Sábado, 06 de Junho de 2020
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A estreia da escritora DIONE ROSA com um conto extraordinário sobre deusas Athenienses.

09/05/2020 16h00
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Por: Mhario Lincoln

                                                      

 

 

METAMORFOSE

DIONE M.S. ROSA

 “... e no final ter desenhado esse lugar exato onde em segredo posso ser humano” (Antonio Franco, Aracne)

 

        Uma tela estendida ao fundo do templo de Palas Atena resplendecia em talento e perfeição. Trabalho de certa jovem de lisos cabelos negros, portando vestido vermelho preso aos ombros. Ela ousou desafiar a deusa Atena, padroeira das artes, para uma competição. Quem seria?

       Não deveria temer a danação dos deuses do Olimpo?

       O seu nome é Aracne, conhecida em toda a região da Grécia pela perfeição em fiar. Retratou Zeus, o maior de todos os deuses, e suas conquistas amorosas, estampando cenas em que aparece disfarçado, ou toma a forma de um animal.

       No corpo do touro, arrebatou Europa; nas asas da águia, abordou Astéria; na pelagem de cisne, conquistou Leda; incorporando um sátiro, fez amor com Antíope. Zeus disfarçou-se de Anfitríon, seduzindo Alcmene, mãe de Hércules; nas vestes de pastor, amou Mnemosine, mulher-titã; e, ainda, conquistou Egina, Deméter e Danae, simulando passar-se, respectivamente, por chama, serpente e chuva de ouro. No afã de "tricotear" sua espantosa obra, Aracne incluiu, por fim os amores de Poseidon, Apolo, Dionísio e Cronos; e ao redor de todas as cenas, teceu na tela graciosa moldura de hera e flores entrelaçadas.

        Atena, a deusa de louros e cacheados cabelos, exibiu sua tela de frente ao trabalho de Aracne. Usando vestido branco, de diminutas flores amarelas, não gostou de ver a vida amorosa de seu pai, Zeus, explicitada daquela forma. O seu trabalho visou a retratou a cidade de Atenas e os deuses em seus tronos. Inseriu Niké, o símbolo da vitória, e, nos quatro cantos da tela, teceu cenas mostrando as consequências suportadas pelos mortais que ousaram desafiar os deuses, e a transformação de vários deles. Ao final, Atena teceu certa grinalda de folhas de oliveira simbolizando a paz.

       Aracne denotou orgulho da sua tela e mostrou-se radiante, pois tinha certeza de que a tecelagem estava impecável e seria a vencedora da competição. No alto de sua presunção, observou Atena examinando sua obra. Todavia, por ironia do destino, ou abuso da própria sorte, Aracne não calculara a reação da deusa, que nada pôde apontar de inconveniente na majestosa tela. Assim sendo, enfureceu-se e a deusa, num rompante de cólera, sacou de sua espada rasgando ao meio o trabalho da tecelã, causando espanto aos observadores. A moça arregalou os olhos apavorada com a atitude da deusa e, vislumbrando possível represália correu em direção à árvore mais próxima, tomando, no caminho, uma corda.

       Pelos deuses, o que pretendia a artesã?

      Atena ao perceber o plano de dar cabo a sua vida, lançou sobre Aracne fluidos furtivamente retirados das ervas de Hécate, transformando a corda que pretendia usar, numa grande teia e, evitando que pusesse fim à vida. Entretanto, a deusa não percebeu, que a sua coruja, guardiã do seu jardim encantado, a tudo observou.

      Que destino cruel e amargo esperava pela tecelã!

      Atena lançou mão de uma terrível imprecação, e Aracne foi condenada à damnatio metamorfoses, dizendo;

       — Viva, iníqua moça; continue a viver, mas fique para sempre pendurada. E, apenas para mantê-la mais ponderada no futuro, a punição será aplicada igualmente em sua descendência.

       Todos os convidados saíram apavorados do templo e presenciaram o que ocorreu com a artesã. O que se viu foi o horror dos horrores: das laterais de seu formoso corpo saíram três pares de negras pernas, perfurando sua rósea e delicada pele, ocasionando sangramento e dores lancinantes.

       Aterrorizante metamorfose, comandada pelas mãos da deusa da sabedoria!

       Aracne foi exilada num local distante, tornando-se prisioneira da teia, enquanto a deusa voltou, encolerizada, para o interior do templo, desaparecendo mais tarde, deixando a jovem em choro e desespero sem iguais...

                                                               ***

        Amanheceu sob os auspícios de um inverno arrepiante. A neve acumulou-se sobre as copas das árvores e da vegetação. A temperatura baixa insinuou sensação de congelamento. A parca luz tomou conta do dia, prometendo ser um dos mais frios e escuros dos últimos tempos. O sol emitiu os primeiros raios no horizonte, iluminando-o timidamente e o mar revirou-se num cinza azulado, debatendo-se furioso nas rochas. Em seguida, a luminosidade convidou pesadas nuvens para assumir o comando do céu, revelando somente o alto do penhasco à beira do mar. No topo, ouvia-se certo choro baixo e contínuo, perdendo-se nas primitivas e solitárias rochas.

       Quem produziria a queixa?

       Sou a coruja e ando por esses mares e sobrevoa as montanhas, porém hoje terei uma missão especial. Antes de fazer revelações, confesso que o lamento que ouvi, deixou-me apreensiva. Sobrevoei o mar próximo da praia e dirigi-me à beira do penhasco. Do alto verifiquei a existência duma enorme teia de aranha estendida entre duas gigantescas árvores. Numa das copas assentei-me e olhei para baixo. Algo mexeu na teia, porém parou de movimentar-se ao sentir minha presença. Decidi voar mais perto para enxergar melhor, mas quase tive um colapso com o que vi.

        Pelos deuses, o que era aquilo? Uma gigantesca aranha engolindo uma mulher? Não. Fiquei em choque ao ver a fusão entre mulher e aranha. Pareceu-me a pior das penalidades conferidas a seres humanos. Seria castigo dos deuses?

        Que crueldade abateu-se sobre aquela singular criatura? A cabeça pendia para baixo e os longos cabelos negros cobriam-lhe o rosto. Ela abriu os olhos e agitou-se tensa na teia, temerosa de que algo lhe fosse impingido. Todavia, ao perceber que a observava apresentou-se, e rogou-me:

       — Sou Aracne, a maldita, por favor ajude-me!

       Conhecia a minha missão, mas tinha certo receio do que teria que ver. Não podia esconder que ver aquela ambiguidade, deixou-me à beira da loucura. Confesso que senti muito medo, pois detinha certo medo de aranhas, mas tive coragem de me aproximar da criatura. Sabia que “Ela” queria isso. Com certeza o ser que estava na teia fora abandonado pelos deuses e mortais para que morresse aos poucos ou, pior, sob o peso da condenação à meia-vida.

        Eu fiquei receosa com a possibilidade de ser ferida, mas Aracne não desejava fazer-me mal. Percebi que tentava soltar-se da corda e, quanto mais tentava, mais se cansava, acabando por regurgitar uma baba esbranquiçada. Cheguei perto e forcei a corda várias vezes com meu bico cortante. Demorou alguns instantes para a corda ceder, mas cedeu. Ela caiu de costas com o tronco projetado para trás apoiada nos três pares de pernas e num par de braços. Olhei-a alarmada vendo seu desespero e horror. Impulsionei-a pela nuca, a fim de endireitar o tronco. Ela ergueu-se, andou em círculos desesperada sem saber o que fazer fora da teia.

       — Atena puniu-me! Pretendia o suicídio, mas não consegui.  Maldito seja o meu destino! Todavia... !— ela deslizou rapidamente até o penhasco e olhou o mar. — Uma queda seria perfeita, pois desejo apenas morrer...

       Ela precipitou-se no abismo de seu desvario, chocando-se contra as rochas, arrebentando as pernas grandes e peludas, vindo a cair na areia.  Voei atrás para ajudar, mas era tarde. Aracne restou sobre a areia manchada de sangue com as pernas quebradas, porém viva. Ao chegar perto dela, percebi que a criatura não podia morrer. Precisava alimentá-la com algum conforto impedindo a continuidade do martírio. Mas, como?

       Olhei para o céu, buscando orientação e forças para fazer o que deveria ser feito. Usando minha afiada garra, perfurei minha barriga e pairei sobre ela, permitindo meu sangue escorrer em sua boca. No início ela balançou a cabeça para livrar-se do líquido viscoso e quente, porém bebeu o suficiente. Olhou-me num desespero inquietante, enquanto seu corpo sentia o fluxo do sangue nas veias. Por segundos, a respiração ficou suspensa, todavia, recuperou-se plenamente e, num gesto abrupto e rápido, pôs-se de pé. O rosto aformoseou-se, os cabelos distribuíram-se majestosamente na cabeça, as pernas tornaram-se firmes e sentiu o efeito poderoso da bebida que a reavivou.

       — Vamos, Aracne! De tua dor ergue-te tua força! De tuas entranhas, enraíza-se tua teia. Deves continuar tecendo, pois agora todos sabem quem tu és. Desafiaste a deusa, mas ninguém pôde roubar teus talentos! Foste escolhida para tecer os fios púrpura e multicoloridos de proteção ao planeta.

 

       — O que está dizendo? Significa que o desejo de ser respeitada pelo meu dom foi levado em conta? — ela disse, questionadora.

 

       — Certamente. A própria deusa condenou-te a fiar para sempre. Ela pensou em punir-te, todavia, esqueceu-se que, dando-te tantas pernas, fiarias mais rapidamente. Tu mudaste o conceito das pessoas e elas reconheceram a beleza de teu trabalho. Poderás continuar a mostrar teu talento, pois a ousadia conferiu a ti o respeito que buscavas.

        Aracne pretendia respostas:

       — Quem és tu? Por que me salvaste?

       — Eu sou a coruja, o símbolo de Hécate — a deusa das feiticeiras e dos caminhos, protetora da independência e opressão femininas. Ela tem o poder de olhar as dimensões do passado, presente e futuro, pois é a deusa da mudança, ajudando as pessoas na libertação do passado, aceitando as transições. — Aracne olhou-me estupefata pela revelação.

       — E ela fará com que volte a ser humana? — Aracne disse esperançosa.

       — Não. Embora tenham sido os fluidos da feiticeira que criaram a teia que te prendeu, Hécate não poderá mudar o imutável, porém mandou-me dar-te seu sangue, através do meu, para que sobrevivas. Ela não poderá desfazer o que foi feito, mas enviou-me nessa missão para fazer com que tomes consciência de teu destino. Compreendeste sobre a arrogância, a imprudência e a prepotência, as quais devem ser evitadas, na medida em que tens um dom causador de inveja e discórdia. Sigas confiante a tecer tua história daqui em diante.

       — E agora, o que será de mim? A deusa Atena continuará a perseguição?

       — Não mais, pois Hécate está ao teu lado. Tu és livre! A tua aptidão foi multiplicada graças às tuas pernas de acréscimo, facilitando a tecelagem. Tu serás a responsável pela criação do universo físico. A deusa quer apenas que saibas da importância de tua missão, que não vem dela, mas do Universo. 

       Aracne curvou-se a mim, num gesto de agradecimento até que despedi-me, voando sobre o mar em direção ao horizonte, enquanto a noite desceu seu véu estrelado sob o olhar do astro lunar.

         A tecelã, de cabeça erguida e confiante, entendeu o passado, o presente e o futuro. Ela urdiria o tempo, refazendo o movimento da teia do universo, o ritmo circular, o eterno recomeço do corpo metamorfoseado, conservando sua humanidade. Criando e recriando a tessitura, libertou-se do castigo, transformando-se, ao mesmo tempo, em criatura e criadora.

 Todavia, na madrugada gelada, entre o intervalo dum piscar de olhos e do suspiro de alívio, as árvores e a teia sumiram do penhasco. Sobre o local persistiram apenas as rochas – silentes testemunhas –, porque Aracne desapareceu misturando-se à energia do cosmos, cumprindo o seu destino.

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