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Colunistas. EUGES LIMA: Fran Paxeco e a crítica ao livro “Fundação do Maranhão”

26/06/2020 16h56
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Por: Mhario Lincoln

Fran Paxeco e a crítica ao livro “Fundação do Maranhão”

Euges Lima*

 

 

“(...) Fran Paxeco, que tanto se interessa por tudo quanto diz respeito ao Maranhão, e que tão profundamente conhece os nossos homens e as nossas coisas.” José Ribeiro do Amaral (1914) 

 

Muito já se falou e se escreveu sobre o questionamento da fundação francesa de São Luís, principalmente nos últimos quase vinte anos. Então, quando pensávamos que não havia mais novidades sobre o tema e que quase tudo já tinha sido dito, pesquisado e publicado, em uma de nossas pesquisas em jornais antigos, eis, que, por acaso, encontrei, há um pouco mais de um ano, uma surpreendente resenha sobre o livro “Fundação do Maranhão”, escrito pelo professor José Ribeiro do Amaral por ocasião das comemorações do tricentenário da “fundação francesa” de São Luís em 1912. Este trabalho é considerado o livro-chave que introduziu essa nova versão de fundação da cidade, pois, até então, a versão corrente, clássica da historiografia maranhense era que a cidade de São Luís tinha sido fundada pelos portugueses, após a expulsão dos franceses, em 1616. 

 “A Pacotilha.”

Pois bem, pasmem-se! Encontrei no Jornal “A Pacotilha,” de 20 de novembro de 1912, ou seja, contemporânea à publicação do livro de Ribeiro do Amaral, uma resenha com o título “Uma boa memória”, escrita por ninguém menos que o intelectual português, Consul de Portugal no Maranhão e um dos fundadores da Academia Maranhense de Letras (AML), Fran Paxeco, que nessa ocasião, era jornalista desse diário. 

Essa resenha crítica, que apesar do aparente título elogioso, na verdade, traz implícita e, em alguns momentos, explícita, certo tom de ironia nos argumentos de seu autor acerca das teses de fundação francesa de São Luís, levantadas por Ribeiro do Amaral. 

A novidade do texto consiste, de um lado, que a nova versão da fundação de São Luís, de origem francesa, engendrada e encampada por Ribeiro do Amaral, não foi unânime entre os historiadores e intelectuais contemporâneos e encontrou forte resistência na visão de Fran Paxeco, seu colega de geração literária e da fundação da AML, em 1908. Por outro lado, representa também um dado novo nesse debate, pois, até aqui, as críticas e contestações contra essa visão da fundação francesa de São Luís que os historiadores tinham conhecimento, eram referentes a várias décadas posteriores à publicação do livro “Fundação do Maranhão,” e, mais recentemente, a partir dos anos 2000, com o livro da historiadora Lacroix. Portanto, até agora, não se tinha conhecimento de uma crítica contemporânea ao surgimento dessa nova interpretação, ou seja, no seu nascedouro. 

Vejamos quais foram os principais argumentos utilizados por Fran Paxeco para rechaçar o livro “Fundação do Maranhão” e sua tese de uma São Luís de origem “absolutamente francesa.” Primeiro, o autor, usa de uma aparentemente cautela para desconstruir as teses de Ribeiro do Amaral, tentando alternar falsos elogios com críticas para dar um tom equilibrado, buscando fazer uma média, afinal, a reputação e notoriedade do douto saber do professor e historiador José Ribeiro do Amaral eram algo patente, talvez, não quisesse gerar um melindre mais sério; porém, acho que não teve sucesso nesse intento, com isso, acabou construindo um texto bastante irônico quanto às fragilidades e contradições dos argumentos de Amaral acerca da fundação francesa da cidade de São Luís. Prevaleceu mais sua inteligência e capacidade de descaracterizar o trabalho do professor Ribeiro do Amaral como um trabalho de história, daí o tom aparentemente elogioso, mas, no fundo, irônico, de “Uma boa memória”, pois, seria memória e não história.

Fran Paxeco inicia seu texto, dizendo que é “um sugestivo estudo, especialmente com o fim de comemorar o tricentenário do estabelecimento dos franceses no Maranhão”, tentando ressaltar, a distinção entre o estabelecimento dos franceses na Ilha de São Luís com a fundação da cidade de São Luís.

Já no segundo parágrafo, ressalta “que as publicações rememorativas se revelam, no geral, inferiores ao fato que pretendem festejar, por via do afogadilho com que se elaboram”, sugerindo, assim, o autor que o livro resenhado teria sido feito às pressas, que seria uma publicação de efemérides, de comemoração e como tais, eram sempre inferiores devido à rapidez como eram elaboradas, sem tempo para pesquisa séria.  Arremata, dizendo que “a musa das idades mortas repudia” esse tipo de trabalho. A musa à qual se refere é a “história”.

Continua, dizendo, “bem certo é que a história se não inventa.” Aqui, Fran Paxeco, na sua resenha demolidora, insinua que José Ribeiro do Amaral estaria inventando uma história acerca das origens da cidade de São Luís, que se trata de uma invenção, argumento surpreendente atual para quem discute o problema hoje, a partir de uma perspectiva de invenção de uma tradição ou da história como invenção, embora ele afirme que a história não é invenção. Afirma também “que o critério julgador dos acontecimentos idos não se improvisa,” sugerindo novamente a ideia de que o olhar do professor Amaral sobre o passado remoto das origens da cidade foi feito a partir de improvisos, sem muito critério histórico. 

No seu rosário de argumentos de desconstrução da nova versão de origem francesa, imprimida pelo autor de “Fundação do Maranhão”, Fran Paxeco, destaca que “exuberância documental, de por si, sem uma pontinha de síntese e uns dedinhos de filosofia, resulta redundante,” isto é, os documentos por si só, sem a devida análise e interpretação, não representam muita coisa, os documentos não falam por si só. Mais uma vez, o autor da resenha demonstra uma visão bem inovadora da história para aquele momento, bastante contemporânea.

No terceiro parágrafo, o autor, diverge novamente da visão de Ribeiro do Amaral, que considera a cerimônia realizada no 8 de setembro de 1612 como “verdadeiro auto de fundação da cidade de São Luís”, inventando, assim, uma tradição para a cidade, dia, mês e ano do seu aniversário. Para Fran Paxeco, tal cerimônia representou, na verdade, “o ato de posse da ilha de São Luís, pelos companheiros de La Rarvardiere”, conforme, inclusive, está expresso no livro “História da Missão dos Padres Capuchinhos na Ilha do Maranhão...” de Claude d’Abbeville [1614]. Não um auto de fundação, como queria Ribeiro do Amaral.  

Segundo Paxeco, essa visão de Amaral de apologia à ocupação francesa, “despertou hossanas incontáveis qual delas mais interessantes. Houve quem entendesse que, se Maria de Médicis se desinteressasse da miraculosa ideia, o Maranhão seria ainda um espesso matagal. E o que buzinaram sobre a cultura francesa, transmitida aos íncoles!?” Conclui o autor, dizendo: “riríamos de tudo isso, se o caso no não entristecesse. Quem acredita que, dentro de tal prazo, se transformem sociedades, catequizem incultos?” 

A ocupação francesa no Maranhão durou apenas pouco mais de três anos, portanto, foi muito fugaz, sem tempo para construir algo sólido no Maranhão. Nesse sentido, afirma Fran Paxeco: “longe de nós o intuito de negar que os audazes incursores se apoderassem, primeiro do que outrem, desta bela ilha, construindo fortes e cabanas [...] Mas isto, à face da ciência histórica, implica em simples episódio cronológico [...] E, como a posse que se arrogaram, contra a fé dos tratados [...], se demostrassem de todo em toda efêmera, sem deixar vestígios de peso”.

Fran Paxeco surpreende-se com o fato de o trabalho do professor Amaral não se respaldar na historiografia anterior sobre o tema da ocupação francesa no Maranhão. Considera que o livro não apresenta argumentos que invalidem as conclusões de um dos grandes historiadores, não só maranhense como brasileiro: “João Lisboa, o maior dos historiadores brasileiros, e que detidamente aludiu aos velejadores de Cancale e S. Maló, contesta-lhe com fortes motivos. E não vemos argumentos que lhe anulem as indestrutíveis conclusões.” 

Mais adiante, fazendo referência aos renomados historiadores mundiais e tentando ressaltar a não utilização por parte de Amaral das obras de João Lisboa, no tocante a ocupação francesa, o autor, faz o seguinte questionamento: “por que se relegam à poeira das estantes dos estudiosos os livros de João Lisboa. Por fim, segundo Fran Paxeco, ao “livro do sr. Amaral [...] falta um [...] certo rigor metódico que inspira os trabalhos do gênero.” 

Interessante observar como essa resenha crítica, tão aguda, inteligente e atual, escrita em 1912 acerca do livro de José Ribeiro do Amaral, que tanto influenciou a historiografia maranhense nos últimos 107 anos sobre essa temática, passou despercebida durante todo esse tempo e que nos revela muito sobre a genialidade de um Fran Paxeco, atento, perspicaz, com uma visão historiográfica requintada para desconstruir no seu nascedouro a heterodoxa tese de Ribeiro do Amaral de uma São Luís fundada por franceses. Que percepção ou coragem teve Fran Paxeco, entre tantos, para ser o único a observar e contestar a mudança de versão sobre a fundação da cidade que estava sendo operada aí, nesse momento, antecipando-se o autor de “Uma boa memória”, portanto, muitas décadas às críticas e analises atualmente feita pela historiografia.

 

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