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Comentários à poesia de Ana Luíza Almeida Ferro, publicada na obra "O Náufrago e a Linha do Horizonte".

Ana Luíza Ferro é aplaudida escritora, poeta e jurista no Brasil e no Exterior, com obras relevantes em cada segmento

04/05/2020 16h05 Atualizada há 1 mês
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Por: Mhario Lincoln Fonte: ML
Ana Luiza Ferro com um de seus livros, aclamados pela crítica internacional.
Ana Luiza Ferro com um de seus livros, aclamados pela crítica internacional.

Comentários à poesia de Ana Luíza Almeida Ferro, publicadas na obra "O Náufrago e a Linha do Horizonte".

(*) Mhario Lincoln

O que dizer de uma mulher que transcende a si mesmo? "Eu sou eu/Mais pedaços dos outros".

Tudo! Numa análise acíclica, pensa-se tratar-se da biografia de uma irmã Dulce ou de uma Rigoberta Menchú, para exemplificar dois extremos geográficos.

O que dizer de uma mulher que escreve: "Pétalas brancas em meio à escuridão/Perfume suave em meio à podridão / (...) " E, no entanto, eis que vejo cair/ Um pouco de ti, ao sabor da brisa/ Uma folha defesa, que um insano pisa"?

Tudo. Até mesmo ser ela, seguidora incólume de Friedrich Nietzsche - "A tragédia é que não podemos acreditar na (...) metafísica quando trazemos no coração e na cabeça um rigoroso método da verdade. (...)".

Eis o ponto de aglutinação: "O Náufrago e a Linha do Horizonte", da luminar Ana Luiza Almeida Ferro, mostra a verdade. Sua verdade. Seus desejos; realizados ou não realizados ou que espera realizar.

Como diz Nietzsche, ela, no livro, deixou-se repartir e mostrou "seu rigoroso método de verdade", mesmo que íntima, subnalmática, intrínseca, inerente a seu espírito consciente, maduro, mas solitário (em alguns momentos sutis de sua vida). Isso fica muito claro.

Hipoteticamente, "Um corpo minúsculo/ no oceano imenso/ a muitas milhas/ de terra/ à vista. (...)".

Mas Ana, a poeta, não a Dulce ou Rigoberta, tem controle absoluto sobre suas reações físicas ou espirituais. Vive e vivencia suor e força - "Navego pelas ondas de teu corpo/Sem saber que rochedos evitar" - como se doação completa e irrestrita lhe fosse necessária para aplainar arestas intocadas no seu subconsciente adulto, escorreito e lírico, qualidades que a fazem distinguir de poetas simplesmente midiáticos.

Muitos cognominados “poetas abduzidos”, abandonaram suas líricas para se afundarem em biografias poéticas egoicas no simples afã de subirem na hierarquia acadêmica, desigualando-se de “outros poetas menores”.

Li recentemente, em Poesia Viva nº 44, entrevista com Igor Fagundes (poeta, professor, ensaísta, ator, jornalista) que assim se reportava sobre possível hierarquia poética:

Vejo nos dias de hoje e ontem, o ímpeto viciado da classificação a concorrer com a poesia, como se bastasse uma adjetivação, um atributo, para dar conta do que, substantivamente, segue na maioria das vezes impensado ou escamoteado por algum discurso retórico. Não basta falarmos em poesia digital, poesia oral, poesia escrita, se não houver, sempre e primeiramente, poesia. As classificações até podem importar sociológica e/ou antropologicamente; podem até conspirar em favor de alguma historiografia estética ou estilística, mas o pensamento substantivo, o pensamento do próprio da poesia, é sempre mais radical”.

Ana Luiza Ferro é uma prova inconteste de o ato de construção da poesia não inere “adjetivações, nem discurso retórico”. Portanto, é uma poeta maior.

Lê-se o que ela sentiu e vivenciou no seu mais profundo sentimento, quando, vez por outra, deixa imergir pérolas do abissal de sua consciência lírica.

De certa forma, Ana se mostrou corajosa ao escrever coisas que lhe vieram do fundo da alma. Mutatis Mutandi, como Anne Frank em seu extraordinário “diário”. Não pela guerra infame. Muito mais – a comparação - pelo fascínio do debulhar vagaroso, mas irrequieto de sua catarse.

Sim. O livro de Ana é uma catarse:

“Dois traços/enamorados/não mais são traços/são uma linha” (...) “Dois traços/separados/ são uma linha abortada/na geometria da vida”.

Uma catarse romântica, menos trágica, mas purificante da alma, como delineou Aristóteles:

“(...) Despeço-me de mim/ e mergulho no fim/ de teu sorriso” (...). Despeço-me do mundo/ e mergulho no fundo/ do teu sorriso. (...) Despeço-me de ti/ e faço que fugi/ de teu sorriso. (...)”.

Uma catarse freudiana, até, cuja definição se prende mais à simbolização poética.

“Ai de ti/ que enrijecestes/ o coração de tua corte/ a folhagem de teu ninho/ e anoitecestes/ com a mente em sedição/ com a alma em desalinho/ e então me perdeste/ na última pedra longa da estrada/ da última noite órfã de pinho”.

Uma poeta maior, compos sui, sem exageros, nem rodeios, porque sua poesia confunde-se com seu estado de espírito, através de grandes insights do seu cotidiano, do seu interior, do seu círculo, de seu planeta – que não o de Exupéry – muito mais o de Vinicius de Moraes.

Li em ambos, (Ana e Vinicius) sentimentos parecidos quando o enfoque foi a solidão.

Lá, Vinicius afirmava: “A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.”.

Aqui, Ana ratifica: “Eu sou/ e jamais deixarei de ser/ pois temer ou me ter/ é próprio do ser humano”. 

Muito além do conceito pessoa, todavia, ela ratifica seu sólido prazer de discutir o vai e vem de suas emoções, sempre embaladas pela linha tênue que a separa do incompreensível mundo das paixões, das perdas, dos reencontros e desencontros:

“Os barcos vão/ as pessoas passam/ só os traços não se apagam/ para que a linha se mantenha/ na eternidade do ponto”.

Exuberante epitáfio de um amor esquecido na poeira do tempo. Na metafísica do abraço sem aperto, do feminino desenhado no mastro quebrado do barco a pique, naufragado nas entrelinhas pulsantes de um mar dessalgado, cujas ondas trouxeram pétalas de receio e de dúvida.

“Quantos carimbos se precisa apor/ para que a palavra possa valer?”.

Carismática eclusa bombardeando a consciência mítica para se sobrepor ao hermético das inundações das marés de sizígia.

Náufrago... talvez algum sonho romântico inacabado, mas ainda em gestação pueril.

Barcos... talvez o viés cotidiânico da própria vida, como roupa quente que veste o corpo frio.

Oceano... talvez o futuro imenso, o reencontro fugaz, mas iminentemente apaixonante.

Somos todos assim. Náufragos... “e assim encontrar o mar/ e assim se fazer oceano”.

Somos todos assim. Barcos... “sem porto/ na linha do horizonte/ e me parto/ em pedaços teus/ o primeiro lançado ao mar/ para ser digerido por tubarões (...)”.

Somos todos assim. Oceano... “se o náufrago/ adivinhasse/ ou apenas suspeitasse/ quão seca/ quão árida/ pode ser a terra/ talvez tolerasse/ talvez preferisse/ a solidão/ do mar”.

 

Mhario Lincoln, Jornalista e advogado.

Presidente da Academia Poética Brasileira

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