Quinta, 04 de Junho de 2020
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Alessandra Leles Rocha: Habilidades... Competências...

No campo da Educação contemporânea as discussões sobre o desenvolvimento das competências e habilidades têm sido frequentes

03/04/2020 11h23 Atualizada há 2 meses
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Alessandra Leles Rocha
Alessandra Leles Rocha
Alessandra Leles Rocha

Alessandra Leles Rocha: Habilidades... Competências...

 


No campo da Educação contemporânea as discussões sobre o desenvolvimento das competências e habilidades têm sido frequentes e não sem razão, como pensam alguns. Essa preparação do indivíduo que se faz ainda na base do seu desenvolvimento cognitivo e intelectual é que o tornará apto a ocupar seu espaço social com mais segurança e desenvoltura. Pelo menos, o futuro de cada país deveria esperar por isso.
Mas, tendo em vista que no Brasil esse tipo de processo educacional ainda caminha a passos lentos, os resultados ainda não nos fazem sorrir. Recortes da população que vieram de um modelo educacional bastante discrepante e, ainda, se mantêm ativos no mercado de trabalho dão conta disso.
De certo modo, espelham com clareza certa inadequação e despreparo para funções que desempenham na sociedade. Visivelmente são indivíduos mal aproveitados e que, muitas vezes pela necessidade de trabalho, se frustram na realização de atividades, as quais não lhes resulta nenhum tipo de satisfação.
Em tempos do COVID-19, essas reflexões se tornaram ainda mais pulsantes na minha mente. Por se tratar de um fato totalmente inimaginado pela maioria de nós, a Pandemia expõe diretamente a necessidade de competências e habilidades para todos.
Talvez, jamais estivéssemos prontos para uma situação assim; mas, se dispuséssemos de ferramentas cognitivas e intelectuais organizadas e satisfatórias, poderíamos trabalhar cooperativamente, com muito mais facilidade, em benefício próprio e da coletividade.
A dissonância discursiva que se observa dentro da sociedade não me parece, então, ser exclusivamente fruto de uma polarização ideológica; mas, de uma fragilidade na construção e consolidação do conhecimento, especialmente o científico.
Há uma visível inconsistência argumentativa. Há uma terrível apropriação de ideias sem se consultar a fonte. Há uma negação inflexível do contrário para justificar a manutenção de um posicionamento. Enfim...
Ora, estamos em pleno século XXI. Bem ou mal, a humanidade já alcançou a 4ª Revolução Industrial, na qual os sistemas combinam máquinas com processos digitais. Sem discussões maiores em torno de prós e contras à industrialização, a questão é que qualquer mérito advindo do desenvolvimento científico e tecnológico merece ser atribuído aos que puderam desenvolver suas competências e habilidades desde sempre.
Foram estimulados para isso, a partir de uma sociedade de vanguarda preocupada em proporcionar à Educação o acompanhamento do progresso e do desenvolvimento mundial. E a importância disso já se faz presente por meio de notícias que relatam, por exemplo, a existência de hospitais que estão ampliando a utilização da Inteligência Artificial (IA) para detecção de pessoas infectadas pelo novo coronavírus (COVID-19) 1. Ou do uso da IA para identificar pessoas sem máscara, em empresas na China 2.Sem contar, um grupo de pesquisadores que usaram IA “para identificar casos que podem se tornar graves, além do perfil do grupo de risco” 3, no contexto da Pandemia.
No entanto, isso só está sendo possível porque vem sendo desenvolvido há tempos. Houve persistência. Houve dedicação. Houve investimentos. Porque em muitos lugares do planeta a convicção de que os resultados mais expressivos e consolidados da Educação, da Ciência e da Tecnologia demandam tempo, por se tratarem de processos os quais dispõem de inúmeras etapas a serem gradualmente cumpridas.
Isso significa que ao contrário de entendê-los como gastos, esses países os entendem como potenciais recursos financeiros e geopolíticos. Não é à toa que o conhecimento é uma commodity (mercadoria) no mundo globalizado. Deter os royalties (direitos autorais) dessa ou daquela pesquisa pode render muito para quem os detém. Haja vista alguns medicamentos para tratamentos de doenças raras e câncer, por exemplo.
No que diz respeito ao Brasil, talvez, a situação atual permita estabelecer um novo paradigma de compreensão para a Educação. Em primeiro lugar, entendendo a impossibilidade de dissociação e linearidade entre os estágios de formação – educação infantil, ensino fundamental I e II, ensino médio, ensino superior e pós-graduação; afinal, não há como construir uma casa partindo do telhado ou das paredes. Tudo começa pela base.
Segundo, rompendo com a ideia de que a Educação é um gasto e, portanto, só deve atender a alguns privilegiados que possam pagar por ela. Esse tipo de entendimento significa abrir mão de um universo de potencialidades humanas capazes de alçar grandes voos no campo acadêmico-científico, os quais poderiam laurear e destacar o país no cenário mundial. Deixaríamos de adquirir tanto conhecimento para produzi-lo, o que seria, inclusive, economicamente mais viável.
Por fim, reconhecendo que a Ciência não é estratificada em mais ou menos importante, que todas as áreas do conhecimento são sim, capazes de colaborar e dar significado as conjunturas em momentos cruciais, como agora. Cada uma delas contribuindo com suas melhores competências e habilidades; portanto, distanciadas de achismos, ficcionismos ou impropriedades.
Mas, apesar disso, não deixo de reconhecer os esforços dos nossos “heróis da resistência”, que ainda persistem na sua linha de fronte. Professores, Mestres, Doutores em diversas áreas do conhecimento. Debruçados na sua dedicação absoluta e resiliente. Devotados a extrair o que de melhor os seus longos anos de desenvolvimento científico trouxeram.
Eles e elas, que agora lutam ao lado de todos os demais brasileiros nesse enfrentamento brutal ao COVID-19. Que nos trazem alento e esperança em meio ao caos de carências e insuficiências que a realidade pandêmica expõe. Que são luz em meio às sombras que mancham a nossa ignorância.
Seja em tempos de COVID-19 ou quaisquer outras doenças e desafios, “o homem não é nada além daquilo que a educação faz dele” (Immanuel Kant). Sem ela deixamos de saber quem somos. O que precisamos. O que queremos. O que esperamos. ... Afinal, “ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre” (Paulo Freire).

1 https://olhardigital.com.br/coronavirus/noticia/hospitais-usam-inteligencia-artificial-para-detectar-sintoma-da-covid-19/98852
2 https://canaltech.com.br/inteligencia-artificial/covid-19-inteligencia-artificial-pode-identificar-pessoas-sem-mascaras-160598/
3 https://veja.abril.com.br/ciencia/coronavirus-ferramenta-ajuda-a-prever-quem-tera-quadro-grave-de-covid-19/

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