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Carolin Emcke: “A pandemia é uma tentação autoritária que convida à repressão”

Filósofa alemã, que está confinada em Berlim, se mostra comovida: “As imagens de Madri ou dos campos de refugiados nas ilhas gregas são insuportáveis para mim”

28/04/2020 17h30 Atualizada há 1 mês
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Por: Mhario Lincoln Fonte: EM PAÍS/JUAN CRUZ Madri
Carolin Emcke em Torino, Itália, em setembro de 2017.LEONARDO CENDAMO / GETTY IMAGES
Carolin Emcke em Torino, Itália, em setembro de 2017.LEONARDO CENDAMO / GETTY IMAGES

MENTIRAS PARA SUBVERTER A DEMOCRACIA

Carolin Emcke adverte: “Esta epidemia permite agitar o ódio ao outro, mas tudo está ligado de maneira global. E, no entanto, nas mídias sociais voltam a circular velhas teorias da conspiração, rumores que identificam supostos culpados a marginalizar. É reconfortante ver como se calaram os populistas de direita, que vivem inventando supostas ameaças à nação, mas são incapazes de enfrentar uma ameaça real. O que querem é dividir e subverter a democracia. Não lhes interessa salvar vidas, não reconhecem a dignidade humana, não valorizam a vida, de velhos ou de jovens, de brancos ou de não brancos, de muçulmanos, judeus, católicos, dos desempregados ou dos que têm trabalho, dos héteros ou dos queer, vidas que contam todas igualmente.”

 

Carolin Emcke: “A pandemia é uma tentação autoritária que convida à repressão”

Filósofa alemã, que está confinada em Berlim, se mostra comovida: “As imagens de Madri ou dos campos de refugiados nas ilhas gregas são insuportáveis para mim”

 

Carolin Emcke (Alemanha, 1967) é uma das intelectuais europeias que de maneira mais persuasiva combateu os clichês populistas que querem dominar o mundo. Por esse motivo recebeu o Prêmio da Paz da Feira do Livro de Frankfurt. Contra o Ódio e Modos do Desejo [ambos sem edição no Brasil] são dois de seus livros publicados na Espanha. O primeiro é uma reivindicação humana e filosófica contra a tentação autoritária que se serve de velhas bandeiras racistas e patrióticas. Um de seus temores é que a atual pandemia alimente esse rescaldo de ódio. Ela mora em Berlim. Esta entrevista ao EL PAÍS foi feita por e-mail.

 

Pergunta. Como você pensa que um momento como este pode afetar a convivência nos respectivos países e no mundo?

 

Resposta. É cedo demais para fazer previsões. Tudo é frágil demais, dinâmico demais e, é claro, assincrônico demais. Por mais que seja uma crise global, seu impacto não afeta todos da mesma maneira. A pandemia é uma tentação autoritária que convida à repressão, à vigilância totalitária baseada em dados digitais, à regressão nacionalista. Ou ao cálculo darwinista que coloca um preço na perda dos corpos mais velhos, mais frágeis e menos treinados. Será decisivo poder demonstrar que as sociedades que saírem menos prejudicadas da crise serão aquelas que possuem um sistema de saúde pública, aquelas cujas infraestruturas sociais não foram privatizadas e corroídas por completo, poder provar que a solidariedade e o cuidado mútuo serão os que triunfarão sobre o vírus e não o estado de exceção e a privação da liberdade...

 

P. Você teria imaginado um drama como esse? Como isso está te afetando? Como você está vivendo as normas ditadas em seu país para preservar a saúde?

 

R. Viver este momento em Berlim me dá humildade, mas também pudor: hoje, em Berlim, temos 50 mortos pelo vírus, em Nova York são 10.000. As imagens de Madri ou dos campos de refugiados nas ilhas gregas são praticamente insuportáveis para mim. Não vejo como poderemos pagar a dívida moral e política que estamos assumindo como alemães, como europeus, por não reagir com a necessária solidariedade, com a necessária humanidade. Implementar de má vontade uma série de instrumentos financeiros para os países do sul em vez de lançar coronabônus para a Europa me parece uma idiotice mesquinha e imperdoável. E isso falando apenas do contexto europeu.

 

“Será decisivo poder demonstrar que as sociedades que saírem menos prejudicadas da crise serão aquelas que possuem um sistema de saúde pública, aquelas cujas infraestruturas sociais não foram privatizadas e corroídas por completo”

P. Agora temos medo de um vírus que ninguém soube combater. Você acredita que tudo isso causará ainda mais ódio do que já percebemos, ao outro, ao diferente, ao que vem de fora?

 

R. É natural que a pandemia cause medo e terror. Medo de adoecer, de morrer sozinho, de não poder acompanhar os entes queridos, de não poder se despedir, medo das penúrias, de perder o emprego, medo do colapso existencial. Mas a perda de soberania não é compensada com a estigmatização ou a humilhação dos outros. Como se a impotência fosse menos sentida se se maltratasse os marginalizados ou o próprio casal. Não é apenas a xenofobia a que se recorre como compensação da insegurança individual ou social, também se intensifica a misoginia, a violência contra as mulheres.

 

P. Você pesquisou sobre o ódio e sobre o desejo. Tal situação introduz novas perguntas em sua vida. Qual é a sua principal preocupação agora, como cidadã, como intelectual?

 

R. Minha maior inquietude é que não aprendamos nada com a crise, quando esta nos demonstra como se fosse um meio de contraste injetado em um corpo quais são os males que afetam nossa sociedade. Ficou evidente que não se pode negar a realidade, que existem limites à manipulação do discurso, ao delírio narcisista, à mentira política. Ninguém é invulnerável, ninguém é intocável, mesmo que Trump ou Putin queiram negá-lo. A hostilidade à ciência dos populistas está se voltando contra eles e lamentavelmente o preço será pago por seus eleitores. Também está ficando evidente que o Estado não pode se retrair infinitamente de sua responsabilidade, que há falta de infraestruturas públicas, bens públicos, orientação para o bem comum. E, é claro, também um jornalismo sério e independente. Preocupa-me, acima de tudo, que o aprendizado que estamos fazendo, doloroso e amargo, caia no esquecimento quando tudo tiver passado. Que reconstruamos nossas sociedades com as mesmas injustiças, a mesma instabilidade.

 

P. Algo que também alarma intelectuais e políticos é o perigo de que os direitos civis sejam feridos ou questionados por medidas radicais contra o vírus. Você tem o mesmo temor?

 

R. Sim. É uma questão extremamente sensível e de risco: que a epidemia seja instrumentalizada para justificar ambições autoritárias. Viktor Orbán acaba de demonstrar isso na Europa: ele praticamente anulou o estado de direito na Hungria, pode prorrogar infinitamente o estado de exceção, transformou o Parlamento em um acessório decorativo. Temos de estar extremamente vigilantes para impedir que métodos totalitários de extração de dados, de vigilância digital, de repressão se estabeleçam na Europa a longo prazo. Não é o mesmo desenvolver aplicativos baseados em perfis anônimos de movimento que permitam detectar os padrões de contágio, como se está pensando agora para conter a epidemia, e outra coisa muito diferente que as autoridades estatais acessem dados personalizados dos cidadãos para persegui-los. É claro que o vírus custará muito às nossas sociedades, entre outras coisas a limitar nossa liberdade de movimento, mas temos que exigir de nossos Governos que as decisões sanitárias sejam tomadas de maneira transparente, explicando seus fundamentos, e que as restrições sejam temporárias para que não se tornem álibis para a vigilância e a repressão.

 

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