Quinta, 04 de Junho de 2020
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Mundo Sigmund Freud

EM SUA TEORIA SOBRE A SEXUALIDADE FEMININA, O AUSTRÍACO REVELOU-SE UM ARQUÉTIPO DE MACHISTA

ESTE PODE SER UM FREUD QUE NINGUÉM HAVIA VISTO ANTES. Ou não!

31/03/2020 13h04 Atualizada há 2 meses
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Por: Mhario Lincoln Fonte: SUPERINTERESSANTE/UOL
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Nota da Redação: O Portal MLB traz um resumo desta matéria publicada na SUPER INTERESSANTE, assinada pelo genial Alexandre Carvalho. 

 

EM SUA TEORIA SOBRE A SEXUALIDADE FEMININA, O AUSTRÍACO REVELOU-SE UM ARQUÉTIPO DE MACHISTA. MAS INVENTOU A PSICANÁLISE PARA DAR VOZ ÀS MULHERES.

    Simone de Beauvoir (1908-1986), em seu livro O Segundo Sexo, dedicou um capítulo inteiro da obra para apontar os equívocos do ponto de vista psicanalítico a respeito das mulheres.

Por: ALEXANDRE CARVALHO

"Uma mulher inquieta vai ao médico ou às compras.” A frase machista poderia ser dita num grupo de amigos bêbados, fazendo piada sobre as esposas. Mas saiu da boca do pensador que mais se dedicou a investigar a mente humana, partindo justamente dos distúrbios emocionais das mulheres. Sigmund Freud, aliás, teria como preencher um pequeno livro só com seus ditos misóginos – como este, que soltou durante os debates da Sociedade Psicanalítica de Viena sobre a “posição natural das mulheres na sociedade”, em 1906: “Uma mulher não pode ganhar o sustento e criar os filhos ao mesmo tempo”. Um ano antes, chamado a atuar como perito para uma reforma na lei do divórcio, o austríaco ainda diria: “A igualdade entre os sexos é impossível devido aos seus diferentes papéis no processo de reprodução”.

Fosse apenas por essas falas desastrosas, o pai da psicanálise poderia ter passado abaixo do radar de feministas de diversas épocas. Mas o que gerou mais revolta, inclusive entre psicanalistas mulheres que seguem em grande parte o seu legado, foi que Freud não era um mero tio do pavê na virada do século 19 para o 20. O pensador construiu a mais poderosa e influente teoria sobre o funcionamento da mente, destacando o papel do inconsciente como fator determinante das nossas escolhas, nossos comportamentos... da nossa personalidade. E, entre as muitas teorias que alimentam o universo da psicanálise, Freud lançou, em 1905, sua obra mais polêmica – que lhe rendeu fama de pansexual, além do ódio de mulheres ativistas: Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade.

Nesse estudo, baseado principalmente no que ouvia das pacientes que frequentavam seu divã em Viena, Freud apresentou em detalhes sua famosa teoria do complexo de Édipo (segundo a qual meninos teriam fixação sexual pela mãe, o que refletiria em seu amadurecimento). Também chocou papais, mamães e avós na mesma obra ao sugerir que crianças têm desejos e brincadeiras sexuais. E ainda aproveitou para transformar seus pensamentos conservadores a respeito da mulher em suposto achado científico: a famigerada inveja do pênis. Uma teoria que afirma, basicamente, que meninas são meninos com “defeito de fábrica”. E que a ausência desse órgão determinaria para sempre a inferioridade feminina em relação aos homens.

Foi aí que esse viciado em charutos – curiosamente um símbolo fálico – comprou briga com mulheres do mundo todo. E foi contestado até pelos próprios seguidores.

“Freud achava a psicologia das mulheres mais enigmática que a dos homens”, contemporizou seu amigo e biógrafo Ernest Jones (1879-1958). Mais contundente foi o comentário da psicanalista alemã Karen Horney (1885-1952), fundadora da escola neofreudiana – que alterna consensos e conflitos com o pai da psicanálise –, uma das pioneiras a combater a ideia de que o feminino nasce da constatação da falta do órgão masculino. “Como em todas as ciências, a psicologia das mulheres tem sido considerada até agora apenas do ponto de vista dos homens.”

Horney contra-atacou, sugerindo em seus escritos que o macho é que teria uma inveja do útero. “Quando alguém começa a analisar os homens, como eu fiz, após uma vasta experiência de análise de mulheres, tem a impressão surpreendente da intensidade dessa inveja da gravidez, do parto e da maternidade.” Até a filósofa Simone de Beauvoir (1908-1986), em seu livro O Segundo Sexo, dedicou um capítulo inteiro da obra para apontar os equívocos do ponto de vista psicanalítico a respeito das mulheres.

Tanta revolta tem por quê. Sigmund Freud fez articulações geniais para dar verniz científico a concepções que, na sua essência, representam – ainda que por meio de uma elaboração ultrassofisticada – o pior do machismo de comercial de cerveja. E no intervalo do jogo de futebol. Chegou a especular por que os maridos, esses abnegados vigias da insensatez feminina, têm de esperar por horas até que as esposas terminem de retocar a maquiagem diante do espelho. Calma, já chegamos lá...

A INVEJA DO PÊNIS

Segundo a teoria de Freud sobre a sexualidade feminina, é na chamada fase fálica, entre os 3 e 5 anos, que as crianças começam a diferenciar o que é menino e o que é menina. Para sorte de uns e frustração de outras. Seria nessa fase que as mocinhas dão atenção ao fato de que seus amiguinhos, irmãos e primos têm pênis. Mesmo que ainda pequenininho, surge aos olhos das crianças como um órgão arrogante e exibido, que deu de aparecer no mesmo lugar do corpo onde elas só têm um imenso vazio. (Ou, para as mais atentas, um clitóris, percebido como um micropênis que não deu certo.) Assim como as crianças sentem desejo de possuir os carrinhos e bonecas das outras, a menina também passa a querer aquele brinquedo. “Essa falta lhe cai como uma injustiça e como motivo para se sentir inferior”, explica o austríaco.

Para simplificar aqui as teses psicanalíticas de Freud sobre as consequências dessa inveja, vamos apenas dizer que a constatação de que é um ser humano de segunda categoria vai criar na mulher um abalo sísmico no amor-próprio, que o pensador chama de ferida narcísica – sim, um machucado no seu ego. Esse sentimento de inferioridade será um fardo que a mulher poderá suportar através da vida com resignação ou com revolta. Para Freud, é como escolher entre a vida normal e a doença mental.

O estigma de castrada fará com que o desenvolvimento da sexualidade feminina possa, segundo Freud, seguir três destinos. Primeiro: a frigidez ou neurose para aquelas que reprimem seus quereres dentro de uma sociedade que só permite a eles, os homens, a expressão de desejos sexuais e a ambição de altos voos no trabalho. Segundo: o complexo de masculinidade para as que não se conformam com sua “castração” e decidem “ser um menino”, fazendo de conta que têm um pênis. Freud coloca nessa categoria tanto as lésbicas quanto as mulheres com “vocação fálica”, as que assumem papéis de liderança na sociedade – com profissões que seriam pênis simbólicos. O terceiro destino é o que Freud considera o único capaz de evoluir como uma sexualidade feminina normal: a vida de dona de casa. Seria a aceitação de uma inferioridade que, por ser anatômica, não tem como ser superada. Só ao aceitar esse papel subalterno, vivendo à sombra de seu marido provedor, o senhor do seu castelo, a mulher teria chance de atingir a estabilidade psíquica. Melhor ser um bibelô feliz que enfrentar as angústias de um protagonismo que não seria da natureza delas.

 

EM TEMPO

ANNA FREUD – A HERDEIRA

Freud teve três filhos homens, mas quem seguiu seus passos no estudo da mente e se tornou guardiã de seu legado foi a filha caçula, Anna (1895-1982), que depois se tornaria uma das maiores psicanalistas da história, sendo pioneira na psicanálise voltada para crianças.  Foi também ela quem estudou a fundo e estendeu os conceitos de seu pai sobre os mecanismos de defesa do ego (projeção, negação, sublimação etc.).

Anna nunca se casou e dedicou a vida a acompanhar seu pai, de quem foi tanto discípula quanto assistente. Na contramão de uma das regras da psicanálise, que proíbe a análise de pessoas próximas, Freud analisou sua própria filha. E ficou preocupado ao constatar que Anna não queria saber de homens. Escrevendo a uma amiga, disse: “A menina me dá bastante preocupação: de que modo ela vai enfrentar a vida sozinha [depois da morte dele] e se consigo trazer sua libido do esconderijo no qual se enfiou”.

 

Leia a íntegra numa publicação mais acessível ao público

https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/80-anos-da-morte-de-freud-um-legado-para-ciencia.phtml

 

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