Sexta, 18 de Setembro de 2020 17:46
Dúvidas pelo seguinte e-mail
Educação PAULO URBAN

Causos da Psiquiatria - III:

Paulo Urban

18/08/2020 19h49 Atualizada há 1 mês
244
Por: Mhario Lincoln Fonte: Paulo Urban
Paulo Urban. (Crédito foto de Maíra Meyer)
Paulo Urban. (Crédito foto de Maíra Meyer)

Causos da Psiquiatria - III

(por Paulo Urban, médico psiquiatra e Psicoterapeuta do Encantamento)

www.amigodaalma.com.br urban@paulourban.com.br 

TELEQUETE NO HOSPITAL

 

Depois de haver publicado ‘Causos da Psiquiatria’ (I e II) aqui neste Portal Mhário Lincoln do Brasil, alguns amigos têm me escrito a comentar estas histórias, e de quebra me perguntam se aquilo que relato são casos clínicos da vida real ou invenção de minha lavra. Houve ainda quem, assumindo o pressuposto de ser eu mero humorista, considerasse fértil minha imaginação. Rio-me ainda mais; vale lembrar, sabem os escritores, a realidade costuma ser por si só mais incrível que a ficção. Ora, tivesse eu por intenção simplesmente inventar essas histórias, juro não saberia dar a elas tantos detalhes e peculiaridades que as tornam assim interessantes; embora possam parecer a este ou àquele um apanhado de cenas inverossímeis, cumpro esclarecer que o que narro nada mais é que fruto de colheita clínica, experiências próprias vividas em minha prática psiquiátrica. Acredite nessas histórias quem quiser, menos me importo com isso. E se decidi relatar os casos mais divertidos, é por questão de preferência minha, haja vista fosse narrar os trágicos, não cumpririam o propósito de levar aos leitores algo mais ameno em meio a tantas páginas de notícias desagradáveis que mais caracterizam os jornais nesses tempos difíceis que vivemos.   

Esses causos da psiquiatria, inclusive, a maioria deles já narrei pessoalmente a diversos amigos que, via de regra, vivem me pedindo os escreva a fim de registrá-los dado ao curioso que trazem, e é com esta despretensiosa intenção que o faço. Feita a ressalva, passo, pois, a narrar fato que ocorreu no pronto-socorro da Santa Casa de Misericórdia da cidade de São Paulo, era o ano de 1988, eu cursava o 5º ano de medicina.

* * * * * * * * * * * * 

Àquela época a planta física de nosso pronto-socorro não era mesmo das melhores. Hoje, encontra-se inteiramente reformada. Em seu ambiente interno, o P.S. era praticamente um único comprido e estreito corredor. Em sua extremidade longínqua ficava a UTI, cuja entrada nem portas tinha de modo a facilitar a circulação das macas que ali chegavam com pacientes, também o entra-e-sai do pessoal em serviço. Na extremidade oposta deste mesmo ‘corredor pronto-socorro’ havia uma saleta com telefone, raramente ocupada por alguma funcionária burocrática. Imediatamente pegada a esta salinha ficava a entrada principal: duas maciças portas corta-fogo, à frente das quais, do lado de fora, se organizavam num espaço coberto várias fileiras de cadeiras e bancos a compor assim ampla sala de espera, onde outros funcionários burocráticos, aí sim, sempre presentes, abriam as fichas das pessoas que iriam passar por triagem médica. Nesta área coberta, junto à porta de entrada, estacionavam também as ambulâncias que, sirenes ligadas, chegavam trazendo toda sorte de casos mais graves, desde acidentados até gente enfartando e, por vezes, casos absolutamente incomuns, dignos de Tarantino ou Tim Burton, enfim, cenas inusitadas que estariam mais bem contadas nalguma tela de cinema, como esta que passo a narrar aqui. Foi assim:

 

As portas corta-fogo abrem-se repentinamente dado ao tremendo impacto de uma maca que nelas bate, empurrada com violência por três homens inteiramente vestidos de preto, funcionários do metrô. Junto deles estão dois enfermeiros atônitos, vindos também lá de fora, que haviam tentado impedir que entrassem assim, abruptamente, arregaçando as portas. Mas era tarde, o ‘bololô’ estava armado. As portas corta-fogo fecham-se atrás do pequeno grupo de invasores e sobre a maca está uma mulher negra descomunalmente forte, mais de 120 quilos estimei, que, endemoniada, grita uma carrada de palavrões, praguejando aos 4 ventos. A cena se desenrola à minha frente: sem que me vissem, eu assistia a tudo de camarote lá da saleta do telefone, posto que nesse minuto eu discava ao laboratório. Em meus idos de internato, era assim: não havia computadores, exceto meia-dúzia deles lá nos guichês de registro, uns equipamentos moderníssimos que já sabiam imprimir as fichas dos pacientes em duplas folhas carbonadas, que saíam das barulhentas impressoras com ambas as margens picotadas. Quanto aos exames laboratoriais, nada informatizado (esse termo ‘informática’ nem nos significava muita coisa), era preciso que a cada hora ou hora e meia algum interno fosse saber deles, principalmente quando se tratava dos casos mais graves, via de regra internados na UTI. A fim de agilizarem-se as condutas, os médicos chefes de serviço e suas respectivas equipes de residentes nos incumbiam, pois, alunos de 5º e 6º anos, a ir atrás dos resultados dos exames, com o que nos púnhamos vira e mexe a correr do pronto-socorro ao laboratório e vice-versa, fosse sol ou fosse chuva, a fim de ter os resultados em primeira mão. Enquanto aguardava o técnico conferir se os exames pelos quais perguntava estavam prontos, no saguão de entrada a coisa toda só esquentava. Os enfermeiros, querendo pôr alguma ordem no recinto, tentando mandar para fora os agentes do metrô, descuidam-se por um momento da paciente que, mesmo contida com amarras sobre a maca, saltava o mais que podia, feito cabrita enlouquecida. E foram dois palitos para que ela, em fúria, se soltasse, com o que, arremessando a maca com toda força contra a parede, pudemos vê-la escangalhar-se, colchonete para um lado, rodinhas saltando para outro, a maca inteira se entortando, restando ali, inutilizável.    

Foi quando ouvi do técnico que não, os exames não estavam à disposição. E bastou devolver o gancho ao aparelho telefônico, que aqueles dois enfermeiros, assim os vi, já se voltavam a tentar conter de novo a recém-chegada, mas não deram nem dois passos e a ela os ameaçou: bateu os pés no chão, armou seus musculosos braços em posição clássica de kung-fu, chamou-os para a luta e, pronta a agredi-los, qual mestra Shaolin gritou: “Raaaá! Raaaá!” E ainda arregalou os olhos, que pareciam prestes a saltar das órbitas, assustadores. Não satisfeita, arreganhou também os dentes, com o que se pôs a grunhir feito monstro de filme japonês. E como bom senso é tudo nessa hora, os dois rapazes acharam por bem paralisar-se. Era eu por trás do balcão da saleta e os três se encarando bem ali, no ringue de telequete aberto à minha frente, Num canto do ringue, ‘A Possuída da Ambulância’; no outro, ‘A Dupla de Branco’. Luta aparentemente injusta, não porque fossem dois contra um, mas porque ‘A Possuída’ era umas mil vezes maior que a dupla desafiante, e se impunha ainda por sua enorme cabeleira, todinha desgrenhada, com uns papéis de bala no seu emaranhado, isso em meio a bitucas de cigarro e outras imundícies; e tive ainda a nítida impressão de ver uns insetos graúdos trabalhando em sua floresta capilar. Na certa, coitada, alguma moradora de rua que em surto psicótico causara no metrô, e chegava ao P.S. no auge de seu quadro maníaco... alto o risco de heteroagressividade. Diante da fera, os dois melindraram, com o que deram a ela sua chance mais oportuna. Vendo crescer seu moral, partiu com tudo atrás dos dois. Com as pesadas portas corta-fogo já cerradas, puro instinto de sobrevivência, ambos apavorados, optaram pelo caminho mais fácil: o comprido e estreito corredor. Detrás do balcão, local privilegiado, eu podia ver o corredor inteiro. À direita dele, quase tudo era só parede; havia uma saída apenas, que levava às enfermarias do andar de cima; já à esquerda, vários boxes de atendimento enfileirados, a maioria ocupada, cobertos por biombos e cortinas em sequência até a última sala lá ao fundo e de frente para mim, onde o corredor se findava, a entrada da UTI.

Tudo se deu não mais do que num átimo, nem dava tempo pra pensar. Só sei que a doida varrida partiu para cima dos enfermeiros, que se puseram a correr dela, gritando em polvorosa: “Corre que ela é brava! Fuja quem puder! Corre que a mulher é louca”! Em segundos, o pânico já se alastrara por todo o corredor. Médicos e enfermeiros, maioria mal atinando para o que de fato ocorria, conforme viam aqueles dois velocistas em assoberbado desespero, iam também se pondo na dança, melhor dizendo, se juntavam ao atropelo largando tudo, fosse manômetro, termômetro ou injeção, estetoscópio ou equipamento de soro; todos irracionalmente a engrossar a horda de assustados que a cada metro mais crescia ao longo do trajeto. Também uns pacientes se puseram em fuga, buscando escapar daquela maníaca tomada pelo furor das Erínias. Eram Lázaros a rodo ressuscitando à frente dos incrédulos, doentes em cascata saltando vigorosos de suas macas, a entrar na insana turba de aflitos que por eles passava; houve até quem largasse as muletas a fim de correr mais ligeiro... e atrás dos que se punham em debandada, impiedosa, vinha aquela que os ameaça com seus gritos tribais, pondo em terror um plantão inteiro. Tendo eu já saltado o balcão, corria também poucos passos atrás da mulher endoidecida, eram os 100 metros rasos da mais pitoresca Olimpíada de minha vida. Uma cena de Felinni filmada em preto e branco, afinal, tudo que meus olhos viam era uma só negona a perseguir um bando que corria de avental, todos de branco. Perseguição surrealista, própria do cinema de aventura. Ou seria uma espécie de Taoísmo dos Últimos Dias, insólito tipo de fim do mundo? Pois, como explicar que em pleno inferno de Dante (porque os prontos-socorros são sempre dantescos) uma poderosa e sombria força Yin estivesse a pôr, assim, em desabala carreira, uma multidão Yang em seu claro desespero?

E foi assim que em questão de segundos anunciou-se o indefinido fim do espetáculo, até porque dali a alguns poucos passos já não haveria mais corredor. O forte instinto de salvar vidas, próprios desses profissionais da saúde, resolveu falar mais alto, com o que começou a se formar uma barreira humana logo à porta da UTI. Entrassem todos ali correndo, qual não seria o estrago? Quantos aparelhos pelo atropelo não seriam desligados, quantos enfartados não morreriam abruptamente de susto, quantos equipamentos não seriam derrubados, fora os que, mais, afoitos, não se pisoteariam mutuamente? Era imperativo que fosse ali o fim da linha.

Pois bem... ali, na exata linha fronteiriça entre a realidade do mundo cotidiano e o limbo em que se traduz uma Unidade de Terapia Intensiva, médicos e enfermeiros puseram-se em muralha, uns já se agarrando aos batentes da porta vazada, outros se virando, pondo-se agora a encarar aquela destemperada que vinha disposta a atropelá-los, no máximo de seus pulmões, dando assustadores gritos de guerra. E eu logo atrás chegando, prudentemente me mantendo alguns passos a distância.  

Barreira branca num instante formada. Sem se intimidar, chegava a doidona com tudo. Ia chocar-se desembestada contra todos, médicos, pacientes e enfermeiros... mas... inexplicavelmente, em vez de arremeter-se, num instantâneo de lucidez, ela se paralisou a um passo daquele pessoal todo acuado que, enrascado, ali encurralado, mal sabia o que ia ser.

Foi quando ela simplesmente caiu na gargalhada e, vitoriosa, completou:

-- Aha! Agora vocês que correm atrás de mim, tá?  

* * * * * * * * * * *

Até já sei o que alguns irão dizer... por isso, antecipo: exatamente assim aconteceu, não se trata de piada alguma! E como todos ali sabiam ser eu o interno interessado em psiquiatria (a maioria das pessoas costuma evitar pacientes assim – não sei porquê), fui intimado pelo chefe de plantão a ‘tomar conta’ da paciente até a chegada da psiquiatra de plantão, que, tendo saído há pouco para o almoço, era bipada para que retornasse com urgência. Bem que tentei conversar com a moça; estava agora até divertida, ria desmedidamente, mas sua estonteante verborreia não dava brecha para interlocução. Tocentas mil palavras por segundo compondo frases desconexas... e nas vezes em que ela ria eu a acompanhava, ria junto a fim de ser-lhe simpático; depois do susto todo, eu é que não iria querer contrariá-la. E ali, pertinho dela, pude ainda constatar: sim, um batalhão de piolhos colonizara sua farta cabeleira. E assim ficamos em inaudita tertúlia non-sense-filosófica durante uns 15 e intermináveis minutos, até a triunfal chegada da psiquiatra de plantão que voltava da lanchonete a fim de encaminhar o caso.  

 

3 comentários
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
Ele1 - Criar site de notícias