Domingo, 07 de Junho de 2020
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Brasil Pisa na Fulô

Por que a letra da música 'Pisa na Fulô' sofreu respingos de alguns grupos anti-agressão feminina?

A imortal Keila Marta, da APB, responde de forma gratificante, a essa pergunta

20/05/2020 16h33 Atualizada há 2 semanas
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Keila Marta
Keila Marta, imortal da Academia Poética Brasileira e o cantos e compositor João do Vale
Keila Marta, imortal da Academia Poética Brasileira e o cantos e compositor João do Vale

João do Vale, a manifestação artística em seu estado puro e os elementos socioculturais e linguísticos implícitos na música Pisa na fulô

Keila Marta

Longe de problematizações e dificuldades impostas pela formalidade, a arte popular acontece na dicotomia entre pobreza (condição econômica) e riqueza (folclore), oposição que sempre esteve presente nas festanças, em casas e terreiros onde foi se formando a musicalidade de João Batista do Vale, que era, nas palavras de Chico Anysio “um poeta autêntico, puro¹...”

Maranhense, nascido na cidade de Pedreiras em outubro 19332, negro, semianalfabeto, até certo ponto “irreverente, mal educado, nojento¹para Luiz Vieira. Perfil de quem aos 9 anos fora dispensando das atividades escolares, para ceder vaga ao filho de um coletor de impostos, fato que marca profundamente a sua vida.

 

Na escola tinha uns trezentos alunos, mas escolheram justo eu para dar lugar ao filho do homem.

 (João do Vale)

 

Sem melhores oportunidades, vendedor de bolos, João foge de casa embarcando num caminhão, passou a perambular, morou em cidades como São Luís, Teresina até chegar ao Rio de Janeiro, ali trabalha de ajudante de pedreiro na construção do metrô. Mas, sempre acompanhando a Rádio Nacional, teve a oportunidade de apresentar sua arte, e guiado por Luiz Vieira integrante da Rádio Tupi, consegue uma gravação da sua música Estrela Miúda na voz da cantora Marlene.

Não obstante, João conquista um forte espaço no meio artístico e suas músicas vão sendo cantadas por grandes nomes como Chico Buarque, Maria Betânia, Miúcha, Clara Nunes, Dolores Duran, Ivon Curi, e tantos outros.

Nesse contexto, conforme Mariana Barreto (2012, p. 50), o reconhecimento da música de João do vale “acontece em duas esferas distintas: aquela que guarda as canções de “temas regionais do Nordeste” e aquela da qual fazem parte as “canções de protesto””.  E mais especificamente algumas de suas composições destacam a realidade da cidade de Pedreiras, como descrita na letra de Pisa na fulô, pois a partir dela é possível subtrair diferentes entendimentos, desde a forma mais simples até a mais problematizadora, que evolvem:

- O contexto sociogeográfico (Pedreiras- Maranhão) ao se referir a Rua da Golada na primeira estrofe, aponta o cancioneiro como um bom forrozeiro, Pisa na fulô é, portanto, “...um exímio exemplar de cações sobre a descontração, a alegria e o comprazimento próprio de um dia típico de festa popular, onde imperam a jocosidade e os puros jogos de sentido”(DAMAZO, 2004, p. 127).

- Os aspectos gramaticais, demonstram o tom de informalidade do Português não padrão próprio das cidades do interior que são praticamente indissociáveis do ambiente rural, a exemplo das palavras: fulô, inté, v´ambora, veinho.

- O jogo fono-semântico-sintático (DAMAZO, 2004) -  permite uma leitura da malícia contida na letra, desvelando assim uma outra face da realidade social que envolve a música Pisa na fulô, que apesar do clima de alegria numa festa que envolve um público de todas as idades, idosos, adultos e crianças, ela acontece numa rua tipicamente boêmia, muito conhecida pelas casas de prostituição, que João do Vale se refere como a rua de “cabaré³”, e que chama atenção de forma mais crítica para denúncia que começa na linha 18, “Eu vi uma menina que não tinha doze anos”. Constatação que se confirma com as palavras de Damazo, uma vez que,

Se limitássemos o comentário sobre a canção até aqui, nada teríamos apontado de singular e, por conseguinte, interessante. Ocorre que a organização composicional do texto se faz num jogo fono-semântico-sintático que vai causando certos estranhamentos, conduzindo-nos a perceber uma atmosfera ambígua, cujos sentidos não se limitam a uma mera interpretação de base superficial. (DAMAZO, 2004, p. 129)

De forma mais detalhada, nas linhas 19, 20 e 21 apresenta apenas uma garota que gosta de dançar, “/...agarrar seu par/ Também sair dançando/Satisfeita...” no entanto quem escuta a música de forma analítica, deve se atentar para a estrofe acima que se refere a vovó que, também dança com seu velhinho e fica feliz com a performance, no entanto ambas as situações tem um complemento que vai além do salão,

 

1º situação: Garrou na mão do vovô/ V`ambora, meu veinho /Pisa na fulô

2º situação: Também sair dançando/ Satisfeita e dizendo: Meu amor, como é gostoso/ Pisa na fulô.

 

Na primeira situação da vovó, quando ela diz V`ambora, meu veinho, a vírgula sugere uma pausa, algo que na situação número dois ocorre com a presença dos dois pontos,“Satisfeita e dizendo:”, lacunas de tempo que representam a saída de ambos os casais do salão e em seguida ocorre uma segunda parada, também em cada uma das situações 1- “/meu veinho/pisa na fulô/” e 2- /Meu amor, como é gostoso/Pisa na fulô”, aí mediante leituras, comparadas a escuta da música na voz de João do Vale permitem visualizar cenas de acasalamento. E essa situação se reforça nas linhas em que se segue,

 

Pisa na fulô, pisa na fulô

Pisa na fulô, não maltrata o meu amor

 

Observando esse comparativo, não chama tanto atenção a atitude da senhora, mas a da menina que é descrita como uma idade imprópria para tal prática e parece óbvio que ela já experimentasse do gozo da prostituição ou faria parte um outro cenário, típico até meados do século XX, em que meninas mal saindo da infância, entre 11 e 12, anos já se submetiam ao casamento.

Olhando para o termo Pisa, longe do seu sentido literal no que refere ao verbo pisar conjugado na terceira pessoa do singular no presente do indicativo, que significa pisar em alguém ou pisar o chão, ou de forma mais subjetiva, conota humilhações, ofensas, no contexto nordestino (pisa = surra, soco) implícito na música está direcionado para a copulação, jogo erótico entre homem e mulher, e flô simboliza a feminilidade.

Outro aspecto relevante se destaca em Pisa na fulô/não maltrata o meu amor, a evidencia da ausência de violência ou de desvalorização da mulher, uma vez que se o cavalheiro a quem o cancioneiro se refere, não pisasse na fulô, significaria uma negação do pedido da sua dama, ou seja, fazer o contrário seria o mesmo que maltratá-la.

Enfim, as músicas de João do Vale ganharam reconhecimento numa época de grande efervescência artística e que por conterem conteúdo de forte impacto, acabaram ganhando uma conotação política para além das questões sociais, e que até hoje provocam certas inquietações e dúvidas, pois elas foram inspiradas no cerne da ingenuidade, do ouvido intuitivo,  da amorosidade, do olhar sensível para os problemas dos mais sofridos, fruto de uma genialidade rudimentar, e que podem ser incompreendidas quando interpretadas a luz do politicamente correto dos dias atuais e às vezes de forma fragmentada sem levar em conta, o todo, a abra João do Vale e para o bem o para o mal “cada um lê com os olhos que tem. E interpreta a partir de onde os pés pisam” (BOFF, 1997, p. 9 apud NANTES, 2009, p. 11).

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¹falas contidas no documentário, João do Vale – Muita gente desconhece.

²há divergência de informações, algumas fontes constam 1933 outras 1934.

³refere-se ao depoimento do João do Vale no documentário Mosaicos – A arte de João do Vale, publicado em 2009.

 

 

Referências

BARRETO, Mariana. A trajetória de João do Vale e os lugares de sua produção musical no mercado fonográfico brasileiro. ArtCultura, Uberlândia, v. 14, n. 24, p. 47-60, jan.-jun. 2012. Dsiponível em: https://repositorio.unesp.br/handle/11449/103708.

Damazo, Francisco Antonio Ferreira Tito. O Canto do povo de um lugar: uma leitura das canções de João do Vale / Francisco Antonio Ferreira Tito Damazo. – São José do Rio Preto: [s.n.], 2004. Disponível em: http://www.seer.ufu.br/index.php/artcultura/article/view/22118.

JOÃO do Vale, muita gente desconhece. Direção de Werinton Kermes. Brasil: MWM, 2005. 1 Vídeo (30 min e 35 s). Disponível em: https://vimeo.com/304485456.

MOSAICOS: A arte de João do Vale. TV Cultura: Cesar Gavin, 2009. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=OcrBBAXoUIY. NANTES, Eliza. LÍNGUA PORTUGUESA II: Leitura e Produção de Textos: Letras II. – São Paulo: Pearson Pratice Hall, 2009.

 

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