Quinta, 13 de Agosto de 2020
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Convidado Especial: PAULO URBAN/SP

As histórias de um clínico de psiquiatria

14/07/2020 11h34 Atualizada há 4 semanas
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Paulo Urban
Dr. Paulo Urban (Foto de Andrea Camargo)
Dr. Paulo Urban (Foto de Andrea Camargo)

Foto: Andrea Camargo.

Convidado Especial: PAULO URBAN/SP

Paulo Urban, membro da Academia Poética Brasileira, é Médico Psiquiatra e Psicoterapeuta do Encantamento.

Foi Diretor Clínico do Hospital Psiquiátrico "Casa de Saúde de São João de Deus" (SP), de 1994 a 2000.

Tanto seus textos e sonetos, bem como sua particular maneira de compreensão e abordagem do psiquismo podem ser melhor conhecidos visitando seu site:

www.amigodaalma.com.br. Contatos pelo e-mail: urban@paulourban.com.br

 

NOTA DO EDITOR: Esse brilhante AMIGO DA ALMA nos traz a partir de hoje - e semanalmente - todas as terças, causos e histórias interessantes pelas quais ele foi testemunha viva durante esses longos anos em que pratica com sucesso a Psicoterapia do Encantamente. As histórias também são da época em que foi diretor clínico do Hospital Psiquiátrico "Casa de Saúde de São João de Deus" (SP). Seja bem-vindo:

Causos da Psiquiatria - I

(Por Paulo Urban, médico psiquiatra e Psicoterapeuta do Encantamento/www.amigodaalma.com.br / urban@paulourban.com.br).

 

Seu Eugênio havia sido reinternado na madrugada. Fora trazido pelo irmão às portas do hospital. Pela manhã, sentado à minha frente, educado e solícito, tentava explicar-me o porquê da nova internação. Homem simples, beirando os cinquenta e há vários anos aposentado do serviço público por conta de sua doença. Psicótico de longa data, sofria de uma esquizofrenia com marcado delírio de megalomania. Embora desdentado, uns 3 ou 4 dentes na boca, acreditava-se lindo, irresistível às mulheres. Desprovido também, dado ao caráter progressivo da doença, de qualquer raciocínio mais complexo, dizia de si ser ‘o homem mais inteligente do mundo, tirando Jesus Cristo, é claro, porque sou católico e modesto’ (sic), fazia sempre esta ressalva.

Buscando elucidar a razão de sua internação, insisti:

-- Então, seu Eugênio, ainda não entendi direito o porquê de sua internação; segunda vez este ano, vejo aqui no seu prontuário. Por que seu o irmão o trouxe aqui? Que é que anda ocorrendo? 

-- Pois é, doutô, meu irmaõ tá certo, Itaquera tá ficando muito perigosa, não dá prá morar mais em paz lá não.

-- Como assim?

-- Óia só, doutô, a coisa tá braba, tá assim de cabra perseguindo a gente.

-- Perseguindo você? 

-- Uai, só porque eu falo uns trem de coisa linda prás muié, elas já saem pensando mal da gente, daí vão contar o que eu disse pros seus maridos e, batata, não passa um tempinho que já tá todo mundo me cercano, querendo me pegar. E eu lá tenho culpa que sou bonito? Eu lá tenho culpa de ser gênio também?

-- Ou seja, pelo que entendi você anda cantando as moças casadas, é isso?

-- É não, doutô, sei lá se são solteiras ou casadas, elas dão mole e aí eu conto que sou gênio, que sou imortal, e elas já ficam tudo atrás de mim, babando nimim; forma inté fila de muié, tudo interesseira atrás de mim, querendo um gênio pra casar; depois os maridos ficam com ciúmes e vêm pra cima da gente com gnorança.

- Parece que o senhor anda mexendo em vespeiro, seu Eugênio, cantar mulher dos outros costuma dar problema, sim.

- Mas é só às vezes que eu mexo com elas, mas não é isso que dá poblema não; elas é que não entendem que eu tô sendo educado, porque tenho educação, e quando eu digo que sei matemática, que sou professô de ciência, não sei porquê ficam com medo de eu saber muito das coisas todas... pois eu lá tenho culpa se Deus mandou eu ser gênio? Tirando Jesus, é claro, porque...

-- Porque o senhor é católico e modesto.

-- Isso mesmo, como é que o senhor sabia o que ia dizer, doutô?

-- Você mesmo me contou.

-- Pois, foi? ... então, daí as muié reclama e lá vêm os hómi dizê pro meu irmão que vão me pegar e me matar de tanta paulada. Falam que vão abrir minha cabeça e dar tiro na testa. E como eu já tenho, contando com esta, umas 15 internação, isso em 10 anos (ou seria 16?), eu acho até que tô com uma média muito boa, não é, doutô? E lá vem meu irmão me internar de novo, mas ele tá é certo, que é pra módi de manter a média sempre boa.

Eu bem podia imaginar a cena rolando:

A) seu Eugênio se engraça com alguma mulher que entra no bar onde ele costuma beber;

B) ele fala para ela, então, umas coisas meio sem nexo em meio a seus delírios abundantemente férteis, um pouco picantes também (ele é extrovertido, com certa liberação instintiva e aquela autoestima lá em cima).

C) as moças, umas mais compreensivas, outras nem tanto, umas até bem broncas que nem ele, dessas que vão ao bar só para comprar cigarro ou pinga para si ou para seus maridos, pouco compreendendo do discurso altamente científico que seu Eugênio traz afiado na ponta da língua, não sabem ao certo se estão mesmo sendo cantadas ou não por alguém muito inconveniente e, pronto, está criada a confusão!

D) e vão queixar-se a seus maridos que, por sua vez, ameaçam dar um “corretivo” no maluco.

Além disso, seu irmão já me contara das outras vezes em que veio ao hospital visitá-lo, seu Eugênio era figura folclórica no bairro, só não apanhava mesmo porque era tido como doido de pedra, ‘mas tudo tem limites, até a paciência, né, doutor?’, ele me dizia, não raro ficava sabendo que este ou aquele estava mesmo jurando de morte o coitado de seu irmão, quando via que era hora de retirá-lo um pouco de circulação.

-- E o seu remédio, seu Eugênio, o senhor está tomando direitinho?

-- O melhoril? (era assim que ele chamava os seus comprimidos)

-- Esse mesmo.

-- Tô não... uai, tomo dia sim dois dias não...

-- E por que não o toma todo dia?

-- O melhoril me deixa de boca seca, doutô, daí eu paro uns dias e vou molhar a garganta... por isso é que tomo umas pinguinha. Ninguém é humano, né doutô?

-- De ferro, o senhor quis dizer.

-- Então, ninguém é de ferro nem humano, e gosto sim quando o senhor me correge.    

E gargalhou mostrando seus únicos quatro dentes, bem escuros por sinal, contratando com o vazio da boca. Empolgado com a anamnese de admissão, enquanto eu o examinava, media sua pressão, observava seus sinais vitais, não parava de falar:  

-- Então, doutô Paulo; é como lhe digo, só porque vou ficar prá semente, só porque sou imortal e tenho sabedoria de ciência, tamém porque sou assim bonitão é que arrumo tanto poblema. Essas coisas que tão falando por aí de rede Globo, de globalização, de ano 2000, é tudo mentira!

Curioso, quis saber:  

-- E o que é que tem a ver com a rede Globo com você? O que é que é tudo mentira?

-- Uai, doutô Paulo, essa história aí de o homem pisar na Lua, é muita mentira que a rede Globo inventou, tudo montagem de cinema prá enganar os trouxa, mas eu não caio que ninguém é mais inteligente que eu, uai, pois meu nome já não diz?

-- Diz o quê?

-- Eu...gênio, que meu pai acertou o meu destino quando eu nasci, ah, isso ele acertou! Sabido o meu pai.

-- Quer dizer, então, que o homem nunca esteve na Lua? E foi a rede Globo que inventou essa história?

-- Que foi, foi; pisar lá até pisou, mas a Globo conta muita mentira; aliás, a NASA tamém, só na mentira, uai; eu bem que sei que o homem pisou na Lua, isso lá é verdade, mas o mais importante eles apagaram da filmagem e não mostraram para o mundo.

- E o que havia de tão importante que foi apagado?

- Eles não contam que eu é quem sou a Apolo 11! Isso eles não mostram, ficam só na armação contra mim.

- Como é que é? O senhor está me falando que era a Apolo 11? A nave que levou os astronautas à Lua pela primeira vez?

- Que EU ERA, não, eu CONTINUO SENDO a Apolo 11! E não é ‘nave’ que se fala, doutô Paulo, como pode um médico não saber isso? O certo de dizê é foguete, fo-gue-te! Foguete espacial. E tem ainda: quem pisou primeiro lá na Lua foi eu mesmo; pensa só, doutô, se eu não tô certo: antes do astronauta descê pela escadinha, é o foguete, que sou eu, que tem que batê primeiro o pé no chão!

Tinha lógica. Como eu podia ser tão buuurro?

E ele continuou, mais animado ainda: 

- Eu não fui só até a Lua não, já estive em Marte, em Vênus, no Sol também, mas é muito quente lá; estive numas estrelas gigantes por aí que são bem mais frias; e eu vi os astronautas tudo conversano, falano de ciência, tudo em inglêis, que eu entendo bem de escutá, e no foguete tem uns computador difícil na parede, que prá mim são fácil de mexê, e os astronauta tinha uns pinto assim de grande, ó! – completou, fazendo um gesto a mensurar o tamanho com as mãos em paralelo uma da outra.

Imaginei como não seria ele contando essa história toda com o detalhamento final lá para as moças do bar... só podia mesmo acabar em confusão. E tendo nosso assunto virado tema espacial, resolvi especular, não por qualquer razão diagnóstica, senão pelo prazer de ter com ele um bom contato afetivo; boas conversas são sempre terapêuticas, afinal:

-- E em discos voadores, seu Eugênio, o senhor acredita?

- Eu nunca vi esses trem não. Sabe como é, doutô, eu sou lá do interior de Minas, terra dos cafezim, dos pão de queijo... e óia que por lá tem muita gente que diz que já viu esses trem, tem vez pode inté ser verdade, duvido não, mas tem vez que é tudo conversa de doido, sabe? Tá assim de gente louca à solta pelo mundo! Aí elas fica falano que viram disco voador e marciano, mas é difícil de crê, é tudo doença da imaginação da cabeça desses maluco; fala a verdade, doutô, se não tem gente que vê coisa que não existe? Uai, tem uns aí inté vendo voz dentro da cabeça...

Concordei. E aproveitei a perguntar:

-- Bem, mas agora fiquei curioso, conta pra mim como são os planetas que o amigo já visitou. Marte e Vênus, por exemplo, como são? É bonito por lá?

- Óia que é tudo muito parecido, pois, foi Deus que fez todos eles e Deus não é um cara assim tão criativo quanto eu; só tiro mesmo Jesus, depois vem eu. Marte, por exemplo, tem umas nuvens cor-de-rosa, azul também, e tem uns prédio alto e umas casa redonda de vidro onde os marcianos moram e fazem festa.

-- E Vênus?

-- Vênus é bem mais moderna, tem também uma fábrica de antena de satélite. Vênus é que exporta as antenas pros disco voador dos marcianos. Sem elas eles se perdem.

-- Mas, enfim, estes planetas são bonitos? O que me diz a sua sensibilidade?.

Seu Eugênio foi taxativo:

-- Que nada! É tudo lugar feio, feio de doê! Todos os dois têm muita violência, sabe? Oia, doutô Paulo, aqui pra nóis, Itaquera é muito mais tranquila. Tirando os hómi que morre de ciúmes de mim só porque eu sou gênio, Itaquera é um paraíso perto dos outro planeta, é o melhor lugar prá se morar! Só dá Curinthia. Quer tomar um cafezim lá em casa, doutô Paulo, assisti ao futebol?

 

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