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Convidado. Tácito Garros: O RACISMO ESTRUTURAL BRASILEIRO

Racismo: o prato principal do cardápio social. Felizmente ou (in)felizmente?

02/07/2020 17h46 Atualizada há 1 mês
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Tácito Garros
Tácito Garros
Tácito Garros

O RACISMO ESTRUTURAL BRASILEIRO

 

Convidado: Tácito Garros

Tácito Garros.

Indignação, a mola mestra das mudanças colocou o assunto racismo na condição de prato principal do cardápio social por todo o mundo, não sei se digo (in) ou felizmente: motivando manifestações de toda ordem, por parte de populares em todo o mundo. Eles passaram a ocupar ruas, praças e avenidas empunhando cartazes gritando a frasecomopalavra de ordem: "vidas negras importam".

Até um pronunciamento específico do líder religioso com o maior número de seguidores do planeta, o simpático Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, primeiro da igreja católica não europeu em mais de 1. 200 anos. O chefe supremo da igreja católica disse que considera “intolerável” qualquer forma de racismo. Disse também o pontífice: “Não podemos tolerar nem fechar os olhos diante de nenhuma forma de racismo ou de exclusão e que pretende defender o caráter sagrado de toda vida humana.”

Eu explico: as palavras de ordem que invadiram o mundo e as declarações do Chefe supremo do Vaticano foram em resposta à morte de George Floyd, homem negro asfixiado por um policial branco nos Estados Unidos, registrada em vídeo que indignou o mundo após sua divulgação.

Cá pra nós, aqui no Brasil, vidas  negras pouco importando as idades, ceifadas diuturnamente em favelas e periferias nas  grandes cidades, um verdadeiro genocídio de jovens pobres e pretos realizados por policiais, não é novidade. Porém, não alcançam a mesma repercussão mundial quanto a recente do americano, mas provocaram e provocam tanta ou maior dor e indignação a inúmeras famílias. Sem alternativa os parentes desses pretos engolem o choro, pois solução ou punição para os algozes fica sempre pra depois, o que caracteriza o mais puro racismo institucional. Uma sequência constante de negros desarmados e inocentes assassinados por policiais silenciosamente autorizados, sem solução. Fatos sem a importância devida que deveria ser dispensada pelo Estado. Uma situação que é agravada por formas de abordagem contra negros, descaradamente tendenciosa a ser mais agressiva. Preto, pobre e morador de comunidades, em qualquer lugar do país para a polícia já é suspeito de muita coisa, e se correr está fadado ao transporte gratuito de Rabecão para o IML.

Desengraçadamente, a sequência de desgraças provocadas por todas as variações de racismo, vitimam os pretos do nosso velho Brasil, desde os idos de 1888, quando ocorreu a abolição da escravatura. Num contexto de absoluta e total resistência, pois fomos o último dos grandes países Ocidentais a extinguir a escravidão, que por aqui durou três longos séculos. Iniciou no século XVI, quando negros de várias partes da África entre eles reis e rainhas tribais, depois de capturados foram obrigados a desembarcar no Brasil  para trabalhar na exploração de ouro e nas lavouras de cana-de-açúcar. O 13 de maio de 1888, data em que deveríamos prestar “Loas” à princesa Isabel pelo seu feito abolicionista, vencendo os capitalistas escravocratas, acabou virando o marco inicial de uma nova tortura, um novo tipo de escravidão, desta feita de mãos desacorrentadas, porém com uma mordaça invisível.

Nossos pretos foram libertados, mas sem voz ou vez, e em ato contínuo privados de qualquer possibilidade de resgate de uma vida digna. Não receberam nada em termos de saúde, moradia, educação etc, muito menos o que receberam os brancos estrangeiros que decidiam ou concordaram em embranquecer a população ao migrar para o Brasil por exemplo, que era uma gleba de terra para produzir, sobreviver, formar povoações e se multiplicar. Ninguém se preocupou em criar um sistema de políticas públicas para os pretos alforriados. Habitação, saúde, trabalho era e ainda é coisa de maioria branca. Para os pretos, que em 1888, só pareciam ser gente; nada restou, foram jogados nas ruas à própria sorte.

Os negros libertos, mas sem direitos, continuaram sujeitos às mesmas humilhações, talvez até mais maléfica que as físicas anteriores, execrações públicas, pilherias, submissão a trabalhos insalubres, proibições de acesso aos lugares e até assassinatos sem qualquer motivo, pela garantia tácita da impunidade. Os Negros da época assim como os pretos de hoje ainda fazem o mesmo questionamento do poeta “ o que é que eu vou fazer com essa tal liberdade”.

 Sem saída foram morar onde ninguém queria e começaram a formar as primeiras favelas brasileiras, um deslocamento social que vem varando séculos sob a mesma visão e atitude governamental excludente: Racismo estrutural.

Do fim do Século XIX até o início do século XXI podemos dizer que pouca coisa mudou para muitos institucionalmente. Ou alguém tem dúvidas sobre essa segregação nos dias de hoje? Nas escolas e universidades a maioria dos alunos é branca. Entre médicos, juízes de direito, professores e inúmeros cargos e funções públicas, os pretos são minoria esmagada.

O IBGE registra que os negros só são maioria no setor de construção civil e nos serviços domésticos, áreas que historicamente pagam menores salários e demandam um grau de instrução mais baixo. No quesito renda, também a nota mais baixa vai para o bolso dos pretos recebendo pouco mais que a metade do que é pago aos brancos.

É exatamente nesse entre outros tantos pontos, que reside o racismo estrutural. Ele opera em silencio, da mesma forma que o vírus COVID 19, uma pandemia que está matando e atormentando o mundo neste começo de século, e a invisibilidade o torna mais difícil combater.

Os dois vírus, se manifestam em silencio tanto o virulento coronavirus, quanto o vírus do racismo e do preconceito (duas coisas distintas) *. Com a pandemia os pretos que já amargam os empregos mais precários também são os primeiros a ficar sem renda e os mais atingidos. A diferença entre os dois virus em termos de letalidade, é que o racismo no Brasil especificamente, vem sendo disseminado há séculos e precisa ser interrompido, vacinado para que não mais se reproduza.

Mas, para analisarmos a virulência do racismo estrutural, sem dizer uma só palavra do que está motivando sua decisão, o racista  dispensa um preto em ocasiões de escolhas para emprego, no mesmo silêncio que os seguranças seguem os pretos do acesso, à permanência em estabelecimentos comerciais, e por ai vai. O Brasil está recheado de exemplos etc.

Fazer juízo das pessoas sem conhecimento prévio apenas pela cor da sua pele, continua sendo a afinação da banda podre da nossa sociedade que pensa e age assim, apesar da maioria populacional ser de pele escura. Os pretos são mais da metade da população brasileira, (53%).

A revista Retratos, uma publicação do site Agência de Notícias IBGE, traz em sua mais recente publicação, que no último Censo Demográfico brasileiro, realizado em 2016, as pessoas que se autodeclararam pretos ou pardos, também são absoluta maioria quando vários índices negativos são avaliados. Os pretos são maioria esmagadora  no índice analfabetismo e desemprego além de detentores da menor renda mensal.

O Censo Demográfico em vários países do mundo é realizado a cada dez, como é o caso do Brasil, mas nem mesmo o tempo entre uma avaliação e outra, tem sido capaz de registrar mudanças nesse quadro brasileiro, e isso aclara mais ainda o escancarado racismo estrutural.

O Brasil continua incapaz de resolver o equilíbrio social necessário, com um nivelamento de garantias de direitos e reais oportunidades para todos, principalmente educação, saúde e segurança para as crianças: o grau de violência e morte contra crianças e adolescentes negras e a evasão das escolas é muito maior que as dos brancos.

 A saída está na educação, porém quando alguém acerta e cria a obrigatoriedade à inclusão da história e da cultura afro-brasileira e indígena nos currículos da Educação básica e superior brasileira, através da promulgação de Leis, de nada tem adiantado em seu propósito inclusivo e de formação de novos cidadãos sem preconceito: são poucos a cumprir.

A ideia de combater o preconceito estrutural, não é colocar pretos contra brancos ou vice-versa é combater qualquer tipo de discriminação seja você quem for, seja contra quem for, seja ele preto pardo, amarelo, mouro, índio ou indiano, precisa de apoio.

Todos nós somos iguais perante as leis da natureza. A COVID que o diga.

TÁCITO GARROS

 

 

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