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Uma homenagem a Coxinho, amo do Boi de Pindaré

Com vídeoclipe

06/07/2020 14h07 Atualizada há 1 mês
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Por: Mhario Lincoln Fonte: ML
Preparação de entrada do Boi de Pindaré. (Google)
Preparação de entrada do Boi de Pindaré. (Google)

 

OS ÚLTIMOS DIAS DE COXINHO

Mhario Lincoln 

 

Coxinho, ou como no batismo, Bartolomeu dos Santos, nascido em 24 de agosto de 1910, na localidade Lapela, interior do Maranhão. Desde os 14 anos, ainda no ‘Boi Reis do Ano’, surgiu o amor pelo Bumba-Meu-Boi. Já em São Luís, Coxinho se tornou amo de boi e em 1945 conheceu o ‘Boi de Pindaré’, sua grande paixão na vida.  Aliás, o município de Pindaré está no mapa maranhense como uma das grandes expressões de manifestações populares, considerado o berço da cultura do Estado, incluindo-se igualmente municípios circunvizinhos. Como Amo do Boi de Pindaré, tornou-se mundialmente conhecido pelas toadas que compunha: “Urrou/Urrou/Meu novilho brasileiro/ Que a natureza criou”, é um dos hinos do Bumba-Meu-Boi do Maranhão.  Tanto que essa toada ‘Urrou do Boi’, em projeto do então deputado Benedito Coroba, de Lei 5.299, de 12 de dezembro 1972, foi oficialmente reconhecida como o Hino Cultural e Folclórico do Maranhão, após a sanção pelo então governador Edison Lobão, fato que tornou obrigatória sua execução na abertura e fechamento de eventos culturais realizados no Maranhão. Porém, isso não aconteceu. Segundo o jornalista e ex-deputado José Raimundo em recente declaração pública, disse: “Falta valorizar o trabalho deste grande artista. A lei que imortalizou oficialmente a toada ‘Urrou o Boi’, tem um jubileu prateado de mais de 25 anos que passou despercebido. A Lei não é respeitada nem nos arraiais do governo e tão pouco nos privados. Além disso, vários cantores regravam a toada sem pedir autorização para família de Coxinho e reproduzem a música sem pagar nada por isso”.

Mas, nem tudo foi glória. Aliás, Coxinho nunca conheceu realmente a glória que tanto merecia. “Quando os festejos acabavam, Coxinho passava por grandes necessidades financeiras. Sem emprego e com sérios problemas de saúde, chegou a pedir esmolas no centro comercial de São Luís”, diz José Raimundo Rodrigues, pessoa que não mediu esforços para ajudar o cantador e amo do Boi de Pindaré. José Raimundo me falou, ainda que na década de 90 foi concedida ao Amo do Boi de Pindaré,  uma pensão vitalícia pelo então governador Epitácio Cafeteira e entregue a Coxinho pelo secretário Clovis Viana, durante a terceira campanha de solidariedade, feita pelo apresentador do MARANHÃOTV, junto os alunos dos Maristas, no antigo Cassino Maranhense.

Antes, em 1984, José Raimundo e o poeta Chico da Ladeira, já haviam promovido uma primeira campanha de solidariedade humana a favor de Coxinho Bartolomeu dos Santos, no Teatro Artur Azevedo, o maior palco cultural de São Luís. Toda a arrecadação foi depositada em conta-poupança em nome do favorecido.

Tantas histórias interessante que acabaram por me levar a uma das últimas pessoas que conviveu com Coxinho, o blogueiro e repórter fotográfico bacabalense (MA), Jeremias Pereira dos Santos: (...) “Em agosto de 1978 cheguei em São Luís-MA, com a idade de 15 anos incompleto para trabalhar nas oficias da Igreja onde o Padre João era o pároco. A primeira pessoa a quem conheci foi o seu Bartolomeu. O secretário do padre ao me apresentar disse: ‘Tu conheces as toadas do Boi de Pindaré’? Antes de eu responder, ele completou: ‘...é este aqui quem canta. O nome dele é Bartolomeu’. Assim, durante mais ou menos três anos, convivemos no mesmo ambiente de trabalho. (...)”.

Jeremias me falou, ainda: “De vez em quando, alguns estrangeiros (franceses), chegavam por lá e Padre João contava a história de Bartolomeu. Então os estrangeiros levavam uma fita K-7, para que fossem gravadas as toadas e pagavam alguma coisa a ele. Bartolomeu, gravou em 1972 um disco compacto, com as toadas do Boi de Pindaré, o Boi de João Câncio. A gravadora responsável jamais deu a ele, nenhuma forma de pagamento. E o pior é que ninguém intercedeu por ele, para que seu pagamento fosse feito. Ao contrário, quando deixou o serviço de Padre João, desesperado, pelo abandono da esposa, de acordo com o que ouvi e pela pobreza extrema, acompanhada de mágoa e por saber de todo seu esforço para contribuir com a Cultura de seu estado, acabou pedindo esmolas, na principal artéria de comércio de São Luís; a rua Grande.” 

Aliás, vale ressaltar, que algumas medidas foram tomadas por parte de algumas autoridades estaduais. Em 1979, quando João Castelo foi governador do Maranhão, nomeou Coxinho para Secretaria de Estado de Desportos e Lazer (Sedel). Foi quando ele passou a receber um salário mínimo por mês. A aposentadoria não foi suficiente para suas necessidades. Coxinho, então, passou a mendigar pelas ruas do centro de São Luís. O então deputado estadual José Raimundo Rodrigues tentou por meio de proposta apresentada ao governo para que a aposentadoria de cantadores com mais de 20 anos de presença na cena cultural do estado fosse elevada para o valor de cinco salários mínimos, mas não teve sucesso. 

Jeremias dos Santos complementa sua fala: "A última vez que conversei com Bartolomeu, foi exatamente em 1987, quando comprei dele, todos as ferramentas de carpintaria, que ainda lhe restava. Coxinho viveu para o folclore do Maranhão e pelo embelezamento poético das toadas do Bumba-Meu-Boi. Uma verdade, Mhario, precisa ser dita: muitas pessoas fizeram média com o nome do seu Bartolomeu (Coxinho), que fez história. Mas foram os outros que apareceram bem na foto. E digo mais:  (...) eu que o conheci na situação em que passava e convivi com ele mais ou menos três anos, não posso concordar com o fato de deixar alguém abandonado, sobretudo, quando se trata de um dos maiores nomes das manifestações populares do Maranhão, que viveu, certamente sua vocação, de cantar, em prol do crescimento do folclore da nossa nação. Mas, esse reconhecimento, nunca existiu de verdade.” 

São palavras fortes de Jeremias Pereira dos Santos e José Raimundo Rodrigues. Essas opiniões-denúncias devem ecoar por esse mundão de Deus. É um clamor contra a desigualdade. A favor do reconhecimento das pessoas que realmente contribuíram para embelezar estes tempos tão difíceis. Mas o mundo, hoje, está cheio de egoísmo, de individualidade, de impurezas da alma, de incapacidade humana de enxergar o valor dos outros. Muitos, só olham para o próprio umbigo. Fiquei realmente muito emocionado ao conversar com Jeremias. 

Acerca disso, eu e o músico e produtor musical Chiquinho França, nascido em Pindaré-Mirim (MA), conseguimos fazer numa homenagem singela a Coxinho (sem nenhuma finalidade comercial). O vídeo que está abaixo, no link:

https://www.youtube.com/watch?v=rliQUc4lCsc&feature=youtu.be

 

 

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