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Prevenção

Alessandra Leles Rocha: Prevenir ou remediar? Eis a questão!

Com relação ao COVID-19, outros países se colocam em uma posição de prudência mais efetiva

09/03/2020 19h14Atualizado há 2 semanas
Por: Mhario Lincoln
Fonte: Alessandra Leles Rocha
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Em casos de doenças virais, o essencial é focar no modo de transmissão
Em casos de doenças virais, o essencial é focar no modo de transmissão

Prevenir ou remediar? Eis a questão!

Por Alessandra Leles Rocha

 

Enquanto o Brasil tenta manter os “ares de tranquilidade” em relação ao COVID-19, outros países se colocam em uma posição de prudência mais efetiva. Quem está certo? Bom, dizem por aí que “precaução e caldo de galinha nunca fez mal a ninguém”, então... O importante é analisar a conjuntura de cada contexto, porque a vida não é receita de bolo e cada país tem suas especificidades e particularidades a serem consideradas.

No campo da saúde, eu particularmente fico sempre com “pé atrás” em relação às estatísticas divulgadas, porque querendo ou não o nível de complexidade que envolve a tendenciosidade desses dados é real. Haja vista, o que aconteceu na própria China em relação ao COVID-19, quando as autoridades demoraram a admitir a epidemia e fornecer informações a respeito. Um médico, que posteriormente faleceu pela doença, chegou a ser preso por alertar as autoridades sobre o risco proveniente do vírus.

Em casos de doenças virais, eu considero que o essencial é focar no modo de transmissão do vírus para, a partir disso, desenvolver as estratégias e políticas de prevenção e cuidados. Vejam que, mesmo assim, há inúmeros desafios. Dengue, Chikungunya e Zika, por exemplo, são todas transmitidas pelo mesmo vetor, o mosquito Aedes spp, mas apesar de inúmeras estratégias de combate a ele, o número de óbitos no país ainda é elevado. No caso da Febre Amarela, cujo vírus, também, é transmitido pelo mosquito Aedes spp, embora exista vacina se faz necessária periódica campanha para educação e sensibilização da população, por conta de recorrentes Fake News.  

Agora, no caso das transmissões pelo contato direto com pessoas contaminadas e/ou por fômites 1, acredito sim, que medidas preventivas contemplando uma menor exposição em locais de aglomerações podem ser muito eficazes. Precisamos pensar que qualquer doença, por mais que tenha um padrão biológico de desenvolvimento e ação, reage de maneira muito particular em cada organismo, face às condições do mesmo. Indivíduos em situação de debilidade orgânica ocasionada por subnutrição, doenças raras, procedimento cirúrgico, quimioterapia e radioterapia ou tratamento anti-HIV, por exemplo, tendem a ter seus quadros agravados diante da exposição a uma infecção viral. Sem contar, crianças e idosos que naturalmente já têm um sistema imunológico mais fragilizado.

Acontece que essas pessoas convivem, coexistem, em sociedade; portanto, diante de uma situação epidêmica, como a que estamos vivendo em 2020 com o COVID-19, podem ser contaminadas à revelia e depender de uma assistência médico-hospitalar mais complexa. E aí, como vai ser? Infelizmente, a quantidade de pessoas que perderam seus planos de saúde por conta do desemprego no Brasil é imensa. Por outro lado, também, é notória a incapacidade da rede pública de atender as demandas, sejam menos ou mais graves. A falta de leitos, medicamentos, aparelhos e profissionais é constante e está disseminada por todo o país. Isso, sem falar, na impossibilidade de se recorrer a quaisquer benefícios do INSS; visto que, o referido órgão tem funcionado aquém da sua capacidade.  Então...

Quando penso nos ônibus, trens e metrôs lotados diariamente... Nos aeroportos. Nos transatlânticos. Enfim, em todos os grandes aglomerados humanos pelas cidades, Brasil afora, sinto um arrepio gelado correr pela espinha. Diferentes realidades socioeconômicas que circulam e se encontram, se esbarram, dividem o mesmo espaço geográfico e que podem, ainda sem saber, carregar doenças, contaminantes de diferentes naturezas, incluindo vírus. Observem os equipamentos de proteção individual utilizados pelas equipes de saúde que estão tratando os casos confirmados em diversos países. Eles existem e são disponibilizados, justamente, porque o rico de contaminação é real. Álcool gel para higiene das mãos, lavagem com água e sabão até os punhos, cuidado ao tossir ou espirrar, são importantíssimos; mas, infelizmente, não são tudo.

Prevenir ainda é melhor que remediar; por isso, é que o continente europeu acirra as medidas de prevenção e trabalha contra o pânico oriundo de possíveis Fake News 2.

Enquanto contemporizamos o que avistam nossos olhos nesse momento, ou seja, a disseminação da epidemia do COVID-19, deveríamos refletir acerca das seguintes palavras de José Saramago, em seu Ensaio sobre a Cegueira: “Estamos a destruir o planeta e o egoísmo de cada geração não se preocupa em perguntar como é que vão viver os que virão depois. A única coisa que importa é o triunfo do agora. É a isto que eu chamo a cegueira da razão”. Traduzindo em miúdos, isso significa que a letalidade ou brutalidade da epidemia dos vírus jamais chegará aos pés dessa epidemia que cega à razão e a sensibilidade humana. É ou não é algo a se pensar?!

 

1 Um fômite ou fómite é qualquer objeto inanimado ou substância capaz de absorver, reter e transportar organismos contagiantes ou infecciosos (de germes a parasitas), de um indivíduo a outro. https://pt.wikipedia.org/wiki/F%C3%B4mite

2 https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/03/europa-aperta-medidas-contra-coronavirus-mas-tenta-conter-panico.shtml

 

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