Quinta, 04 de Junho de 2020
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Sábado de Aleluia: o que acontece diante da violência desmedida no ato de malhar a figura estereotipada do 'Judas'

Muitas vezes o malhar do Judas sai do controle e vira um verdadeiro ato de agrassifidade coletiva.

11/04/2020 16h45 Atualizada há 1 mês
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Por: Mhario Lincoln Fonte: ML
foto google
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O OUTRO LADO DO JUDAS

(*) Mhario Lincoln

 

“Eu sei que é injusto. Mas há um modo natural das coisas acontecerem, elas simplesmente têm que acontecer, é uma reação em cadeia...” Dean Winchester, personagem fictício da série de TV americana Supernatural’.

 

Bom. Escrevo correndo o risco de, também, ser malhado pelo que exponho. Mas corro o risco.

Há muito, o Brasil cultua, aos sábados de aleluia, a ‘malhação do Judas’. Mas, nestes períodos considerados modernos, a partir da revolução da Semana de Arte Moderna de 1922, meu parâmetro de modernidade, (meu ponto de vista), a estupidez humana vem modificando de forma brutal o hábito cultural de malhar o Judas.

Antes, vale relembrar: Ninguém me tira da cabeça que a própria Igreja Católica não tenha evoluído igualmente no quesito ‘festas pagãs’.  A Malhação do Judas é um desses claríssimos exemplos. Provavelmente uma adaptação conveniente dessa festa a seu calendário religioso, desviando-a de seu sentido original e adaptando-a às suas conveniências doutrinárias dos hodiernos tempos sócio-políticos: “(...) vingar a traição de Judas, à Cristo”, como se pela grandiosidade espiritual do Pai, esse fato já não estivesse devidamente pré-determinado.  

Intrigante é, pois, se dar vazão a tanta violência, paradoxalmente às imagens difundidas pela própria igreja e ensinadas por Cristo. Perdoar, dando a outra face.

O que acontece, entretanto, ao Judas, é vingança e pura carnificina, ‘em nome da defesa à traição de Jesus’.

E, no meu bestunto, quem deveria – extrapolando a mensagem cristã em sua essência – ser malhado com carnificina, ódio e rancor – seriam os Romanos, na ocasião, únicos e verdadeiros inimigos da palavra de Jesus. Ou não?

Por isso, no fundo, bem no fundo, malhar Judas passou a ser muito mais que religiosa, a manifestação. Mas, sim, visivelmente sócio-política. E como política, envolta em gaze pútrido, inerente às concepções geralmente irracionais de quem a pratica.

Há 40 anos trago essa concepção inserida em meu contexto filo-social. Desde quando o Padre João, de uma das igrejas católicas, em São Luís, cidade onde nasci, no Bairro de Fátima, me convidou para a ‘malhação de Judas’, em sua Paróquia.

Muita festa, balões, pipoca, comidas típicas... porém, quando se iniciou a malhação propriamente dita foi algo avassalador. Os populares acotovelados ao redor da pracinha avançaram em três bonecos de pano, com pedaços de cano e madeira e os estraçalharam em questões de minutos emitindo descontrolados e altíssimos gritos de guerra. Depois, atearam fogo nos restos, num cenário de pavor. Um monte de lixo completamente queimado, ao longo da praça, até então cheia de balões coloridos.

O padre João (italiano), espantado com essa confusão incontrolável, virou-se pra mim e murmurou: “Nunca mais...”.

O padre (e eu) sentimos algo perturbador. A comprovação de algo espúrio. Quando o terror e a piedade (um servindo de apoio à outra) são excessivos e por isso, acabam inibindo a manifestação em si, isto é, um possível lampejo cristão ao ato de punir o traidor de Cristo.

Esse ato de violência, por “piedade”, visto pelo lado da estupidez, revela a integridade da natureza humana e seus excessos brutais, até mesmo de Catarse.

A turba enfurecida estraçalha uma figura hipotética, como se assim, salvasse o Mundo. Ou salvasse os seus próprios pecados, desconhecendo, por alguns segundos, a própria lei geral de harmonia do universo, através do perdão do Cristo.

Desta forma, pense bem antes de estraçalhar seu próximo Judas. Seja a fofoqueira de sua rua, o político inimigo, o cunhado devedor ou a sogra. Lembre-se: esse é um ato meramente catártico, mesmo que inconscientemente se associe, do pensamento aristotélico - “a piedade e o terror”.

Isso porque, “(...) alguns podem se apiedar do sofrimento vivido por alguém que não haja merecido...”. Todavia, há de se elevar a preocupação quanto ao terror, ao ódio, à violência, já que o “(...) terror se manifesta ante a ideia de que o espectador poderia ele mesmo experimentar a calamidade da representação à qual assiste”. (Grifos originais do professor Cacá Araújo/’O sentido da Malhação de Judas’).

Destarte, quem sabe usando de tanta violência contra uma figura meramente hipotética (o boneco, claro, transvestido de quaisquer inimigos públicos), nós, seres humanos, não queremos expurgar nossos pecados, punindo severamente o pecado do outro?

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