Quinta, 04 de Junho de 2020
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Brasil Vozes de Baudelaire

Excelente texto de Paula Glenadel, na RevistaCULT: 'Vozes de Baudelaire na poesia francesa'

Paula Glenadel é professora de Literaturas Francófonas na UFF, com pós-doutorado em poesia na Université de Paris VIII; autora de

11/04/2020 18h34 Atualizada há 2 meses
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Por: Mhario Lincoln
O poeta francês Charles Baudelaire (Reprodução)
O poeta francês Charles Baudelaire (Reprodução)

 

Vozes de Baudelaire na poesia francesa

(*) Paula Glenadel

 

Na encruzilhada entre par­naso e simbolismo, ultra-romantismo e até mesmo um certo naturalismo, Baudelaire parece ter resumido as complexidades estéticas do século 19. Pensar na presença das múltiplas vozes que tecem sua poesia na poesia francesa posterior implica a necessidade de redefinir as principais linhas de sua poética ou, pelo menos, aquelas que puderam ser desenvolvidas pe­los poetas que escreveram suas obras  tendo-o lido. Tomemos, por ora, apenas duas dessas linhas, uma estética, outra moral, separadas no intuito da análise, mas verdadeiramente indissociáveis: o papel da imaginação e a dualidade moral constitutiva de qualquer situação humana.

 

A imaginação, à qual se filia o famoso tema das correspondên­cias, alarga os espaços do pensamento através da imagem-em-ação. A imaginação baudelairia­na não se reduz a um repertório de exercícios fantasiosos do espírito humano em busca de superar os limites da existência no cotidiano do capitalismo (mesmo se o “Mal” em Baudelaire muitas vezes responde a essa função, leia-se O mau vidraceiro e Espanquemos os pobres, por exemplo), mas ela é o processo da própria criação de imagens – o pensamento, que se faz por imagens, comparações, metáforas. Por isso, é a “rainha das faculdades”. Ela faculta a existência das outras. Aproximando-se de Nietzsche, Baudelaire propõe que toda metáfora é (artisticamente) verdadeira, que toda verdade não pode ser senão (ao menos residualmente) metafórica, e deixa inscrita na memória da poesia francesa essa fulgurante e simples descoberta. Após Baudelaire, nessa linha, temos Mallarmé. “Todo pen­sa­men­to emite um lance de da­dos”, escrevia este, referindo-se ao caráter arbitrário do que se chama “pensar”: uma chance, uma aposta de sentido num mundo sem plano transcendente, marcado embora pelo desejo do “Mis­té­rio”, teatro espiritual para a en­ce­nação da Idéia.

 

As correspondências, especialmente favoráveis ao desenvolvimento sugestivo e alusivo do poema, derivam da imaginação como fator de integração de realidades diversas. Elas consistem no pressentimento de uma “tenebrosa e profunda unidade,/vasta como a noite e como a claridade”, ins­pirador de um sistema poético que valoriza os ecos e a fusão, um elemento podendo atravessar o outro, posto que “os perfumes, as co­res e os sons se respondem”. São si­nes­tesias, analogias, em suma, imagens da imagem que o homem da modernidade em crise de representação tem do que é pensar, (re)construção da unidade pris­mática de um todo psíquico segundo novos padrões. Mais do que agrupar certos poetas do fim do século 19 numa “escola” simbolista, é possível apontar uma deriva que se afasta do romantismo, tornado sufocante paradigma do exercício poético, e que vai em direção a uma reformulação do que significa “significar”: o símbolo, en­ tenda-se um novo agencia­men­to entre real e ideal, entre litera­lidade e sen­tido. Assim, os excêntricos Cor­bière, mais irônico, e Lautréa­mont, mais escatológico, bem como Mal­larmé e Rimbaud, orbitam num certo espaço “simbolista”, em que a voz baudelai­riana das correspondências se faz ouvir, tanto quanto a voz baude­lai­riana que diz a ir­re­dutível ambi­valência de tudo o que o homem realiza ou percebe.

 

A “dupla postulação” fala inicialmente de uma instância teológico-moral, em que o homem oscila e se constitui na tensão entre tendências ascensionais e des­­cen­sionais, em seu desejo de desconhecido – que é desejo de conhecer-se. A novidade em Baudelaire é que ele não é mais impelido a optar por uma das tendências, podendo transitar entre elas e encontrar sua verdade nesse intervalo. A poesia é o lugar ao mesmo tempo precário e fundamental onde esse desejo vai se alojar. Bem e mal, humanidade e animalidade, criação e destruição, excesso e si­lencia­mento são postulações simultâneas encontradas em Rim­baud, em Lautréamont, em Mal­lar­mé, entre outros. O poema de Baude­laire “A voz”, onde duas vozes se oferecem ao poeta, uma ter­rena, afeita ao prazer, e outra que propõe a viagem nos sonhos, “além do possível, além do conhecido”, à qual o poeta responde “sim”, somando sua voz a ela, é emble­mático dessa polifonia.

 

No século 20, em busca dessa perspectiva de superação do possível e do conhecido, o surrealismo vai apostar fortemente na imagem que aproxima universos anteriormente tidos como estanques, lembrando a famosa definição de Reverdy. O interesse principal da poesia passa a ser o de estabelecer uma relação paradoxal com o mundo pensado em imagens, que pode transbordar no poema em prosa, gênero posto em evidência por Baudelaire e praticado por Max Jacob e pelo próprio Rever­dy, co­mo já o tinha sido por Rim­baud: poética, mais do que uma forma codificada, é a própria apre­ensão imagética das coisas, a iluminação de um relance em que o poema pensa o mundo e a própria língua, tornada coisa do mundo. Como não ver Ponge prefi­gurado no “Poema do haxixe”, onde, sob o efeito da droga, o poeta observa o traba­lho da imaginação, pelo qual a própria gramática, antes árida, torna-se um meio maravilhoso, do qual as palavras emergem reves­tidas de carne e osso, “como um dicionário dotado de vida”?

 

A influência de Baudelaire sobre a poesia francesa, demasiado vasta para ser devidamente apreciada neste espaço, estende-se também à sua herança teórica em pensadores contemporâneos absolutamente afinados com a poesia, como é o caso de Jacques Der­rida que, partindo do poema em prosa de Baudelaire “A moeda falsa”, evidencia a ambivalência do capitalismo (o elemento transitório, como no ensaio sobre o pintor Guys, a metade da arte) e do homem (o elemento eterno, a ou­tra metade), na reflexão sobre o dom e sobre a narração, enigma literário no qual a própria literatura se vê presa – e do filósofo mas também e prin­cipalmente poeta Mi­­chel Deguy – que reitera seu apego a Bau­­de­lai­re nas formas da comparação, da ima­gi­nação, da revelação e da dié­rese que diz o infinito no finito do verso.

 

Paula Glenadel é professora de Literaturas Francófonas na UFF, com pós-doutorado em poesia na Université de Paris VIII; autora de A vida espiralada

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