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Olga Tokarczuk: “A pandemia mostra que somos apenas uma espécie a mais sobre a Terra”

Textos Escolhidos: Jornal EL PAÍS com A Polonesa Nobel de Literatura, Olga Tokarczuk

14/08/2020 13h08
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Por: Mhario Lincoln Fonte: EL PAÍS
Original do El País.
Original do El País.

Textos Escolhidos: Jornal EL PAÍS com A Polonesa Nobel de Literatura, Olga Tokarczuk

Olga Tokarczuk: “A pandemia mostra que somos apenas uma espécie a mais sobre a Terra”. Polonesa Nobel de Literatura dá a pá e nos estimula a cavar. O questionamento da fé, os avatares da história de seu país e a impossível imutabilidade brilham como pedras preciosas em sua obra.


Criar um lugar próprio e gerar em torno dele uma mitologia válida para explicar a vida ou para delinear os limites de nossa incapacidade de compreendê-la é uma meta à altura de poucos autores. García Márquez o fez em Macondo, Cervantes em um lugar de La Mancha e Lewis Carroll no País das Maravilhas. Mas há outro lugar batendo à porta: Prawiek (antanho, outrora), “um lugar situado no centro do universo”. Esse é, provavelmente, a criação mais fantasiosa, imaginativa e transbordante de Olga Tokarczuk (Sulechow, Polônia, 1962), premiada em 2019 com o Prêmio Nobel de Literatura de 2018, ano em que a Academia Sueca o adiou. Prawiek i inne czasy, traduzido no inglês como Primeval and other times, chega agora à Espanha como Un lugar llamado Antaño, título mais recentemente no país da escritora conhecida por Sobre os ossos dos mortos (que no Brasil saiu pela Todavia —a editora informa que não tem planos de publicar o novo livro por aqui, mas em novembro lançará A alma perdida, única obra infantil de Tokarczuk).

A pandemia frustrou sua promoção na Espanha e todos os planos que tinha em andamento, mas Tokarczuk encontrou nesta praga do século 21, de um mundo que se acreditava ser seguro, e não é, uma boa desculpa para frear e também refletir. “Foi um alívio renunciar às minhas viagens, estava cansada e fazia muito tempo que não vivia na minha própria casa”, conta por e-mail ao jornal 'EL PAÍS'.

O confinamento também coincidiu com a doença de seu cachorro e ela agradece por ter podido cuidar dele. “Acho que a pandemia é acima de tudo uma lição de humildade. É um conceito antigo e um tanto esquecido. O homem esqueceu a humildade ante da natureza, ante forças superiores a ele. Atiçado por uma arrogância incomum, destruiu muitas coisas a seu redor: seres vivos, o meio ambiente, a paisagem. Mudou o clima. E agora prepara sua dispersão no cosmos”, reflete.

Quem já se achegou à sua obra sabe que Tokarczuk, nascida sob o comunismo na Polônia e vivendo como adulta sob o capitalismo e a democracia, navega ao mesmo tempo pela introspecção e o amor a uma natureza que a conecta fortemente com o mundo. Sua obra é uma barreira contra a frivolidade, a destruição, a violência. “A pandemia nos mostra que continuamos a ser apenas uma espécie a mais sobre a Terra, dependente de uma intrincada teia de relações, que temos um corpo frágil e mortal e que nossas possibilidades são limitadas. Tenho a impressão de que está de volta a máxima Memento mori, tão popular na formação cultural do Barroco europeu, quando o ser humano se viu obrigado a enfrentar epidemias, guerras e forças cruéis, inconcebíveis. É o retorno a uma visão do mundo como mistério, a uma busca do significado da existência humana na Terra, a indagar sobre a natureza do homem e a presença do mal. Esta pode ser uma época interessante.”

É na proposta dessa busca perpétua que ela encaixa Un lugar llamado Antaño, a explosão mais luminosa que se pode realizar de personagens, conflitos, relacionamentos, vidas e mortes. Tokarczuk eleva a vida de loucos, provincianos, moleiros, párocos, fiéis católicos, soldados, invasores nazistas ou soviéticos, gentes carregadas de misérias, limites e estreitas ambições, a uma categoria majestosa. De bijuteria humana ―aquela que todos perfazemos― obtém joias. Seu foco vai passando de um para o outro, iluminando humanos, animais e plantas em uma fusão que é comum e alentadora em sua obra. Ela está em tudo.

Prawiek é um lugar qualquer da Polônia, claro. Uma Polônia católica e rural onde a busca de um modo de vida aceitável está sempre truncada pelos avatares que outros decidem: a Primeira Guerra Mundial e o serviço ao czar russo, a invasão nazista e depois a invasão soviética na Segunda Guerra Mundial; o regime comunista e a corrupção intrínseca que alimentava entre os mais arrivistas e servis. Florestas, pomares, vacas também sofrem com os vaivéns de uma história que só tem a ver com vontades alheias.

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