Quinta, 04 de Junho de 2020
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Seja pelo COVID-19 ou quaisquer outras doenças, “perguntar de que morreu alguém é estúpido

Com o tempo a causa esquece, só uma palavra fica, MORREU” (José Saramago – Ensaio sobre a Cegueira)

06/04/2020 13h55
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Alessandra Rocha
De ontem para hoje... Por: ALESSANDRA LELES ROCHA
De ontem para hoje... Por: ALESSANDRA LELES ROCHA

De ontem para hoje...
Por: ALESSANDRA LELES ROCHA

Escritora especialmente convidada.

Louvados sejam os esforços de todos os envolvidos direta e indiretamente na Saúde Pública brasileira, nesses tempos caóticos da Pandemia. Louvadas sejam as perspectivas que se abriram diante de nossos olhos em relação à realidade, por conta desse novo vírus.

Até bem pouco tempo existiam questões que pareciam intransponíveis. Aliás, falar em Saúde Pública era, para muitos, sinônimo de atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e, portanto, dedicado a suprir as necessidades médico-hospitalares da parcela populacional menos favorecida economicamente, lançada as margens das oportunidades e direitos.

Longas filas de espera para marcação de consultas e exames. Desabastecimento de insumos básicos nas unidades de atendimento. Ausência de profissionais nas diversas áreas de especialização médica e cirúrgica. Hospitais sucateados. Limitada oferta de leitos em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) ou Semi-Intensiva. ... Sempre estiveram associados à realidade da desigualdade brasileira.

De modo que as carências e insuficiências crônicas presentes nesse sistema não pareciam incomodar ou perturbar a paz e a tranquilidade de todos os que dispunham de atendimento na rede privada de serviços de saúde. Mesmo porque, o fato de terem um plano privado de saúde já lhes significava o passaporte para o atendimento a tempo e a hora, sem maiores sofrimentos e incertezas.

Pena que essa realidade de bonança e privilégio vem se transformando. O desemprego no Brasil, nos últimos anos, retirou de milhões de pessoas a oportunidade de desfrutar da rede privada de saúde, lançando-as diretamente ao imenso gargalo que padece o SUS. Sem contar que, custear particularmente os tratamentos ou as mensalidades desses planos é uma tarefa, quase, impossível para a grande maioria das famílias brasileiras, dadas as projeções estabelecidas para cada faixa etária, as quais tornam os custos várias vezes superiores à própria renda.

Eis, então, que o COVID-19 apareceu e falar sobre saúde se tornou inevitável. De repente, as pessoas passaram a entender que Saúde Pública refere-se aos programas, serviços e instituições responsáveis por intervir nas necessidades sociais de saúde. O caráter público e privado se esvaziou, portanto, diante da consciência de algo muito maior. Assim, a ansiedade e o medo fizeram emergir a urgência, as demandas, os cuidados, as informações.

A realidade que antes pertencia a alguns passou a ser de todos, no que tange a publicidade manifesta sobre tantas carências e insuficiências. Para quem viveu o dilema da judicialização por um leito de UTI, por exemplo, ouvir que a oferta existente tanto na rede pública quanto privada é insuficiente, não surpreende. Mas, para quem passou a vida acreditando em uma “pseudo garantia” de conforto, fomentada pelos planos de saúde privada, isso é certamente estarrecedor.

A verdade é que essa situação extrapolou, fugiu do controle. Dentro ou fora do país, ninguém estava preparado para a dimensão das demandas provenientes de uma Pandemia. A corrida contra o relógio para mitigar os efeitos desse despreparo, que de certo modo foi negligenciado ao longo de décadas, vai ser cruel e vitimar milhões de pessoas tanto nos serviços públicos quanto privados de saúde.

Chegamos a um patamar social que não mais adianta buscar socorro em medidas jurídicas. A Saúde Pública está à beira de um colapso e vai assistir a tragicidade estampada pela difícil tarefa de escolher quem vai viver e quem vai morrer; não mais pelo poder aquisitivo, mas pela carência de equipamentos, remédios, leitos etc. O que antes soava tão distante de alguns, se faz nesse momento realidade pulsante para todos.

Assim, seja pelo COVID-19 ou quaisquer outras doenças, “perguntar de que morreu alguém é estúpido, com o tempo a causa esquece, só uma palavra fica, MORREU” (José Saramago – Ensaio sobre a Cegueira). Essa reflexão é importante porque nos traz o sentido sobre a insensatez que tem nos paralisado, nos consumido a humanidade lentamente durante décadas.

 

De ontem para hoje, talvez, o que nos impeça de emergir uma percepção responsavelmente social é o fato de alguns ainda permanecerem insistindo em certas dissociações e distorções, no âmbito de um imenso emaranhado de linhas divisórias, comumente chamadas de desigualdade. O que é lamentável, visto que o momento atual chega com ares de possibilidade para compreender a dimensão exata da relação que queremos desenvolver conosco, com o outro, com o mundo, validada tanto pelas linhas da vida quanto da morte; sejam elas já conhecidas ou não.

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