Quinta, 04 de Junho de 2020
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Brasil Julia de Souza

Revista Cult convida poetas, escritores e tradutores para sugerirem leituras para o período da quarentena

Desta feita, Julia de Souza. É poeta, mestre em literatura pela USP e tradutora

09/05/2020 17h00 Atualizada há 4 semanas
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Por: Mhario Lincoln Fonte: CULT/UOL 30 de abril de 2020
Julia de Souza. Álbum pessoal
Julia de Souza. Álbum pessoal

Julia de Souza nasceu em São Paulo, em 1986. É poeta, mestre em literatura pela USP e tradutora. Publicou As durações da casa (2019), Gigante vermelha (2016) e Covil (2013), todos pela Editora 7Letras.

Para a seção “Notícias de outras ilhas” – em que poetas, escritores e tradutores sugerem leituras para o período da quarentena – indica poemas de Herberto Helder, W. G. Sebald  e John Ashbery. A seção é curada por Tarso de Melo. Leia abaixo os poemas e o comentário da poeta.

O mundo esvaziado e o confinamento forçoso podem dar espaço a ruminações novas. Olho muito tempo o corpo de um poema, escreveu Ana Cristina César. Olhar muito tempo para algo guarda um certo perigo — as coisas de repente se despem de alguma máscara e parecem guardar apenas o vestígio de uma semelhança perdida com elas mesmas (da mesma forma como uma palavra se torna estranha e disforme em nossa boca quando a repetimos à exaustão). “despe-te desse automatismo”, escreveu Laura Liuzzi em seu poema Preâmbulo (Coisas, 7Letras, 2016). Talvez seja hora, então, de desafiar as coisas e os poemas, trazê-los para perto e para longe e novamente para perto. Encará-los para, junto e apesar deles, num jogo de contrapeso, cogitarmos esse presente estranho. Ouço por aí que vamos “sair dessa” diferentes. Difícil dizer de que ordem e profundidade será essa mudança — e como determinar o momento em que a mudança se instala? Herberto Helder se refere a “um modo novo, todo novo”, nesse poema que descreve uma espécie de refundação do mundo a partir do nome. John Ashbery nos lembra de uma grande ameaça, do fogo, mas também das estrelas e da graça de viver — e da sorte de se ter uma casa.

É inevitável que a pandemia traga o pensamento do fim. W. G. Sebald, nesse poema da série Unrecountedem, sua parceria com o artista alemão Jan Peter Tripp (publicada parcialmente pela revista serrote #10), nos fala do ritmo: aquilo que pode seguir ressoando.

***

e rebenta na boca, digamos, como uma castanha assada:

o teu nome comigo no idioma

com que invento coisa mais coisa

que são agora o mundo

deste modo todo novo, todo

 

Herberto Helder em Letra aberta (Porto Editora, 2016)

 

***

 

Por último

restarão apenas

tantos quantos

possam se sentar

à volta de um tambor

 

W. G. Sebald em Unrecounted (Penguim, 2005); tradução de Tercio Redondo

 

***

 

Chuva se instalando

O quadro negro está apagado no sótão

E o vento mobiliza as luzes das estrelas,

Agora sinuosas. Alguém vai descobrir, alguém vai saber.

E se em algum lugar nesse imenso planeta

A verdade for descoberta, um pedaço dela, seco, esmaltado pelo sol,

Ela vai apenas esperar, em sua própria infâmia, humildade. Ninguém

Será melhor por isso, mas as coisas não podem piorar.

Apenas siga jogando, dominando a seu modo o passo

Rumo à desordem que aquilo significou. Você vê

Que isso é tudo o que podemos fazer? Enquanto isso, grandes incêndios se

Avultam, como palheiros em chamas. O relógio foi acionado

E isso é ameaçador, mas toda a graça de viver

Conspira com ele, agora que isto é a nossa casa:

Um lugar de onde vir, sobre o qual nos perguntam.

 

John Ashbery em A wave (Penguim 1984); tradução de Julia de Souza.

 

Obs: Para a seção “Notícias de outras ilhas” (Revista CULT) – em que poetas, escritores e tradutores sugerem leituras para o período da quarentena – indica poemas de Herberto Helder, W. G. Sebald  e John Ashbery. A seção é curada por Tarso de Melo. 

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