Quinta, 13 de Agosto de 2020
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Geral RUY CASTRO

Leia o prólogo do livro de Ruy Castro, disponibilizado pela "Companhia das Letras"

METRÓPOLE À BEIRA-MAR

03/07/2020 22h20 Atualizada há 1 mês
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Cia das Letras
Ruy Castro
Ruy Castro

PRÓLOGO O CARNAVAL DA GUERRA E DA GRIPE

Nem tudo eram valsas e bombons nos Bálcãs da Belle Époque. No dia 28 de junho de 1914, em visita oficial a Sarajevo, capital da Bósnia, o príncipe Franz Ferdinand, herdeiro do trono austro-húngaro, e sua mulher, a duquesa Sophia, foram mortos a tiros por nacionalistas sérvios num desfile em carro aberto, um Gräf & Stift de seis lugares. Foi um ato da facção terrorista Mão Negra, empenhada na libertação das províncias eslavas sob domínio da Áustria-Hungria e na sua absorção por uma futura Grande Sérvia. Aquele atentado era um assunto interno, de um império de barbas brancas e mangas já puídas, e assim devia ser tratado. Mas as grandes potências viram nele um pretexto para impor medidas expansionistas há muito em seus planos, e para as quais estavam se armando — sabendo que, se executadas, essas medidas levariam a Europa à guerra. A Áustria, escorada no “apoio incondicional” que recebeu da Alemanha, exigiu uma retratação que a Sérvia considerou humilhante.

A Rússia, atenta às manobras alemãs em busca da hegemonia no continente, pôs-se ao lado da Sérvia. Como a Sérvia não deu satisfações à Áustria, esta lhe declarou guerra em 28 de julho. No dia 29, a Rússia ordenou a mobilização geral de suas forças. A 31, a Alemanha comunicou à Rússia que faria o mesmo se, em doze horas, esta não se desmobilizasse. No dia seguinte, 1º- de agosto, como nenhuma medida foi tomada, a Alemanha declarou guerra à Rússia. Assim se davam as cartas nos bons tempos. A França, vendo-se no centro geográfico do conflito, tomou o partido da Rússia e, no dia 3, a Alemanha também lhe declarou guerra. Para mostrar que falava a sério, invadiu o território francês passando por cima da Bélgica.

A Inglaterra, vendo desrespeitada a neutralidade belga e sentindo a ameaça do domínio alemão no continente, entrou no conflito. No dia 4 de agosto, já estavam definidas as alianças: de um lado, a Rússia, a França e a Inglaterra; do outro, a Alemanha, a Áustria e, docemente constrangida por um antigo pacto com a Áustria, a Itália. Somente dali a dois dias, a Áustria, que fora quem começara tudo, declarou sua guerra à Rússia — como um garoto que dá um pontapé na canela de um adulto, confiante de que seu irmão batuta brigará por ele. Mas, ali, todos eram batutas. Em Viena, Berlim, Moscou, Paris e Londres, multidões tomaram as ruas com fervor patriótico e foram aos portos e estações ferroviárias para se despedir de seus rapazes em uniforme. A guerra provoca uma estranha química — faz de cada civil, por mais tíbio, um bravo, principalmente com o pescoço alheio, o dos soldados.

Além disso, previa-se uma guerra curta, que talvez nem chegasse ao Natal. Os mais cínicos diziam que ela nem precisava acontecer: o rei Jorge v, da Inglaterra, o kaiser Guilherme ii, da Alemanha, e o tzar Nicolau ii, da Rússia, subitamente inimigos, eram primos — todos descendentes da rainha Vitória — e poderiam resolver suas diferenças num torneio de tiro aos pombos numa de suas casas de campo. Mas as guerras têm também seus ritmos próprios. Aquela, pela primeira vez, envolveria todos os continentes — daí essa ter sido a Grande Guerra, por todos chamada. Em algum momento dos quatro anos seguintes, búlgaros, australianos, canadenses, neozelandeses, indianos, turcos, sul-africanos, argelinos, senegaleses, marroquinos e até brasileiros (aos milhares, todos; às centenas, no nosso caso) foram para a Europa combater a favor desta ou daquela aliança, nem sempre como voluntários.

A Itália cometeu a façanha de trocar de lado com o jogo em andamento, e concentrou-se em lutar contra a Áustria, com quem tinha amargas querelas territoriais. Poucos meses depois de iniciado o conflito, ninguém mais se lembrava do que acontecera em Sarajevo, nem interessava. Era também o fim da Belle Époque. Nas guerras do passado, o grosso das baixas se dava pela morte na ponta das baionetas — os soldados se matavam de olhos nos olhos. Mas, agora, a morte não tinha rosto e vinha de todos os lados. Essa foi a guerra em que fizeram sua estreia as trincheiras que atravessavam fronteiras, os canhões semiautomáticos, os lança-chamas, os gases venenosos, os submarinos, os aviões, os tanques com lagarta e até as motocicletas. Antes, a morte em combate vinha no trespassar de uma bala ou baioneta. Agora tinha-se o corpo estraçalhado. Diante das metralhadoras que disparavam seiscentas descargas por minuto, a expectativa de vida dos soldados de infantaria que partiam para um ataque era de vinte minutos.  Para ler a íntegra das 24 páginas, siga o link: https://www.companhiadasletras.com.br/trechos/14359.pdf

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