Domingo, 09 de Agosto de 2020
Dúvidas pelo seguinte e-mail
Especiais CAUSOS ESCOLHIDOS

Convidado Especial: Paulo Urban, médico psiquiatra e Psicoterapeuta do Encantamento

Causos da Psiquiatria - II

29/07/2020 19h28 Atualizada há 2 semanas
255
Por: Mhario Lincoln Fonte: Paulo Urban
Paulo Urban, médico psiquiatra e Psicoterapeuta do Encantamento
Paulo Urban, médico psiquiatra e Psicoterapeuta do Encantamento

Causos da Psiquiatria - II

(por Paulo Urban, médico psiquiatra e Psicoterapeuta do Encantamento).

www.amigodaalma.com.br urban@paulourban.com.br

  

-- É esse mesmo o seu nome? Está escrito corretamente aqui na ficha? Agostinho ou Augustinho?

-- A-gos-ti-nho. Terceiro filho, doutor. Tá certo aí, e o quarto morreu ao nascer. Tivesse sobrevivido não seríamos só um trimestre, senão um quadrimestre inteiro! Cento e vinte dias de fraternidade, que nem o lema dos três mosqueteiros: Fraternitê, Igualitê e Salamê-touchê, porque os três na verdade eram quase uns quatro – completou, atropelando as palavras, tão rápido falava. Estava visivelmente acelerado, franco quadro de excitação maníaca.

-- Como é que é? – perguntei, sem atinar a lógica.

-- Olha só, deixa explicar pro senhor: meu irmão mais velho, que é o primo-ingênito, quando nasceu, meu pai pôs nele o nome de Juninho; isso porque nasceu em pleno mês de Junho, dia 24, signo de Gêmeos, por isso que ele fala pra cacete, mais que eu até. Já o segundo filho, o tal do segundo-bigênito, quando nasceu era Julho, signo de Câncer, e meu pai resolveu chamá-lo Julinho. Daí veio o terceiro-trigênito, que sou eu, Dezembro, 17, Sagitário da gema! E pra módi não romper a sequência dos meses, meu pai resolveu me chamar de Agostinho. Teve também um quarto-quadrigênito, que era pra ser o Setembrinho, e olhe que desta vez foi minha mãe, já convertida, quem deu a ideia... mas, infelizmente, ele morreu logo depois do parto. Ou felizmente, nem sei, porque faz favor, hein, já pensou alguém se chamar Setembrinho? Tem coisa mais ridícula? Minha mãe nunca foi boa mesmo pra dar nomes, até o nosso vira-latinha ela queria chamar de Antônio, mas meu pai bateu na mesa e não deixou.

-- E que nome levou o cachorro?

-- Abelardo Barbosa, mas pode chamar de Chacrinha que ele vem do mesmo jeito. E não é que o latido dele parece mesmo uma buzina?  

Não deu pra não rir, e perguntei:

-- E desse seu nome, Agostinho, você gosta?

-- Sinto muita honra de orgulho de eu se chamar Agostinho. Dei sorte, sabe? Imagina se fosse um Novembrinho, um Dezembrinho... daí sim que eu não iria gostar; talvez precisasse mudar depois pra Marcinho, que é um mês de nome mais civilizado. Por isso é que rendo graças ao meu bom pai todos os dias por eu se chamar Agostinho, já pensou se fosse minha mãe a escolher meu nome, doutor? Na certa que ia ser coisa pior... Mas guardo aqui comigo uma antiga crítica a essa mania de meu pai querer fazer dos filhos um calendário.

-- E qual é a crítica?  

-- É que desde criança que leio quadrinhos, sabe aquelas revistinhas? Tio Patinhas, o Mickey... então, minha família ficou parecendo a do Pato Donald: lá tem o Luizinho, o Zezinho e o Huguinho; aqui somos Juninho, Julinho e Agostinho. Pois é, meu pai não tá mesmo no gibi!

De novo, impossível não rir.Enquanto o entrevistava, corria os olhos sobre o que anotara o psiquiatra da prefeitura na guia de internação. Agostinho havia agredido a própria mãe naquela madrugada, em razão do que seus irmãos o haviam levado ao hospital da Vergueiro, de onde nos fora encaminhado. De fato, a ver por sua agitação e verborreia, face ao episódio da agressão, melhor seria reequilibrar um pouco o moço, ajustar sua medicação antipsicótica, a mesma que, por certo, ele não devia estar tomando conforme prescrita. A fim de esclarecer melhor esse ponto, indaguei:

-- Pelo que leio aqui, diz o colega que nos pede para recebê-lo em nosso hospital, o amigo já faz tratamento psiquiátrico há um bom tempo.

-- Põe ano nisso, doutor! Desde quando comecei na prefeitura, eu tinha meus 18.

-- E está agora com...

-- 35.

-- Trabalha no quê?

-- Entrei como auxiliar administrativo, trabalhava em escola, mas já aposentei, falam por aí que sou um caso intratável de loucura.

-- E o remédio? Tem tomado?

-- O ampulhetil?

-- Este mesmo, amplicitil. 

-- Ampulhetil, que remédio é passatempo.

-- Queseja, o tem tomado de acordo?

-- Sim, certinho, de acordo com o anel.

-- Anel? Não entendi.

Agostinho sacou então do dedo médio da mão esquerda um anel de metal, no qual havia a representação de uma caveira. Nos demais dedos, sem exceção, incluindo o polegar de ambas as mãos, um ou dois anéis em cada dígito. Uns mais coloridos, alguns maiores e espalhafatosos, outros de metal ou de plástico. Uma feira inteira de artesanato naqueles dez dedos, a contrastar (ou seria a combinar?) com as tatuagens que trazia no dorso de ambas as mãos: na direita, Nª Srª de Aparecida, da qual se dizia devoto, e na esquerda uma caveira, da qual se dizia igualmente devoto, ‘afinal, todos vamos morrer, é melhor já ir se acostumando’ (sic), ele ponderava.  

-- Vou explicar como eu faço, é assim, doutor... olha só!

Anel de Caveira.

Mão direita em concha, guardou nela o anel e a fechou, mas não de todo, de modo a poder rolá-lo com alguma folga como fosse um dadinho; então, deu um grito ensaiando um espanhol, encarnando a personagem de um crupier de cassino paraguaio, e lançou a peça sobre a mesa:

-- No va más!

O dadinho, melhor dizendo, o anel, rolou sobre a mesa e parou de um jeito torto.

-- Dois! Deu 2 – conferiu - então, doutor, quando é assim, eu tomo 2 comprimidos logo pelas manhãs.

Rapidamente tomando o anel em sua mão, sacudiu-o dentro dela de modo a sortear direito e o lançou novamente:

Enquanto o anel ainda rolava sobre a mesa, parecia um pião, imitando o espanhol, ansioso pelo resultado, dizia:

-- Bamos a ver, bamos a ver...

Parou bem na quina da mesa, mais um centímetro iria para o chão.

-- Seis! Deu 6. Então, quando é assim, eu tomo logo seis comprimidos de uma vez. Sempre pelas manhãs.

E já ia rolar o anel mais uma vez, quando o cortei:

-- Já entendi. Pode guardar seu anel.

-- Ainda não viu tudo não, doutor, espera só dar um 5 pro senhor ver.

E ao ver parar o anel de cabeça pra baixo, a caveira voltada para a mesa, o aro para cima, lamentou:

-- Que pena que deu 4! – parecia realmente desolado.

Curioso, perguntei:

-- E o que acontece quando dá 5? Você toma 5 comprimidos de uma vez, logo pelas manhãs? 

-- De jeito maneira, doutor, quando dá 5 eu não tomo nenhum.

-- ???

-- É que o 5 é o meu número da sorte! Toda vez que dá 5 o anel volta para o dedo do meio, que é meu dedo medieval, quando então me vejo disposto a cantar o hino nacional, só a parte que eu sei, claro, e não tomo nenhum remédio nesse dia. E depois de entoar o hino, com fervor e emoção, é só correr pro abraço: saio pro bar e vou encher a cara.

-- E para encher a cara precisa cantar antes o hino nacional? Qual é?

-- Ci-vi-li-da-de! Ci-vi-li-da-de, doutor. Educação moral e cívica, que minha mãe me deu assim. Quando dá 5 é um feriado nacional dentro de mim. É que são 5 os continentes do Brasil: Norte, Nordeste, Sul, Sudeste e Centro-Oeste. E pra brindar a sorte é que às vezes vou logo acendendo um baseado; mas não se preocupe o doutor, que é sempre um fininho, tão fininho que eu chamo de tripinha. Juninho, meu irmão, é quem me dá o fumo. Mas não gosto de abusar da boa vontade dele, ué, vai que no dia seguinte eu tiro um 4, ou pior ainda, me sai logo um 6, que é o máximo número estatístico-dadístico-anelístico... e vou ter de encarar depois da maconha logo 6 comprimidos de uma vez! Haja sal de fruta!

-- Pelo visto, o amigo tem tirado muito 5 ultimamente.

-- Pois, não é que adivinhou? Não sei qual o mistério, mas tenho sido agraciado por essa onda de sorte! Não é que já tem quase umas duas semanas que esse anel só deu pra tirar 5? Parece mágico! Senão, é parapsicologia, vai que eu sou médium e não sei ainda dominar a parada. Pela estatística, dura e crua, a chance de tanto 5 seguido assim acontecer é uma em um milhão de avos! Foi o Juninho quem calculou, único que lá em casa deu pra matemática.

-- Ele é professor de matemática?

-- Que nada! Ele tem é banca do bicho. Às vezes a polícia leva ele dá umas voltas, mas logo depois acaba soltando. Tranquilo já, mais de mil vezes que é assim. Juninho, ele sim, bom de número, faz conta de cabeça.

Explicada a razão da desmedida euforia, de como se deflagrara sua mais recente fase maníaca, Agostinho seguia ligado no 220, soltando até faíscas. Mas eu ainda quis saber:

-- E com um irmão assim, você também sabe jogar no bicho?

-- Eu não. Detesto contravenção! Já falei pro meu irmão que esse trabalho dele é coisa de vagabundo. Ele responde que sou eu que não sei de nada, que sou doido. Mesmo assim, melhor ser louco de pedra que vagabundo. Além disso, todas as vezes que joguei no bicho, perdi. É pura perca de dinheiro. Melhor mesmo é ficar só no dominó lá no bar com os amigos. E se não tem dominó, fico só nos anéis, tirando a sorte comigo mesmo; melhor assim que nem briga sai, e ainda me regula o remédio, na sorte e cientificamente provado pelo CRM: Central Recreativa dos Medicamentos. Quer ver só, doutor? Abre a mão aí.

Atendi-lhe o pedido e mostrei-lhe a palma direita. Sacando outra vez o anel de caveira, Agostinho o pôs em minha mão e pressionou meus dedos de modo a fechá-los sobre ele, e foi logo me dizendo:

-- Rola o anel aí, doutor, vamos ver quantos comprimidos o senhor vai ter que tomar hoje.

Nenhum comentário
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
Ele1 - Criar site de notícias