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CONVIDADA: Ceres Costa Fernandes e a Festa Literária Internacional de Paraty/ 2011

12/05/2020 19h30
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Por: Mhario Lincoln

UM TSUNAMI NA FLIP

(*) Ceres Costa Fernandes 

Das estrelas nacionais e internacionais que refulgiram na FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty) 2011, patroneada por Oswald de Andrade, uma saiu disparada na frente, em órbita própria nunca pensada por patrocinadores e todo o tipo de fauna amante das letras que compõem a organização e plateia dessa festa. E este não se chama Antônio Cândido, o monstro sagrado da crítica nacional, acima de qualquer julgamento e que ainda leva a palma de ter sido amigo e confidente de Oswald de Andrade, ou João Ubaldo, o baiano de Itaparica, campeão de vendas de livros, cujas mesas, assim que abertas, esgotaram todos os ingressos, não sobrando unzinho só, nem no câmbio negro. Ambos ovacionados e deificados, todavia perderam o troféu Ai Jesus, que em 2003 pertenceu a ninguém menos que Chico Buarque – dodói de todas as mulheres maduras – para um escritor que não pontificava nas resenhas e entrevistas prévias dos jornais e das revistas especializadas, o angolano radicado em Portugal, romancista, poeta, artista plástico e vocalista, walter hugo mãe, grafado assim mesmo –  ele prefere –  unicamente em letras minúsculas, como todos os textos dos seus quatro romances, “para criar uma ligação mais direta à oralidade e uma espécie de humildade gráfica”, diz.

        Apesar de ser o mais prestigiado autor jovem português da atualidade e ter ganhado o Prêmio Literário José Saramago, em 2007, com o romance O Remorso de Baltazar Serapião, obra saudada pelo próprio Saramago como “um tsunami linguístico, semântico e sintático”, walter hugo mãe  é pouco conhecido entre nós. Os editores apostaram menos que deviam no seu sucesso no Brasil: o seu quarto romance, para ser lançado na FLIP, pela COSACNAIF, A Máquina de Fazer Espanhóis, ganhou uma modesta tiragem de três mil exemplares. Não contavam com seu carisma; foi o campeão de vendas da Festa. Não sei dos números, mas acho que vendeu todos os exemplares de A Máquina...e  mais os de O Remorso de Baltazar Serapião: sua conferência foi às doze horas, autografou a partir das quatorze horas e, quando saí da palestra da noite, perto das 21 horas, ainda estava ele a autografar. E muitos, como eu, nem entraram nas filas de autógrafos. 

    Na mesa 6, que dividiu com a argentina  Pola Olaixarac, candidata a musa da FLIP, ele começa dizendo que escritor é aquele que procura substituir com a literatura aquilo que lhe falta. Conceito freudiano, e daí? Eu gosto.  Ao contrário de muitos que dizem consumir-se, afirma: “não tenho sofrimento ao escrever, tenho prazer em criar, há sempre um lado de tragicomédia.” [...] “me divirto com meus personagens, com quem vou passar muito tempo, são meus amigos”.  E termina a fala com a leitura de uma carta aos brasileiros. Voz mansa, modo de dizer assim com um quê de descuidado e jeito de quem está na festa alheia de favor, palavras seguindo em doce enxurrada, poucas pausas, confissões encabuladas de amar o Brasil e os brasileiros. Pronto. Houve até quem enxugasse os cantos dos olhos e o autor também marejou os seus, depois de aplaudido de pé por palmas que não queriam cessar. Lá estava eu e toda a plateia conquistadas. A Pola? Coitada. De repente, ex-musa e completamente ofuscada por ele. 

 

Noite. Chego ao hotel. Na minha cabeça ressoam as muitas conferências do dia e estou com os pés cansados das pedras cabeça-de-negro que calçam quase todas as ruas de Paraty. Faz nove graus, temperatura glacial para uma nordestina. Meto-me debaixo das cobertas e pego o livro O Remorso de Baltazar Serapião. Logo, estou enleada pelo universo inusitado e alegórico do romance, walter hugo mãe (foto)  escreve como fala. A oralidade domina toda a obra, e embora pareça fluir-lhe espontânea, técnicas narrativas e descritivas estão presentes. Enormes parágrafos, ausência de maiúsculas e de quase todos os sinais gráficos, exceto a vírgula e raros pontos, despreocupação com a sintaxe que segue apenas o ritmo da fala das personagens, constroem um texto de largos espaços de pura prosa poética.     

A falta dos marcos tradicionais e a torrente linguística não extraviam os caminhos do discurso nem nos fazem confundir os interlocutores do diálogo.  Na linguagem branda, subjaz a violência brutal que perfaz todas as relações de poder ou de sentimento do romance. As mulheres narradas são  figuras negativas e malditas. Todo o mal se origina sempre da palavra da mulher, que só é positiva calada e quando se assume como animal, animal de trabalho ou prazer.  Cabe aos homens dar-lhes o ensino. Talvez por isso a fêmea-símbolo das coisas boas seja a vaca sarga que permeia toda a narrativa como um fio condutor.  Se a linguagem recorre por vezes a construções arcaicas como o tempo em que se insere, época vagamente medieval, sem lugar definido, a estrutura narrativa é moderna. 

E mais não digo, porque se me acaba o espaço. Digo apenas, vale a pena ler o livro.

 

Convidada: Ceres Costa Fernandes , da Academia Ludovicense de Letras (S.Luís-Ma).

 

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