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Cidades Há 1 mês

EM MEMÓRIA AOS SOLFEJOS E RISADAS (a Samuel Barrêto)

Ana Neres Pessoa

13/08/2020 09h25 Atualizada há 1 mês
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Ana Neres pessoa
Poetisa Ana Neres Pessoa
Poetisa Ana Neres Pessoa

EM MEMÓRIA AOS SOLFEJOS E RISADAS

(a Samuel Barrêto)

 

EM MEMÓRIA AOS SOLFEJOS E RISADAS

(a Samuel Barrêto)

 

O mesmo tempo que abre lacunas, também ajuda a curar e cuidar da gente. Hoje faz um mês de um tempo que eu preferiria não ter vivido, porém, ao acordar revi esse texto que fiz justamente no dia 13 de julho, com esses momentos ainda frescos tatuados na memória e sentimento e que nem fui capaz de publicar. 

“Hoje mais uma vez eu fui te visitar, Poeta de Pedreiras e ao entrar pelos portais da cidade lembrei de um detalhe: que de agora em diante visitaria a Pedreiras do Poeta, pois, em parte, já que acredito na eternidade de nossa essência, era a tua despedida de teu lugar e povo.   

Ao entrar na Câmara Municipal parecia atravessar um portal pra uma dimensão distante... Levava comigo, na mente, muitos nomes: Maria do Socorro, Luiza Cantanhêde, Sharlene Serra, Joana Bittencourt, Iza Ferreira, Raimundo Carneiro Corrêa, Sandra Ibiapino, Mhario Lincoln entre outros que não puderam estar presentes na tua despedida. Enquanto me direcionava ao centro do salão que te acolhia, parecia pisar em nuvens até o nosso último encontro.  

Poeta Samuel Barrêto.

Aproximei-me com mistura de incredulidade e esperança, para levar recados de vozes distantes procedendo de acordo com alguns pedidos enviados por amigos a mim. Lamentei a presença da falta de cantos, vozes e toadas, silenciados pelas ausências e pela falta de espaços neste tempo estranho que estamos vivendo. Não pude olhar-te nos olhos, porque estavam fechados, nem me despedir, porque não deu tempo. Tirei os óculos escuros na intenção de avistar mais do que a “Pálida lembrança” do que fostes: um templo cheio de vida e riso.

Depois te segui pelas ruas de Pedreiras em passos lentos. Um cortejo em dia ensolarado tal qual todas as intenções que tivestes em vida. Mais uma vez senti solidão de costumeiros rostos de nossos “ajuntamentos” ao acompanhar outras presenças. Por dentro, em ritmo lento como em despedida que ninguém se apressa pra terminar, carregava silenciosamente um recital de nomes que velavam por ti. E fui junto contigo, quebrando um longo período de isolamento e jejum de andar pelas ruas, em procissão interna, a cada passo uma lembrança e um pensamento, nomeando presenças e recitando recados enviados: estou aqui por todos eles que à distância ainda seguem te amando. 

Levaram-te ao templo, apesar da cautela, como sempre tua presença atrai multidão. Não adentrei na igreja, por temores também desta época estranha que vivemos. Fiquei do lado de fora junto a alguns amigos, teus também, ouvindo a missa, e nos emocionando com as palavras de amor que os que têm teu mesmo sangue lhe cultuavam. 

Após a missa, iniciando o cerimonial dos discursos, por um momento eu e alguns amigos, entre eles Paulo Piratta (também zelando por esse distanciamento que estamos vivendo), olhávamos ao redor atordoados, como se fosse impossível que tu tivesse ali dentro, imóvel, e preferimos achar que, naquele momento, não foste tu o homenageado, estaria lá fora conosco, como fizeste em muitos momentos parecidos, contando piada animando o ar triste das redondezas com tua irreverência. 

E continuamos aguardando que acabassem as palavras e iniciassem o último passeio em direção ao Alto, onde repousaria tua matéria. Enquanto isso, continuamos entre solfejos e risadas, lembrando de ti, tão vivo dentro da gente, projetando homenagens e fazendo juras à tua memória: tornando tua Canção símbolo de tua gente em som e imagem, te presenteando com Mil Poemas como ajudaste a fazer ao grande Gonçalves Dias, escolhendo o lugar para o Busto em tua memória, entre muitas outras ideias. E juramos também que tua presença, e não a ausência, continuaria sendo motivo de festa e comemorações. 

Samuel, tu foste e ficamos atordoados entre passado e presente, por tua presença cheia de vida nunca dar lugar a essência da falta. E no momento entre o luto e o sonho parece tudo tão surreal, um filme na tela do tempo da vida, do qual também fomos atores. Nem nós, nem Pedreiras, nem esse planeta estávamos preparados para tua ausência, nosso amado Poeta. Que tua alegria nos vele e ensine a continuar a arte sem ti e em tua homenagem!”

 

Ana Neres Pessoa

Da Academia Poética Brasileira

 

 

 

Ana Neres Pessoa

Da Academia Poética Brasileira

 

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