço a grande escada do Paraíso. / Minha mãe e eu, de amor, / lhe sou grato. / Nos damos as mãos, / eu e ela.../ risonhos e sob exame do lúmen, / ficamos, assim, / ao largo, observando / as nuvens desenharem nossos sonhos....”. Esse poema foi premiado em Portugal, num “Contest”, promovido através do Facebook, classificado como Poema Épico. É longo e intertextual. Por essa razão usei – em alguns poemas – esse artifício. Isso porque, a leitura é um processo interacionista e o leitor acaba recorrendo a conhecimentos prévios adquiridos para entender o texto ou não. Destarte, na elaboração do ‘Bula’, tive que pensar em muitos acessórios, desde as técnicas linguísticas, escolha de frases, características, os chamados ‘brasões compensativos’, para elaborar cada poema. À princípio parecem quase vazios. Mas, pela maneira como foram construídos e pelos objetivos os quais precisavam atingir, os fizeram crescer bastante aos olhos críticos. Foi a primeira experiência de escrever um livro de poesias como se estivesse seguindo uma planta predial, com cálculos estruturais perfeitos. Ao longo desse tempo na área, aprendi que nem sempre um livro de poesia pode ser produzido, apenas, com características balsâmicas. Mas, antes de tudo, com a ideia de repassar a catarse (ou não) de forma elaborada e consistente, mesmo que se escreva, “a lua me faz ter saudade tua...”. Um verso simples, construído em cima de um arcabouço imenso. Intrinsecamente hão de ser notados concordâncias nominais, verbais, pronominais, tempo do verbo, conceituação do cenário, luminosidade comparativa (aqui diz respeito à personalidade da musa e nos faz reagir e imaginar como seria essa luz, comparada a lua), misturada com a solidão, certamente, o estado de espírito do poeta exatamente na hora que escreveu o verso. Outro exemplo, é o de Geraldo Magela, coordenador da ‘Feira do Poeta’, em Curitiba. Dele, os versos: “Navegou em ascensão / como uma estrela cintilante /no manto negro da madrugada / do absoluto céu latino”. A boa interpretação levará o leitor a descortinar uma série de pormenores que esses versos, aparentemente simples, retratam. Com certeza, não só de inspiração resultou tal construção. Igual Luiza Cantanhede: “Tem sempre alguém/ que não se mata/ às 23h de uma noite/ chuvosa”. Eu notei uma profundidade incomensurável nessa pequena construção de 4 versos. Foi nessa linha que tentei construir a “Bula dos Sete Pecados”.

 

 

7       PR: Como o poeta Mhario Lincoln explicaria a música baixada para as figuras humanas de Viana, São Bento, Pinheiro?

MH: ‘Baixada’ é um hino ao sotaque mais interessante e mais autêntico do Bumba-Meu-Boi do Maranhão. É uma poesia instrumentalizada, onde a sensibilidade de Chiquinho França foi explícita. A harmonia foi cuidadosamente construída em cima da composição básica, acrescentando formas melódicas com muita força representativa. Nesse caso a verdadeira concepção da palavra ‘lírica’, que vem de lyra, que traduz instrumento musical de cordas, que os gregos usavam para acompanhar os versos poéticos. Quanto ao aspecto do ‘eu-pessoa’, baixadeiros, posso analisar em dois aspectos. Primeiro no que concerne à originalidade do som nativo. Eu e Chiquinho procuramos qualificar isso, elevando a composição ao mais alto grau de originalidade. O mais perto disso, dentro da vestimenta instrumental que escolhemos. Segundo, para fazer uma homenagem, não só às figuras humanas, mas e principalmente, ao meio-ambiente (precisa de uma atenção cada vez maior dos poderes públicos). Sabemos que a baixada maranhense tem uma riqueza natural, através da influência do mar, além da incomparável rede de rios e lagos, banhando uma terra rica, uma flora e fauna incomensuráveis, campos indescritíveis, e algo bem peculiar da região: uma cultura disciplinada e rica. O sotaque da Baixada, do Bumba-Meu-Boi tem essa peculiaridade. É único. Por isso, a música tem ‘andamento moderado’, a fim de chamar a atenção para uma região que a cada dia sofre pelo esquecimento, mesmo que ainda sobrevivam relances e suspiros, dignos de quem ainda quer doar-se, em razão de gente tão trabalhadora.

 

8       PR: Carlos Drummond disse no livro ‘Sentimento do Mundo’: “tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”. Você se sente um poeta limitado por um mundo enorme e incompreensível?

 

MH: Gosto muito desse livro lançado em 1940. Acredito que seja o terceiro ou quarto livro dele. Não me lembro. Mas contém quase 30 poemas e foi a primeira vez que Drummond abraçou o método de cunho social para construir essa obra. Acredito eu, que talvez muito pela instabilidade pelo qual os países passavam, lá pelos idos dos anos 40, não pelo que ele passava, abstraindo-se em angústias existenciais. Por isso, tal bela citação, “tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”, de maneira alguma o limitou. Pelo contrário. Fê-lo transgredir o espaço/tempo, as regras prognósticas clássicas da formação lírica e transformou toda sua obra num grande mapa para que – os que estavam perdidos – pudessem encontrar suas saídas. Por outro lado, não acredito que o Mundo, nem a incompreensão de humanos possam limitar o poeta. Mas esse assunto de limitação e incompreensão poética vem desde Friedrich Hölderlin, poeta dos mais criticados ao ponto de Goethe afirmar que não o via como um verdadeiro poeta. Outro, Schiller, julgava a poesia de Hölderlin filosófica demais. Destarte, mesmo a história se mostrando cheia de exemplos iguais ao de Hölderlin, como Rimbaud, Baudelaire, ou alguns brasileiros, Cruz e Souza, João Antônio, Paulo Leminski, Augusto dos Anjos, Eduardo Guimarães, Álvares de Azevedo, Rubem Fonseca e Alice Ruiz, a poesia seguiu firme seu caminho. Vale salientar, ainda, que todo poeta tem um dom que os faz engolir sapos e espargir talento, como Quintana, "Eles passarão.../ Eu passarinho". Exemplo maior de que o mundo estranho e incompreensível não enluta a cadência lírica. Nem a minha, nem a vossa, caro poeta Paulo Rodrigues.

 

9       PR: Como está o programa de rádio com músicas maranhenses de sucesso?

 

MH: O Programa ‘Pérolas da Música do Maranhão’, apresentado pela nossa iRadioweb é realmente um sucesso, fato que se completa com outro programa de músicas maranhenses, apresentado por Chiquinho França, ‘Sommará’. Todos com downloads além das expectativas.

 

10   PR: Por que a música do Maranhão não alcança, com força e duração, o sucesso nacional?

MH: Há um fator sócio-político ininteligível. Falta direta dos poderes públicos. Não há nenhum mecanismo que faça nossa música, com raras exceções e por incentivo próprio, atravessar a Ponte do ‘Estreito dos Mosquitos’. E por que? Falta qualidade? Nunca, jamais! Aqui se produz uma das músicas mais autênticas do Brasil, em qualquer que seja o gênero. Todavia, pasmem, nem mesmo as emissoras de rádio (exceto uma ou outra em horários diferentes e inusáveis) do Maranhão, verdadeiros instrumentos de massificação das obras produzidas, não rodam os raros sucessos. Então, por que o ‘forró’ da Paraíba, o ‘Carimbó’ do Pará, o ‘Olodum’, da Bahia, fazem tanto sucesso? Nesses estados, lá pelos idos 80/90, várias leis estaduais e municipais, encheram de incentivos toda a classe artística desses estados (não só a música). Incentivos, inclusive, distribuídos em emissoras populares, que massificaram as pertinentes músicas regionais. Nessa época, o ‘boomm’ foi tão incrível que acabou pulverizando a grande mídia brasileira e nunca mais se deixou de falar nele. E o Maranhão, com produções espetaculares, com músicos incríveis, com produções artísticas e folclóricas de encher o balde de talento, não conseguem, repito, ultrapassar (simbolicamente, claro) a Ponte do ‘Estreito dos Mosquitos’.  Mas há uma luz no fim do túnel. Vários artistas maranhenses estão se unindo e formando o movimento chamado ‘Maranhão Musical’, que visa mudar esse ‘status quo’ e ampliar de forma significativa os destinos da música do Maranhão. Eu apoio esse movimento por ser uma bela tentativa de união para a emancipação dessa arte. Espero que um dia, os governos do Maranhão e da Cidade de São Luís façam como antigos governantes da Bahia, do Pará e da Paraíba (ideologias apartadas) e abram espaço para divulgação desse bem-maior. E isso, não é nenhum favor. É obrigação, pois a música é um patrimônio mundial. Quer queiram ou não!

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