Quinta, 13 de Agosto de 2020
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24/07/2020 12h40 Atualizada há 3 semanas
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Por: Mhario Lincoln Fonte: ML/Hora do Povo
(Hora do Povo/Foto: reprodução) Eduardo Alves da Costa
(Hora do Povo/Foto: reprodução) Eduardo Alves da Costa

TEXTOS ESCOLHIDOS:

 

No caminho, outra vez, com Eduardo Alves da Costa

 Adaptação do texto original da Hora do Povo  

 

 

O poeta Eduardo Alves da Costa, autor de "No caminho, com Maiakósvki" 

Os versos do poeta Eduardo Alves da Costa foram algumas vezes atribuídos a Maiakóvski e a Bertolt Brecht. Na época da ditadura – durante o Congresso da SBPC de 1977, na PUC da rua Monte Alegre, em São Paulo – era comum atribuí-los a Maiakóvski. Não era qualquer Congresso da SBPC. Aquele tivera sua realização proibida duas vezes: na Universidade Federal do Ceará (UFC) e na USP. Tratava-se, portanto, de um desafio aberto à ditadura. Daí, os versos de Eduardo Alves da Costa aparecerem tanto, embora com autoria errada. Muitos ainda se lembram em recitá-los como palavras de ordem:

"(...) Na primeira noite eles se aproximam

e roubam uma flor

do nosso jardim.

E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem:

pisam as flores,

matam nosso cão,

e não dizemos nada.

Até que um dia,

o mais frágil deles

entra sozinho em nossa casa,

rouba-nos a luz e,

conhecendo nosso medo,

arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada. (...)"

 

Poeta russo Vladímir Maiakóvski.

Existem várias paródias (no bom sentido), mas os versos básicos, os versos de Eduardo, são esses acima. Muitos daqueles que gritavam os versos não sabiam que eles são de um poeta brasileiro? Exatamente Eduardo Alves da Costa. Ele é nascido em Niterói (RJ). Graduou-se no curso de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie em 1952. e com muita coragem e otimismo, organizou, em 1960, no Teatro de Arena, em São Paulo, uma das mais instigantes atividades culturais do período, as 'Noites de Poesia', em que eram divulgadas as obras de jovens poetas. Participou do movimento Os Novíssimos, da Massao Ohno, em 1962.

Mas, de acordo com publicação na Revista Época, certa vez, "O homem que virou Maiakóvski", esse episódio criou uma maldição que, 50 anos depois, ainda esconde sua prosa. Fato é explicito, quando Eduardo diz: “Esses dias mesmo, uma amiga minha falou que iam fazer algumas conferências de literatura na USP e iam ler meu poema, mas atribuído ao Maiakóvski. Ela me perguntou se eu teria como provar que o poema é meu. Falei que poderia mandar a Obra Completa do Maiakóvski que comprei em Paris e pedir para eles verem se encontram o meu poema naqueles sete volumes e, se não for suficiente, mando também todas as antologias e livros em que o poema foi publicado com o meu nome.

Sobre a confusão na autoria dos versos – provavelmente, os mais frequentes durante a ditadura, com exceção das letras de músicas – ele acrescenta algo que, para a maioria dos poetas, seria doloroso, mas, para ele, aparentemente, não: “Levei minha filha, pequenininha, a uma manifestação [das Diretas-Já] e ela falou: olha seu poema papai! Só que embaixo tinha outro nome.”

Então, para acabar com essas confusões – ou na esperança de acabar com elas, pois a esperança, dizem, é a última coisa que um ser humano pode… esperar – mais abaixo,  o poema de Eduardo Alves da Costa, escrito na década de 60 do século passado, onde estão os célebres (com toda razão) versos (C.L.).

 

No caminho, com Maiakóvski

EDUARDO ALVES DA COSTA

 

Assim como a criança

humildemente afaga

a imagem do herói,

assim me aproximo de ti, Maiakósvki.

Não importa o que me possa acontecer

por andar ombro a ombro

com um poeta soviético.

Lendo teus versos,

aprendi a ter coragem.

 

Tu sabes,

conheces melhor do que eu

a velha história.

Na primeira noite eles se aproximam

e roubam uma flor

do nosso jardim.

E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem:

pisam as flores,

matam nosso cão,

e não dizemos nada.

Até que um dia,

o mais frágil deles

entra sozinho em nossa casa,

rouba-nos a luz e,

conhecendo nosso medo,

arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada.

 

Nos dias que correm

a ninguém é dado

repousar a cabeça

alheia ao terror.

Os humildes baixam a cerviz:

e nós, que não temos pacto algum

com os senhores do mundo,

por temor nos calamos.

No silêncio de meu quarto

a ousadia me afogueia as faces

e eu fantasio um levante;

mas amanhã,

diante do juiz,

talvez meus lábios

calem a verdade

como um foco de germes

capaz de me destruir.

 

Olho ao redor

e o que vejo

e acabo por repetir

são mentiras.

Mal sabe a criança dizer mãe

e a propaganda lhe destrói a consciência.

A mim, quase me arrastam

pela gola do paletó

à porta do templo

e me pedem que aguarde

até que a Democracia

se digne aparecer no balcão.

Mas eu sei,

porque não estou amedrontado

a ponto de cegar, que ela tem uma espada

a lhe espetar as costelas

e o riso que nos mostra

é uma tênue cortina

lançada sobre os arsenais.

 

Vamos ao campo

e não os vemos ao nosso lado,

no plantio.

Mas no tempo da colheita

lá estão

e acabam por nos roubar

até o último grão de trigo.

Dizem-nos que de nós emana o poder

mas sempre o temos contra nós.

Dizem-nos que é preciso

defender nossos lares,

mas se nos rebelamos contra a opressão

é sobre nós que marcham os soldados.

 

E por temor eu me calo.

Por temor, aceito a condição

de falso democrata

e rotulo meus gestos

com a palavra liberdade,

procurando, num sorriso,

esconder minha dor

diante de meus superiores.

Mas dentro de mim,

com a potência de um milhão de vozes,

o coração grita – MENTIRA!

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