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COLUNISTAS. Novo texto de Joema Carvalho:

22/06/2020 12h22
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Por: Mhario Lincoln

MEANDROS

Meandros (1)

Joema Carvalho

 

 

Estava no ponto de transição entre o estado casada e o de não casada. Desequilíbrio emocional pleno, uma morte em movimento. Foi quando realizei um trabalho em um ambiente aluvial. Era um rio meandrante, camuflado por si mesmo. Em toda direção a mesma paisagem. Nenhum caminho que me tirasse daquele emaranhado feito de estreitos corpos d´água.

Queria um rio diferente, encaixado em uma fenda geomorfológica estruturada, que conduzisse de forma contínua a outro espaço. Não percebia ainda que um rio encaixado nunca se livra do encaixe, enquanto os meandrantes constroem e reconstroem o espaço, determinados a seguir, protagonistas absolutos do seu destino, redirecionando-se de acordo com o seu próprio processo.

Meandros (2)

Enquanto abria picadas com o facão em meio às gramíneas altas, crescidas nos microrrelevos em meio ao atoleiro, avistei uma cobra enrolada, em dormência, no meio da passagem que eu abria. Talvez eu mesma, enrolada em mim, carecendo de minhas mudas, sem perspectivas. Apenas um fluxo meandrante e confuso, esparramado em um terreno incipiente, com todos os lados iguais e planos, que precisavam ser refeitos por completo.

 Naquele campo, precisei ser guia na companhia de uma estagiária para um inventário florestal rotineiro. Ainda não estava com o Ozzi, o facão pertencia à empresa que me contratara. Com a identidade perdida, precisei resgatar o que me pertencera: meus significados e meu jeito, minha própria guiança novamente.

Após um lanche rápido no meio da floresta, retornamos ao trabalho. Pouco depois, notei a falta da mochila. Havia ficado no lugar onde tínhamos parado para comer, em algum dos meandros. Na ânsia de achá-la nos perdemos.

Sem as chaves do carro, carteira e materiais de campo, seguimos por um desprumo na tentativa de voltar ao local. Foi quando avistamos, em um platô mais alto, uma casa. O único acesso a ela era através de um rio, um pouco mais fundo, ainda estreito. Depois dele um milharal, que também tivemos de atravessar.

Acolheu-nos uma senhora. Por ela soubemos que, havia pouco, colegas da equipe tinham passado por lá. Um moço, que também estava com ela, foi atrás deles. Conseguiu encontrá-los. Com eles, voltamos de carona para a casa. Mas a mochila ficara onde a tínhamos esquecido.

Três dias depois, voltei aos meandros. Então a encontrei. Peguei o que me pertencia e regressei. Os meandros, naquele momento, ainda se esparramavam em um terreno incerto e incipiente. Era o que havia como ponto de partida.

 

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