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Foi preciso um cortejo de planetas, deuses da mudança, enquadrando o Sol para apagar sua luz na dimensão

Carmen Dias: Uma homenagem ao Poeta dos Gorjeios

21/07/2020 12h28 Atualizada há 3 semanas
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Carmen Dias
Texto de Carmen Regina Dias
Texto de Carmen Regina Dias

O tempo

Para Samuel Barreto – 8. 10. 1968.

CARMEN REGINA DIAS (Academia Poética Brasileira/Seccional Cascavel/PR).

Uma homenagem ao Poeta dos Gorjeios

 

Era um dia jovem, cheio de graças,  Sol em Libra, Vênus em Escorpião,

Lua em Touro. Foi num dia assim que ele veio ao mundo, nascido para ser Poeta e

expressar em versos a alma de seu povo.

 

Samuel nasceu com essa configuração, duplamente regido por Vênus, a

deusa do Amor, do afeto, da Beleza, da Arte, da Cultura.

Deu no que deu. A calma em pessoa, reflexivo, obstinado, sólido, conciliador,

de temperamento concessivo, o equilíbrio e a simetria revelando-se em seus

poemas, tão repentinos, tão reais, tão musicais...

Uma criatura essencialmente artística e amorosa, amante da natureza e dos

relacionamentos, sempre obstinado e profundo em seus sentimentos e atitudes,

como convém a uma Vênus escorpiana.

Calmo, muito calmo... Mas, dentro dele o caldeirão fervilhava em cima das brasas

do tudo ou nada.

A Vênus escorpiana conduziu seus passos e sua vida, senhora de sua saúde, regendo

o pâncreas, onde mora a doçura.

Foi essa Vênus libertária e obstinada que o conduziu, como Gala conduzindo

Salvador Dali, fadado a produzir obra de tamanha envergadura e magnitude.

 

Foram dias e noites de muita ventura sobre a face da Terra. Décadas de

encantamento pela vida, criatividade e parceria, trabalho, inspiração,

comunicação e compartilhamentos a mil.

Foram...

 

Até que um dia...

Era um dia antiquíssimo, soturno, um dia à sombra de eclipses ameaçadores, desses que

escondem os raios de sol para assustar as fadas bailarinas nas gotas de orvalho, seu salão

de danças a céu aberto... E vê-las chorar...

Obscurecer os raios de sol do amanhecer não é nada auspicioso podendo representar

um perigo muito grande para a imensidão de versos que esperam, em silêncio pela

coreografia da Alvorada...

 

Foi nesse dia terrível que Saturno, o senhor do Tempo e da hora, em maus aspectos no

céu, opondo-se e quadrando-se àquela belezura de Vênus, àquela energia que movia

o filho da Poesia, na doçura de seus sentires,  corpo a dentro invadindo, espalhou

o seu hálito sombrio.

 

Foi nesse dia permeado de símbolos de dor, finalizações e transcendência, que o senhor

da tardança se levantou para interferir no seu destino.

 

Saturno é uma ponte e ela estava lá, sempre esteve e foi decisiva para a construção da

personalidade humana e fraterna, amorosa e criativa do Poeta na alma.  

O pai, um poço de Poesia, de onde o menino extraiu baldes e baldes de inspiração,

dom transmitido em seu DNA.

Saturno, sempre na área, fortaleceu sua vontade e o fez produzir uma obra Invejável, um

mar de poemas e escritos que pareciam nem ser desse mundo, de tão vastos e belos.

Saturno foi um pai exigente...

 

Aquela ponte amparou a caminhada do Poeta pela vida a fora, indo e vindo,

treinando persistência e concentração enquanto a Arte crescia dentro dele,

enquanto construía uma vida estruturada na cultura de seu povo. A Cultura,

a Arte e o Povo foram o seu valor, a sua moeda e, dedicar-se a eles foi a sua missão.

Nada mais natural. Missão cumprida.

 

O ano já começou com uma forca nas mãos. Sua Estrela D`alva progredida

desenhava um traçado tenso no zodíaco. Bombas vindo de todo lado, acertando-lhe

o pâncreas, morada do seu signo solar e, por mais forte que fosse, por mais que,

talvez, desejasse ficar, ele entrou no barco e se foi, mar a dentro. Um mar de versos.

 

Foi preciso um cortejo de planetas, deuses da mudança, enquadrando

o Sol para apagar sua luz na dimensão. Foi preciso um stelium para adormecer sua

Vênus.

Nada menos que quatro eclipses antecedendo sua partida pelos mares netunianos do

Poema sem fim. Dois deles, explodindo em quadraturas, estavam ali, esperando por ele

no início da nova jornada.

E é o próprio Netuno quem confirma, nas palavras de Guimarães Rosa: “A gente não

morre, a gente fica encantada.”

Como é bom saber, gratidão, Guimarães Rosa, pela lembrança.

Gratidão, Samuel Barreto, por tudo que você é e que tão generosamente compartilhou e

segue compartilhando no eterno com seus amigos, irmãos em Poesia.

Doeu. Posso dizer que doeu fundo em mim receber a notícia de que você partiu para

o paraiso, para o Éden do poema maior. Ainda bem que você deixou registrada a tua voz

em forma de conversas gostosas e de poemas tão lindamente declamados.

É aí, no Paraíso, que os deuses da Mudança e das transformações revelam o tesouro

que as vestes humanas ocultam.

Posso imaginar tua mina de rubis, esmeraldas, diamantes...

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