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O dia em que o poeta Jorge Nascimento, de São Luís-Ma, virou substância cósmica

Mhario Lincoln

15/08/2020 12h52 Atualizada há 1 mês
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Por: Mhario Lincoln Fonte: ML
Jorge Nascimento
Jorge Nascimento

O dia em que o poeta Jorge Nascimento virou Substância Cósmica

(*) Mhario Lincoln

 

João Guimarães Rosa em discurso de posse na Academia Brasileira de Letras (ABL), disse que “a gente morre é para provar que viveu”. E ele estava certíssimo. Não por ter morrido 3 dias após a posse, mas por ratificar a forma poética de dizer que o poeta, mesmo em desencarne, ficará vivo na memória de quem lhe continua lendo. “...para provar que viveu”.

É essa a parte mais interessante. Refiro-me ao poeta maranhense Jorge Nascimento, cujo trabalho é, sem dúvida, um marco na história da velha São Luís, haja vista a pujança de talento que lhe adornava o corpo físico e o espírito evolutivo.

 

Jorge Nascimento completa-se. E sua espera infinita refletia-se na maneira de ser, enxergar a vida e seus amores: “Assim como a tempestade/ que nos traz dissabores:/ o ciclone, as revoluções terrestres, / as hecatombes, o fim do mundo;/ Dentro do meu juízo final/ eu te esperarei”.

No fundo, Jorge Nascimento representava uma poesia encoberta de segredos pessoais, quase íntima, onde em raras vezes conseguiu denunciar-se com uma melancolia pessoal e intransferível, banhada de angústia lírica.

 

O irmão, poeta José Maria Nascimento, em “Os Abominados”, explicita-se, igualmente: “Jorge, a vida estava na memória da vazante, / nas cisternas repletas de antigos sonhos, / nas ferrugens grossas dos portais da zona. (...)”.

Ah, esses poetas tão autênticos na dor. No tempo de espera. Augusto dos Anjos bem sabia: “Ah! Dentro de toda a alma existe a prova/ De que a dor como um dartro se renova, / Quando o prazer barbaramente a ataca...(...)”.

 

Assim como Álvares de Azevêdo, morto aos 20 anos, confidenciou seus afogos nas 69 cartas que ele escreveu para seu amigo Luiz Antônio da Silva Nunes, Jorge também confidenciava sua dor ao irmão José Maria Nascimento, admirador inconteste de Jorge: "Um irmão maior. Tenho-lhe admiração abissal”.

Ah, esses poetas marcados pela dor e pela láurea balsâmica do talento, temperada pela riqueza dos paralelepípedos da Rua da Saúde, do Largo do Carmo, da Madre Deus, do Areal, mulheres, atos, palcos e calçadas, fulcro na construção poética, alinhada aos solstícios de verão e inverno, replicados nesses anos de pura tentativa de redenção. “Vamos, Jorge, juntos alcançaremos o lado eterno”, como suplicou José Maria (in verso cit.).

 

Jorge Nascimento faleceu, desencarnou, desligou-se desta plataforma térrea para uma viagem cósmica imaginável. Como disse certa vez, Teilhard de Chardin:  “Não somos seres humanos vivendo uma experiência espiritual, somos seres espirituais vivendo uma experiência humana”. Acerta-se tal citação com Jorge, pois ele era um espírito grandioso vivendo uma experiência humana, com tropeços e insônias, a fim de evoluir em sua significância e valor etéreo.

Porém, em batalha terráquea constante, num buliçoso compromisso de superar a tudo e engrandecer-se ao final, no ascendimento. In verbis:

 

(...) Antes da Batalha

Se, de repente, a presença da morte fosse mais além do pensamento,

Numa definição de eternidade julgada para o obstáculo do castigo,

O que seria de mim, sem filosofia para escapar deste vil tormento

De dúvidas flagrantes para destruir o alvo do meu coração inimigo?

 

E padeço despido de metafísica ouvindo o lento suor que vai crescer

Dentro de minha rebelião pornográfica, contra este espírito de calma,

Assassino mercenário, vindo do exterior doido para matar o meu prazer,

Inútil e degenerada fortaleza da cristandade, jagunço dos céus da alma,

 

Imaterialissimamente abstraio, caindo aos pedaços para vir saudar-me

A mim, seu dono e senhor nas solidões onde o pântano nunca se atreve

Com a megalomania dos seus bruxedos universais na tome de retalhar-me,

 

Igual a tantos outros viajantes reverenciosos nas enfermarias esganados,

Como as vacas esquartejadas no matadouro fulminante desta hora breve,

Deslizando no corredor vermelho sem os gritos dos infortúnios lancetados!

 

Jorge está vivo no ectoplasma do calvário cimentado, e assim, capaz de produzir materialização do espírito ainda mais visível, mais vivente, mais consistente, pois cada verso escrito nas canteiras do sempre, permanecerão luzentes nas estrias da vida, nas tempestades da alma, no balançar das utopias e nos segredos da noite.

 

Jorge sobe com as bênçãos daquele que o criou. Sobe livre. Frutificado, pois, há quem acredite que o processo reencarnatório não está ligado à punição. Nunca viveremos uma nova vida para pagar por erros passados. Porém, “para se desfazer das crenças, bloqueios, sofrimentos e limitações ocasionadas pelas nossas escolhas, atitudes e decisões em vidas passadas”, como ensina Jorge Salum.

Por isso, parafraseando Manoel de Barros, o poeta que virou passarinho, “(...) O que se encontra em ninho de ‘joão-ferreira’: / caco de vidro, grampos, retratos de formatura/ servem demais para poesia (...)”, tudo o que Jorge fez neste Planeta serviu para que o poeta virasse substância cósmica.

Destarte, Jorge Nascimento, agora é espírito.

 

(*) Mhario Lincoln é presidente da Academia Poética Brasileira.

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