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Susana Pinheiro/ Mhario Lincoln / Mhario Lincoln/Susana Pinheiro

Matéria exclusiva

15/06/2020 13h43 Atualizada há 3 semanas
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Por: Mhario Lincoln Fonte: ML
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Convidada: SUSANA PINHEIRO

(*) Especialista em História da Arte e Arquitetura no Brasil pela PUC-Rio(2013) e graduada em Educação Artística pela UFMA(2003), possui experiência profissional na área educacional com ênfase nas linguagens artísticas: pintura, desenho e escultura. Especialista em História da Arte e arquitetura, atuou como professora com alunos do ensino médio e EJA (educação de jovens e adultos). Artista plástica, participou de mostras coletivas de arte em parceria com o SESC-MA e UFMA/ MA. Na PUC-RJ, esteve presente na mostra de arte coletiva "MINHA ALMA PINTA". Realizou a exposição individual "TECER DE VARANDAS", na Galeria de arte Sesc-Deodoro(2015) em São Luís, e na cidade de Viana, MA. Na Livraria Espaço Cultural- AMEI, São Luís, MA, realizou a mostra "MATIZ VIANENSE", individual de pintura com incentivo da AVL, Academia Vianense de Letras, durante a I Semana Maranhense de Literatura(2017). É membro da Academia Poética Brasileira(APB) de Curitiba/PR. Um dos trabalhos mais recentes foi a ilustração do livro "INTROSPECÇÃO", obra poética, onde participa com um texto sobre a história da aquarela. Pesquisa e estuda o universo da arte para aprimorar seu olhar e fazer artístico. 

 

DE MHARIO LINCOLN/SUSANA PINHEIRO

"...do tempo que eu era como o vento!", (...). A arte pode te trazer de volta e te ofertar um tempo de lucidez, um tempo de melhor existir..." (Susana Pinheiro).

 

1 – Há alguma coisa que me leva a crer que dentro da alma de Susana Pinheiro há algo mais. As ações me dizem isso. Há algo diferente nas atitudes, na forma de se posicionar, no momento de decidir. O que é?

Não sei o que pode ter motivado tal visão. (risos) Mas é engraçado isso do olhar do outro sobre a gente. Porque a minha visão sobre quem eu sou, pode ser totalmente diferente daquilo que as outras pessoas vêem. Somos muitos em um, e um a cada instante, e isso sempre em movimento. Cada um de nós carrega consigo uma história, muitas histórias e esse conteúdo vai lapidando cada ser para um novo ser, e essas somas podem resultar no “algo a mais”. Porém, não posso te afirmar que há algo a mais, posso sim alegar que as histórias que vivi, e todas elas, até mesmo aquelas que eu esqueci, mas estão guardadas, pesam nas decisões e nas atitudes que tomo. E que aliado a isto, cada vez mais, cuidando do espírito para estar em equilíbrio comigo respeitando a natureza e os outros seres.

2 – A pintura é como uma digital. Há sempre algo novo a ser explorado. No caso em apreço, há uma pitada explícita de história e saudade nas telas que a mim foram apresentadas até agora. Sim ou não.

"TECER DE VARANDAS" E "MATIZ VIANENSE", minhas esposições individuais. Sou um mar de saudades. Saudades dos nove anos, das férias na casa de minha vó Suzana, das cocadas e cantorias de minha mãe Zeila, das aulas de música no centro histórico de São Luís, de ficar olhando a cor terrosa do mar durante as viagens de lancha pra Viana. Tenho a memória afetiva como fonte de inspiração, talvez pela impossibilidade de voltar ao passado que gostaria presente, pelas lembranças de felicidade, imaginativamente plenas, seguida pela vontade de provar, a mim mesma, que cabe sim em cada vivência extrair um sumo, que mesmo ácido, pode motivar a criação de algo positivo. É impossível a um artista dissociar a história por ele vivida de sua obra criada, haverá sempre uma interligação, uma ponte, uma conexão para a alegria ou para a dor, mas estará ali impressa sim. Caso contrário será um artista em “tempos de vitrine” (ver poesia XIII da obra a Sagração dos lobos de Salgado Maranhão) quando deveria ser um artista sobre raízes, pois são elas que irão te sustentar, te atribuir identidade.

3 – Houve um momento em que você foi obrigada a dar um salto na vida. Decidir o rumo que tomaria, a partir dalí. Então houve mudanças. Pergunto: isso inclui a maneira de fazar arte, a mudança de condução de vida, a forma de absorver ensinamentos, o modo de olhar o outro?

De acordo com o pensamento de Sartre, sobre o conhecimento do eu, as pessoas têm uma autoconsciência e uma consciência que sempre podem ser modificadas. E que passamos a ter a consciência de nosso existir, a partir do olhar do outro. Esse pensamento nos ajuda a entender quem sou eu, através de nossas atitudes com os outros e do olhar do outro, diante das situações. Quando mamãe faleceu prematuramente acometida de CA, sofri duramente, foi um trauma. Morávamos só nos duas, e naquela época eu trabalhava em duas escolas e estava na faculdade. Tive apoio de duas tias, Jesus e Dapaz, incansáveis durante os tratamentos dolorosos, mas que infelizmente não foram suficientes para recuperar a saúde de mamãe, e em 2003 ela partiu. Me formei em Educação Artística no mesmo ano, dois meses depois. Mergulhei então, numa maratona intensa de trabalho. Eram três escolas, o que me permitia só chegar em casa depois das 23h. Essa carga de horas afetou minha saúde, passei a ter crises de alergia com bastante frequência e ficar muito cansada. Então que num final de tarde, depois de ensinar em mais uma turma de história da arte, carregando uma pilha gigante de rolos de cartolina, resolvi que reduziria a quantidade aulas trabalhadas e faria uma pós. Estes dois episódios, ligados entre si, marcam uma mudança significativa. Minha arte conversa com essa fase, com as experiencias que vieram depois e continuam vindo. Um mover-se constante. Quanto ao gênero, acredito que meu trabalho sempre vá transitar entre as formas, cores e texturas, buscando despertar uma inquietação ou satisfação em quem por ele for alçado. As figuras de uma maneira mais evidente ou não, sempre estão atadas as formas abstratas onde o conjunto cria um trabalho contemporâneo.

4- O nascimento do filho foi a mudança ou o start para encorajar a mudar?

Davi na verdade é meu colo. É quem eu conforto e quero sempre proteger, a quem sempre quero dar o melhor exemplo. Ele veio depois, em meio a nesse processo todo. Me vi numa cidade onde tudo era absolutamente diferente. As pessoas, o modo de vida.. foi um deserto. Não pelos outros, mas pelo meu próprio processo de adaptação. Estava na especialização, mas sem trabalho e com uma criança pequena. Nessa época havia parado de pintar. Foi quando no meio de uma crise, resolvi voltar a escrever meus projetos e voltei a pintar.

5 – Você consegue tirar tempo para reflexão interior, e para ficar sozinha consigo mesma diante de tantas tarefas?

É difícil, mas tenho cada vez mais necessitado desse tempo. Acredito que todo mundo deveria ter esse tempo. Eu sou o tipo de pessoa que precisa estar só para criar, para refletir. Outras pessoas podem ajudar, claro, mas costumo funcionar, produzir melhor sozinha.

6 – Essa exposição "Tecer Varandas" tão romântica e saudosa, foi inspirada unicamente em memórias maternas?

"TECER DE VARANDAS", esse é um projeto que ainda terá muitos desdobramentos e estará presente em meus trabalhos. Inicialmente o mote foi “resgatar a ruína”, relato feito no texto do projeto. As varandas de redes feitas em crochê, dentro de um baú, lá na casa de São Luís, estavam entrando em estado de decomposição, ruindo. Consumidas pelo desuso e pelas traças provavelmente seriam jogadas fora, e eu não queria isso, pois haviam sido tecidas por mamãe. Pensando sobre o fato por dias e querendo ressignificar aqueles objetos, lembrei de Simmel, escritor alemão, estudado nas aulas de filosofia, apresentado a mim pelo professor Thomaz Brum, durante o curso de Especialização. Simmel havia feito um estudo sobre o conflito entre a natureza e o espírito, chamado a Ruína. Esse texto, unido ao desejo de reutilizar aquelas varandas, e homenagear a memória de minha mãe, de minha avó, permitiu que através de meu trabalho artístico, algo simples do cotidiano que passaria despercebido, julgado sem valor pelo desgaste, ganhasse novo significado e assim nasceu o Tecer de Varandas. Posto isto, coloco aqui que houve a inspiração materna sim, porém, amparada por questões de preservação e ressignificação!

7 – Qual a melhor lembrança de São Luís, terra natal? Não vale guaraná Jesus e abacatada.

Falar de São Luís é falar de sol, de luz! Tenho saudades de tomar sol enquanto caminho na praia. Saudades do meu quintal com a goiabeira e o bem-te-vi sobrevoando meus lírios. Do sorvete vendido na rua, do peixe frito com farofa, das festas de 'reggae', das reuniões com os amigos embalados por poesias e cantorias...do tempo que eu era como o vento!

8 – Grandes pintores foram considerados “loucos”. Salvador Dalí, excêntrico por natureza, ou Van Gogh que pintou um de seus quadros mais famosos Noite Estrelada, quando já se encontrava no hospício em Arles, no Sul da França, para citar apenas dois. Pergunto: loucura pode ajudar na criação de obras de arte?

Temos aqui muitos modos de interpretar. Mas acredito que ao contrário. A arte pode te trazer de volta, e te ofertar um tempo de lucidez, um tempo de melhor existir. A despeito desse assunto, a psiquiatra Nise da Silveira fez um trabalho com doentes mentais, no hospital psiquiátrico em que trabalhava no Engenho de Dentro no Rio de janeiro, século XX. Era um estudo que permitia o contato com as diversas linguagens da arte. Houve dificuldades no processo devido a incompreensão de parte dos colegas de profissão. Mas Nise seguiu e como resultado, houve melhora na condição de vida desses doentes, desenvolvimento de suas capacidades de pensamento e criação artísticas. Dos estudos da Dra. Nise, nasceu o Museu de Imagens do Inconsciente que conta com cerca de 350 mil obras entre pinturas e estudos que permitiram uma nova abertura no campo das ciências e das artes, para as pesquisas sobre as doenças mentais e a psique humana.

9 – Certa ocasião, Pablo Picasso, respondendo a uma pergunta disse: -“Há pessoas que transformam o sol numa simples mancha amarela, mas há aqueles que fazem de uma simples mancha amarela o próprio sol”! O que você acha?

Uma colocação pertinente e que demonstra a necessidade do estudo das situações para a busca de uma solução coerente a um problema apresentado. Ainda que devemos sempre buscar ver além daquilo que à primeira vista, nos é apresentado. Ver as particularidades, interpretar e não se acomodar com a imagem pronta. Sobre isto, me fundamento nos estudos de Wittegenstein na sua fase madura em “Investigações filosóficas” onde propõe que se deva não só “ver”, mas “ver como”. Quando somente vemos algo, o fazemos de modo direto, objetivo, mas quando “vemos como”, usamos as possibilidades, os aspectos particulares. Sobre esse aspecto, há um exemplo dele em que usa a imagem desenhada de um pato, que observado mais atentamente pode também, ser um coelho.

10 – Qual o seu relacionamento com a fé?

Quando ainda cursava os primeiros anos da faculdade, sempre ao chegar em casa, nos períodos em que vovó estava conosco, eu via uma cena curiosa. Ela em pé, de frente para a janela do quarto, que dava para o quintal (o que tem a goiabeira), olhando para o céu e falando baixinho. Era uma cena diária e longa sempre ao pôr do sol. Um dia indaguei sobre o que ela tanto fazia ali. Respondeu-me que era uma conversa com Deus, que assim, falando todos os dias com Ele, ela seria atendida. O pedido? Entre outras coisas, que abençoasse cada filho, parentes e amigos, naquilo que mais estivessem necessitando. E demorava, afinal só os filhos, eram 12. E ela nominava cada um...acho que Deus já sabia de cor a lista da vovó. Guardo essa história porque, a partir dela, passei a construir uma intimidade com Deus, a fazer orações diárias para aliviar as horas de angústia, dúvidas e também, agradecer as bençãos. A fé é um conforto, um abrigo diante do medo. Deus é uma necessidade! Se eu não acreditasse em Deus, eu era um desesperado”! Em “Um minuto com Deus” com Ariano Suassuna! Entrevista audiovisual.

SUSANA PINHEIRO/MHARIO LINCOLN

1 – QUEM É MHARIO LINCOLN?

Com certeza, Cabeça, Tronco e Membros. E todos funcionando a mil por hora. Algumas vezes em desarmonia, outras, harmoniosamente. Na verdade, posso ser muitos ou poucos ao mesmo tempo. Pelo ponto de vista espiritualista, sou muitos. Vez por outra olho uma imagem de algum local distante pela TV, ou numa revista, ou na internet e sinto-me lá, como se houvera lá vivido. Como Homem – humano – estou longe de ser ‘semelhança’ de Cristo. Talvez mais ‘imagem’. No entanto procuro de todas as formas driblar as minhas indefesas vontades, meus álibis insistentes, minha ganância pelo saber mais. Confesso ainda que tive a faculdade da vida, desde cedo para aprender a não machucar ninguém. Difícil, mas não é impossível. Confesso ainda que acho eu possuir o anel do poeta, aquele mesmo que Catulo nos ensinou: “Qual seria o anel do poeta, se o poeta fosse doutor? Uma saudade engastada, na cravação de uma dor”. Catulo da Paixão Cearense, que, apesar do sobrenome (herdado do pai) é legítimo maranhense.

 

2 – DAS PROFISSÕES QUE ABRAÇASTES, QUAL A MAIS DESAFIADORA E QUAL TE COMPLETA?

O jornalismo. Passei por quase todas as editorias de um Jornal, TV e Rádio. Trabalhei com matérias policiais, investigativas e políticas. Mas passei um bom tempo na editoria social, onde fiz uma dita ‘coluna social’ diferente. Nela, escrevia sobre política, economia, atualidades, ciência, medicina e outras coisas. Foi uma temporada que me deu muita felicidade. Sou advogado, tenho dois livros de Direito Administrativo, sou da Academia Maranhense de Letras Jurídicas e militei na área, durante minha passagem pela Secretaria da Fazenda do Maranhão. Mas no jornalismo de TV eu me realizei muito.

 

3 – EM QUE MOMENTO SURGE A APB NA TUA VIDA?

No momento em que eu havia me decidido a compartilhar com alguns amigos, essa sede de divulgar as artes. E foi num período em que os movimentos culturais, de modo geral, estavam passando por dias bem difíceis. Então nos reunimos, eu, Edomir Martins de Oliveira, Clevane Pessoa e Humberto Napoleón (Quito-Equador) para finalizarmos a parte jurídico-social, criando toda a estrutura. Depois disso, convidei alguns amigos, Clevane igualmente e começamos a formar esta plêiade de artistas, poetas e músicos que abrilhantam nosso país com suas obras. E você, com muita honra pra nós, faz parte da APB.

 

4 – ATUALMENTE COMO TENS CONDUZIDO A APB EM TEMPOS DE QUARENTENA?

Foi durante a Quarentena que iniciamos um novo trabalho. O Portal MHLB. Não consigo ficar parado. De repente o trabalho virou uma grande vitrine para publicarmos os mais variados gêneros de literatura arte e música, num compartilhamento de novidades entre o norte e o sul do Brasil. Há uma vasta participação de confrades e confreiras ratificando a ideia como positiva.

 

5 – TENS UM NOVO LIVRO EM LANÇAMENTO, PORQUE O TÍTULO “A BULA DOS SETE PECADOS”?

Eu andei lendo muitos títulos de livros que se fizeram valer a pena durante muitos anos. Especialmente os de poesia. Na maioria dos bons poetas tudo sugere começar no título do livro. Vale acrescentar, que não me considero ainda, um bom poeta. Por isso, meu esforço para sê-lo. Venho acrescentando à vontade de versar, conhecimento, leitura, estudo de concepções harmônicas, linguagem de texto e outras coisas, não chegarei mesmo a atingir minha satisfação pessoal), se tudo começa no título. “Sentimento do Mundo”, de Drummond. “O que o sol faz com as flores”, de Rupi Kaur. “Poesia com rapadura”, de Bráulio Bessa. “Poemas concebidos sem pecado”, de Manoel de Barros são exemplos de acuidade consensual entre Livro x Poemas. Tive que estudar muitas possibilidades, após meus 3 primeiros livros de poesia, todos, intitulados “Segredos Poéticos”. E o que representa A BULA DOS SETE PECADOS? Não vou dizer, porque é algo que saiu do normal e ultrapassou alguns limites que pensei nunca poder tê-los alcançado no que concerne a catarse ultra conceptiva, introspectiva e multigravitacional, indo de um polo a outro da concepção humana do entendimento. Depois que escrevi algo aparentemente simples, de repente, minha primeira revisora liga pra mim e fala: é isso mesmo que você quer dizer? E eu respondi: pequei novamente? Ela deu uma boa gargalhada. Esse foi o mote!

 

6 – TENS MUITOS PECADOS? CONFESSARIA AQUI ALGUM?

Bom, o que seria pecar, na verdade? Afora a religião e seus dogmas, peco quando me deixo ser enganado por alguns dos meus desejos físicos e materiais, especialmente sob inadimplência. No fundo, pecar é algo até mesmo engraçado quando, em sua imposição descritiva, traz junto ignorâncias retóricas. Fui visitar um amigo meu semi-interno num colégio religioso em S. Luís. Tive que ir ao banheiro e ao entrar me deparei com uma frase escrita com letras garrafais: “Deus está te vendo”. Quem pecou nesse caso? Os administradores ou os alunos já entrariam no banheiro com o intuito de pecar? Na verdade, o pecado – afora os dogmas da igreja, repito – é algo muito pessoal. O meu pecado pode não ser o pecado do outro. Posso definir o pecado como sendo a ação, por vezes impensada, responsável direta por inúmeras consequências desastrosas na vida de quem o comete, desde o autoflagelo da alma, até o destroçar da comunidade a que o indivíduo está inserido. Porém, pecado muito maior, perdoe-me aqueles que aqui estão lendo este depoimento, é impor tipos de sanções dogmáticas, coercitivas, religiosas ou civis, com base em julgamentos de língua, gênero, religião, cor e nível social.

 

7 – NO LIVRO “A BULA DOS SETE PECADOS” HÁ ALGUM POEMA PREFERIDO, QUAL?

Como o livro é formado por trabalhos que são atrelados à períodos de minha vida produtiva, enquanto tento ser poeta, acredito que cada poema é um fruto maduro, em cada fase. Desde aqueles quando tentei costurar meu sentimento íntimo até outros que passaram – sentimentalmente – pelo crivo dos amores perdidos e das recordações que jamais voltarão. Pelo menos, nesta encarnação.

 

8 – A TUA OBRA ATUAL, DE ALGUM MODO, REFLETE O MOMENTO POLÍTICO?

Desde que tive inúmeras decepções políticas, com duas eleições perdidas, como editor de política (sendo até chamado a depor em determinados momentos nos idos de 70), e com opiniões fortes com relação aos desmandos incessantes que se sucedem a cada novo amanhecer, decidi me afastar de discussões pertinentes e acabar de uma vez por todas com o mito de que o ‘Homem é um animal Político’. Não foi exatamente isso que Aristóteles quis dizer, na acepção da frase mais cobiçada por políticos no Mundo. A frase é a seguinte: “O Homem é por natureza um animal político, tem primeiro na família sua socialização. (...) Mas é na Polis que se realiza plenamente, encontrando no fiel cumprimento das leis e da justiça (...) e sendo prudentes. (...)".  Essa é a frase que chegou até nossos dias completamente deturpada. Primeiro porque fazer política tem vários significados outros, que não “ser um fiel cumpridor das leis e da justiça”, ou mesmo serem, aqueles que a praticam, ‘prudentes’. Outra coisa. O significado de ‘Polis’, nunca foi política. Mas sim, Cidade. Florianópolis, por exemplo, aqui no Brasil, é Cidade de Floriano. Portanto, mesmo sendo cobrado, faço-me ouvidos de mercador. Melhor pra mim. Melhor para a ‘Polis’.

 

9 – UMA LEMBRANÇA QUE TE FAZ RIR DO NADA!

Certa ocasião, quando ainda pensava que poderia existir amor, invés de paixão enlouquecida, era jovem, tive um romance tórrido e por vezes, deixei boa parte de meus afazeres, na época, para ficar junto com essa pessoa. Certa vez, passando por um local em minha cidade litorânea, encontrei essa pessoa com outra pessoa (e quem ainda não passou por isso vai passar (risos). Uma decepção! Uma raiva imensa. Aí enviei uma carta desaforada. Disse poucas e más. O tempo passou rápido e quando penso nisso dou boas risadas não pelo fato de ser hilário hoje. Dou risadas de pavor, de reflexão, até de amargura, por ter sido tão infantil, tão indecoroso, tão deselegante não só com ela, mas, e principalmente, comigo. E se um dia, eu reencontrasse essa mesma pessoa, lhe apertava as mãos e lhe parabenizaria pelo exemplo de dignidade e de amadurecimento, repassados por um gesto inesquecível: o silêncio. Isso dói muito mais do que respostas insanas a um ato mais insano ainda; o meu! Foi assim que acabei crescendo nesse item pessoal e intransferível: tudo passa!

 

10 – UMA MÚSICA QUE MARCOU TUA VIDA E UM POEMA

Meu instrumento de origem é a bateria. Toquei em muitos bailes, nas noites de São Luís. Nessa época efervescente do início dos anos 70, ouvia tudo, pois ensaiamos um Conjunto Musical de Baile. Também era aficionado por Pink Floyd, Rush, Stones e Emerson, Lake and Palmer. Porém, uma música me marcou profundamente. De Ivan Lins e Vitor Martins, já no final de 70, começo de 80: “Começar de Novo: Começar de novo/ E contar comigo/ Vai valer a pena/ Ter amanhecido/ Ter me rebelado/ Ter me debatido/ Ter me machucado/ Ter sobrevivido/ Ter virado a mesa/ Ter me conhecido/ Ter virado o barco/ Ter me socorrido (...)”. Quanto ao poema, aquele que foi o fato gerador do livro A BULA DOS SETE PECADOS. “Stranger Fruits: Southern trees bear a strange fruit/ Blood on the leaves and blood at the root/ Black bodies swinging in the southern breeze/ Strange fruit hanging from the poplar trees. Esse poema (que eu traduzi em versão livre: “Árvores do sul dão uma estranha fruta/ Folha ou raiz em sangue se banha:/ Corpo negro balançando, lento:/ Fruta pendendo de um galho ao vento”). Esse me marcou bastante. Porque além de poema, conta uma triste história de segregação racial. Esse poema foi imortalizado na voz de Billie Holiday. Mas o autor é Abel Meeropol, um professor de inglês no Bronx, bairro de Nova York, que assinava poemas e canções com o pseudônimo Lewis Allan.

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