Quinta, 13 de Agosto de 2020
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Cidades CRONICA

Convidado: cronista Roger Dageerre

"Quero Paz"

04/07/2020 14h05
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Por: Mhario Lincoln Fonte: ROGER DAGEERRE
Roger Dageerre é escritor e cronista
Roger Dageerre é escritor e cronista

Quero paz

Roger Dageerre

 

Era uma vez um velho chamado Cândido que morava sozinho, pois a sua esposa tinha falecido há mais de dez anos e ele se recusava a morar com o único filho para não o incomodar. Era o verdadeiro e único dono do lar. Fazia a própria alimentação, limpava a casa, cuidava das plantas, lavava e engomava as roupas.
Num dia de domingo, o seu filho médico, Dr. Helmano, foi visitá-lo. O Sr. Cândido não ficou surpreso, pois o seu filho nunca demorava a aparecer.
- Entre, filho! Que bom ver você! – disse Cândido, abrindo a porta.
Dr. Helmano abraçando o pai, tentando matar a saudade. E, antes do velho fazer a cobrança de sempre, foi logo explicando que passou dois dias sem aparecer porque estava trabalhando em três hospitais e a correria era grande.
- Entendo. Sei que você é um homem muito ocupado. Mas, precisamos ser mais “pai” e “filho”...
- É por isso que estou aqui agora. – disse o médico, deixando o pai surpreso.
- O que aconteceu? O meu neto está bem?
- Está, sim! Mas ele está sentindo muito a falta da mãe. E agora está se recusando a mamar no peito da vizinha sem motivo algum.
- Deve ter um motivo, sim. Ele não ia ficar com fome sem explicação.
- A criança está aceitando o leite materno na mamadeira, mas não quer mamar no peito.
- Já experimentou trocar de peito? – perguntou Cândido.
- Como assim? – o médico ficou sem entender.
- Talvez ele não esteja simpatizando com a mãe que está tentando amamentá-lo. Lembre-se que ele teve dificuldade para pegar o peito assim que a minha nora faleceu.
- Ele já está com ela há quase seis meses. Se fosse por falta de simpatia, com certeza já teria demonstrado. O que devemos fazer?
- Vamos tentar com outra mulher.
- O senhor quer dizer “outra mãe”?
- Não precisa ser mãe, basta que seja mulher que possa oferecer o seio para ver se ele aceita.
- É! Acho que o senhor tem razão. Mas, não é melhor o senhor passar uns dias lá em casa?
- Você não está se aproveitando da situação, está?
- Não, pai! O senhor sabe que, desde quando minha esposa faleceu, tento convencê-lo a morar comigo.
- Tudo bem, mas é por poucos dias.
- Obrigado, pai! O senhor é o meu herói. – disse o Dr. Helmano, beijando a testa do pai...
- Amanhã cedo estarei lá. Só uma semana, Ok?
- Ok! Vai ser a melhor semana de todos os tempos. – beijou novamente o pai e saiu apressadamente.
No dia seguinte, o Sr. Cândido levantou cedo, regou as plantas, trancou bem a casa e saiu.
Antes de o médico sair para trabalhar, seu pai chegou, para a alegria dele e do neto, pois os dois abriram um sorriso de satisfação. O filho abraçou o pai, e o neto Tonne, apesar de poucos meses de vida, ficou todo assanhado com a presença do avô. O Dr. Helmano saiu prometendo trazer uma moça para fazer o teste da amamentação. O senhor Cândido tranquilizou o filho prometendo cuidar bem do seu neto e ajudar dona Carmelita, a empregada antiga da casa, que sempre se deu bem com todos, inclusive com o Sr. Cândido.
A presença do avô deu alegria ao neto Tonne, mas quando a vizinha chegou para amamentá-lo, Tonne perdeu a animação e o senhor Cândido logo desconfiou que a senhora que estava tentando amamentá-lo tinha feito alguma coisa de errado. Mas. Ela ofereceu o peito, a criança recusou. Então ela entregou o leite que já estava na mamadeira e saiu apressadamente sem cumprimentar o senhor Cândido, que ficou observando o jeito estranho dela. E, quando Dona Carmelita pôs a criança no colo para dar a mamadeira, o senhor Cândido pegou-a primeiro, pôs um pingo na mão e provou. Percebeu que não era leite materno e sim leite de vaca misturado com água e açúcar. Mas isso não era motivo justo para a criança ficar em pânico. Dona Carmelita ficou indignada, afinal, foi ela quem contratou a vizinha para alimentar a criança.
Logo depois, o médico chegou acompanhado de sua secretária, que concordou em fazer o teste com a criança. A moça nunca tinha ficado grávida, mas como era para fazer o teste, ela veio simplesmente para colaborar. Após ser apresentada pelo Dr. Helmano, pôs a criança no colo e, sem cerimônia, desabotoou o sutiã e colocou um dos seios para fora, oferecendo-o à criança, que aceitou sugando com força; contudo, ao perceber que não tinha leite, abandonou o seio, que ficou à mostra, mas não chorou. A secretária guardou o seio de volta com naturalidade, dizendo:
- Fiz a minha parte.
- Sabemos disso. Somos muito gratos. Agora temos que procurar outra mãe com urgência, pois o meu filho só se alimenta de leite materno – disse o médico.
- Não vai ser preciso pressa, pois descobri que a criança já vem sendo alimentada com leite de vaca. – o senhor Cândido explicou como descobriu isso, e o médico ficou preocupado.
- Podem ir. Deixem que eu e a Carmelita vamos fazer o melhor.
O médico saiu com a secretária. Carmelita continuou dando a mamadeira e o senhor Cândido aproveitou para observar o sistema de segurança da casa. Ao rever as gravações, encontrou o problema. A mãe de leite estava batendo na cabeça da criança sem explicação lógica. Aparentemente, pancadas leves, mas assustadoras. Ele ficou tão preocupado que deu um banho no menino, pegou-o nos braços e ficou examinando calmamente para ver se encontrava algum hematoma. Depois, ficou cantando até a criança dormir. Em seguida, foi à farmácia, comprou um leite apropriado para a idade dele e deu a orientação necessária para dona Carmelita alimentar a criança com o leite artificial até que encontrasse uma nova mãe de leite. Fez uma cópia da gravação, foi até a delegacia mais próxima e registrou um boletim de ocorrência. Retornou à casa do seu filho, determinou que Carmelita cuidasse da limpeza e foi preparar o jantar. Vestiu um avental, pôs luvas e escolheu para o cardápio arroz de cuxá e camarão torrado. Dona Carmelita ficou observando a forma dele de cozinhar. E o que lhe
chamou mais a atenção foi que ele preparou a refeição usando como tempero apenas água, sal e alho. Jamais tinha visto alguém cozinhar assim.
Quando Dr. Helmano chegou para jantar, o senhor Cândido colocou a fita da gravação dos dias anteriores para ele assistir. Quando o médico viu o seu filho sendo espancado pela vizinha, ficou impressionado com a cena. Era difícil de acreditar que tudo aquilo estava acontecendo sem que ele percebesse. Não sabia se era falta de experiência, se tudo estava acontecendo porque perdeu a esposa, ou porque não aprendeu direito a lição que o seu pai passou a vida toda lhe ensinando. Reconheceu que a paz estava voltando ao seu lar porque quem estava no comando era o seu velho amigo. Restou agradecer, falando de amor ao seu pai.
- Vamos registrar um B.O.?
- Já fiz isso. – e mostrou o boletim.
- Obrigado, pai! Acho que preciso examinar o meu filho...
- Não precisa. Não sou médico, mas já fiz isso. Ele está bem. As pancadas foram leves. Nada grave.
Dona Carmelita chamou o médico em particular e explicou que o jantar tinha sido feito pelo senhor Cândido, que estava gostoso, pois ela já tinha provado. O Dr. Helmano disse para ela não se preocupar, pois seu pai estava acostumado a cozinhar e muito bem.
O senhor Cândido ficou brincando com o seu neto até que o seu filho disse:
- Pai! Senta aqui, vamos jantar. Vamos conversar.
- Fiz o jantar!
- Já fui avisado. – disse o filho com orgulho.
- Você deveria aprender a fazer tudo.
- Quero aprender muito mais com você. Sei que sabe tudo, e quero aprender tudo com você. Quero que o senhor me passe toda a segurança. Cansei de ser aquela criança medrosa. Quero apenas que o senhor fique aqui brincando conosco. Pai! Quero Paz!

 

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