Quinta, 13 de Agosto de 2020
Dúvidas pelo seguinte e-mail
Geral BABAÇU LÂMINA

De Paulo Rodrigues: BABAÇU LÂMINA: A POÉTICA DA RESISTÊNCIA

Resenha

20/07/2020 13h14 Atualizada há 3 semanas
51
Por: Mhario Lincoln Fonte: Paulo Rodrigues
Professor e Crítico Literário, Paulo Rodrigues
Professor e Crítico Literário, Paulo Rodrigues

BABAÇU LÂMINA: A POÉTICA DA RESISTÊNCIA

(*) Paulo Rodrigues

“Às parlengas poéticas estou acostumado, /eu ainda falo versos e não fatos.

Porém se eu falo "A"/ este "a" é uma trombeta-alarma para a Humanidade.

Se eu falo "B" é uma nova bomba na batalha do homem”.

(Vladimir Maiakóvski)

 

          Logo após a prisão do sargento Manoel Silva Rodrigues, da Força Aérea Brasileira (FAB), com trinta e nove quilos de cocaína num avião da comitiva presidencial. O poeta Carvalho Junior iniciou um movimento reflexivo sobre a materialidade histórica da poesia. Muitos autores de várias partes da nação conectaram-se.

          Uma produção foi captada para a antologia: Babaçu Lâmina. “Não estávamos alegres, mas porque razão haveríamos de ficar tristes”, nos ensinou o poeta da Revolução Russa. O Certo é que enfrentar a história com a coragem de um quilombola foi a grande lição da reunião. 

           São trinta e nove vozes de um punhal só. Num trabalho editorial da Patuá (2019). Apresenta gravuras originais do poeta e crítico literário Ricardo Nonato, que prefaciou a compilação. Já finalizando o texto, ele afirma: “a poesia, portanto, de modo agudo e na sua diversidade, apresenta-se como lâmina, mas sem ignorar a possibilidades deste fruto opaco que guarda tantos sentidos e segredos de vivência”.

            Não há segredos morando no verbo. A vida coletiva está presente na enunciação poética de todos nós, por isso, vou analisar em pares (a obra inteira). Nesta primeira etapa escolhi Salgado Maranhão e Nathan Sousa. 

            Os dois estão muito acima do panfletário. Sabem cultuar a alta literatura. Conseguem erguer paredes novas, na arquitetura da palavra. Fazem versos de resistência, mas não estão com a bandeira na mão, na Avenida Paulista. O compromisso primário é a qualidade, a revelação, novos campos semânticos como vamos percebendo ao longo da leitura de MOVIEMENTO (2019, p. 101):

 

agora é outra paisagem

escrita

             no plasma

e na névoa

              a fluir

entre os dedos

como ao vento 

                as aves

ávidas.

agora é outro andaime

de pedras ao xadrez

do acaso:

a cidade e sua íris fumeé.

 

manhãs AR-15

tardes AK-47

delinquem entre ratos

e toletes totens.

 

a cidade em seu afã

a comer hot-dogamas

e balas de mortelã.

 

          Salgado é um poeta premiado e traduzido para o mundo. Faz bem a internacionalização da sua obra. Alexis Levitin, tradutor americano, cuida de mobilizar as universidades americanas para o estudo acadêmico de Sol Sanguíneo e outros textos. 

           No poema acima, existe uma compreensão da realidade sociológica do Brasil. As muitas paisagens deste continente heterogêneo e desigual são colocadas no “xadrez do acaso”. O fumeé das lentes humanas, nos impedem de ver as cores mais escuras da realidade. O poeta vem retira a película. Acende a luz para a massa trabalhadora.

            O ritmo é único, parece que marca a respiração urbana, ou, guarda a imagem das favelas com tiros seguidos, dentro de um silêncio budista. Salgado é construtor de uma sintaxe efervescente. Acaba a enunciação. Ficamos ainda sentindo o prazer da ferida.

             Ele arma totens para indicar novas veredas, nos velhos caminhos. Sua missão é nos retirar de uma geografia cega? Acho que sim!

              Por outro lado, Nathan Sousa é um poeta premiadíssimo, com uma produção híbrida de muita qualidade. Desponta como o mais respeitado autor da literatura contemporânea do Piauí. Alcançando um reconhecimento nacional importante, que o faz avançar rapidamente para a consagração literária.

              CAUDILHO (2019. p. 81) faz um passeio na alma do poeta, ao mesmo tempo, retira a roupa da segregação social entre nós:

 

Moro em um país que não 

me cumprimenta, onde o meu

melhor está enterrado.

 

Peço bênçãos aos trovões entre

uma morte e outra, forjando

meu metal sem brilho.

 

Estou no cerne da tela:

Abstrato e seco feito um líder

Ingrato.

 

           “A literatura é o meu baú de espelhos; meu instrumento mais afinado.” Disse o Nathan, em entrevista. É verdade, ele sabe usar esta arma para atingir o mundo no peito. Consegue o nocaute, em todos os rounds. Entende a identidade fragmentada da pós-modernidade. Sai espalhando pedaços da existência, nos versos.

             Continua revelando as carências do tempo, na sua cronologia pessoal. Sabe a força da transcendência como podemos observar nas três últimas estrofes:

 

O que me escapa está impregnado 

de fuga e fome; lavado de língua

e regresso.

 

O que me transborda

me depura.

 

Me aceita feito cura;

me afoga feito excesso.

 

          O poeta é a cura e o mar de si mesmo. Parece único. Mas é tão imenso e minúsculo como qualquer proletário, arremessado no espaço mágico dos dias. 

           Parece que aprendeu a lição de Graciliano Ramos. Retira as sobras, os penduricalhos, qualquer enfeite. Fica só o gume necessário ao risco. Um poeta consciente do seu papel. Floresce “levado de língua e regresso”.

            Os dois mostram a grandiosidade da poesia. Entregam-se ao trabalho de revelar espantos. Nos ensinam a difícil poética da resistência.             

               

  (*) Paulo Rodrigues (Caxias, 1978), é graduado em Letras e Filosofia, especialista em Língua Portuguesa, professor de literatura, poeta, jornalista. É autor de vários livros, dentre eles, O Abrigo de Orfeu (Editora Penalux, 2017); Escombros de Ninguém (Editora Penalux, 2018).  Ganhou o prêmio Álvares de Azevedo da UBE/RJ em 2019, com o livro Uma Interpretação para São Gregório. É membro da Academia Poética Brasileira.  

 

 

 

Nenhum comentário
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
Ele1 - Criar site de notícias