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Acadêmica APB Susana Pinheiro dá uma aula sobre AQUARELA

09/05/2020 14h10
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Por: Mhario Lincoln

Susana Pinheiro fez a capa deste livro de poemas, onde, ao final, publica esse ensaio sobre a Aquarela,

Um dos grandes trabalhos - em Aquarela - feitos por Susana Pinheiro pode ser visto na obra da poetisa Fátima Travassos, onde, também, ao final, como um pós-prefacio, publica este belo ensaio.

 

 

 

AQUARELA

(*) Sunana Pinheiro/Academia Poética Brasileira

Enquanto a fotografia ainda era só um sonho e dava seus primeiros passos com os experimentos de Niépce, seguido posteriormente por Daguerre, eram os desenhos e as pinturas, as linguagens responsavéis por retratar as imagens. Aquilo que temos a respeito do passado, o sabemos em parte, por intermédio de artistas que se propuseram a estudar as formas da natureza e as sociedades, representando-as   em suas obras de arte, com desenhos ou pinturas.

Boa parte desses desenhos e ilustrações que contam as histórias das civilizações, eram pintados em aquarela. Uma técnica de pintura onde a água é o meio condutor e o diluente da tinta.

     A palavra aquarela origina-se do latim “aqua”, significa líquido indispensável à vida. Para aquarelar, a água é o elemento mais representativo e responsável pela diluição do pigmento colorido, para os efeitos de manchas e para a transparência, característicos deste processo de pintura, que é realizado sobre um superfície de celulose ou algodão.  A pintura em aquarela possui nomes parecidos em algumas partes do mundo. Na  Itália, por exemplo,  chama-se acquarello, em francês a expressão é  aquarelle, em inglês, temos o watercolor.

 A aquarela é uma técnica antiga e bastante difundida. Há sinais de pinturas semelhantes a aquarela, na Pérsia e Egito antigo, inicialmente com o papiro, feito das folhagens da Cyperus papyrus.

 Na China, eram feitas sobre o pergaminho e posteriormente em papel. A criação do pergaminho, facilitou o invenção dos códices, livros, e neles haviam ilustrações ladeando os textos, reforçando as mensagens e ajudando a entender as informações.  A invenção do papel no século II, pelos chineses, favoreceu  a produção das pinturas aquareladas, tornando-as mais acessíveis. Tempos depois, escritos de artistas foram encontrados relatando o uso de técnicas parecidas com a aquarela, este dado é fundamental para a história da pintura, uma vez que comprova a existência dessa pintura e uso, há séculos:

Por volta do século XV, o artista italiano Ceninno Ceninne, definiu o que seria  aquarela ao escrever no Il Libro dell'arte, um manual de pintura, onde afirmava que a técnica servia para o sombreamento de desenhos, possuindo também a transparência na aplicação das cores.

 Felippo Baldinucci, importante estudioso da história da arte e biógrafo, no século XVII, em seus estudos, faz menção ao uso da tinta diluída em grande quantidade de água. *

 

A aquarela possui outras substâncias em sua composição, além da água, como o aglutinante, que é geralmente feito das seivas de árvores como as Acácias, de onde se extrai a goma arábica. A esta seiva é adicionado um fungicida e a glicerina, obtendo-se uma pasta que será  misturada ao pigmento colorido, criando-se assim, a tinta que servirá para a aquarela.

Um dos primeiros artistas a ganhar notoriedade com a aquarela, foi Albrech Dürer (1471-1528), pintor alemão renascentista que ganhou admiração pela perfeita execução técnica em suas pinturas. É considerado o primeiro grande mestre aquarelista.

 Alguns artistas participavam de longas viagens exploratórias na condição de observadores, documentaristas. Eles representavam cenas da vida cotidiana nas embarcações, tipos humanos, animais e a vegetação por onde quer que fossem, destacando detalhes e peculiaridades.

Para as viagens exploratórias, a técnica da aquarela era perfeita, pois secava rapidamente, era de fácil manuseio e armazenamento.

 Num cenário onde a aquarela era largamente usada por homens, uma artista conquistou grande destaque, tendo como tema de suas obras a natureza. Foi, especificamente, aquarelando as flores e os insetos observados em suas viagens, que Maria Sibylla Merian (1647-1717), nascida em Frankfurt, Germany, uma espetacular artista, nos garantiu posteriormente, o conhecimento de espécies raras. Merian foi uma das poucas mulheres a se aventurar, desbravadora e notável, em ariscadas e longas viagens de exploração.

Assim, através das expedições exploradoras e colonizadoras, e por intermédio dos artistas de várias nacionalidades, a aquarela viajou o mundo.

Na Inglaterra ganhou grandes proporções, destaque para as aquarelas magníficas de Wiliam Turner, de Augustos Early e as de Charles Landser,  artistas que estiveram no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro por exemplo, trazidos pelas expedições exploradoras, inaugurando então, os primeiros exemplares dessa técnica em terras brasileiras.

As aquarelas ilustraram manuscritos sagrados, iluminuras, miniaturas, croquis, estudos topográficos, estudos científicos e outras abordagens sempre com a possibilidade de cor e de transparências únicas, ricas em detalhes e nuances que somente a visão particular de cada artista podia atribuir, imprimindo sobre as imagens, luz ou sombra. Sempre buscando o equilibrio entre o claro e o  escuro, para ressaltar o ponto certo a se observar na pintura. Sobre essa condição , filosoficamente cabe ressaltar o pensamento de Schelling a despeito do jogo claro-escuro na visão.

 

 “De acordo com o filósofo Schelling contrariando as teorias newtonianas, o olho não é satisfeito nem pela sombra, nem pela luz, o olho na luz busca a sombra e na sombra busca a luz.  A pintura apazígua o conflito entre a luz e a obscuridade.  A arte deve reencontrar a força que fez nascer as coisas e deve continuar fazendo renascer”. **

 

Uma das funçoes da arte é a de revelar através da pintura,  situações que representem uma realidade, também um sentimento, sem necessariamente fazer uma mimesis. Fala sobre nós, sobre nosso universo e a nossa relação com ele e com os demais seres que aqui habitam. Revelam a luz e a sombra e cria entre ambos um equilíbrio e movimento.

Sobre a história da aquarela aqui apresentada, trata-se de uma breve introdução para inserir o leitor no ambiente artístico, para justificar a escolha técnica do trabalho exposto,  as aquarelas que  ilustram os poemas  de Fátima Travassos.

Aqui reside nosso trabalho amigo. Ilustrar poesia é combinar, entre outras coisas, aquilo que de mais belo habita nosso viver, a amizade.

  Os versos desta obra exprimem vibrações alegres que impulsionam esta jornada, os laços de ternura e suas dores, a  tristeza e a saudade, o amor e o querer amar, o presente e a ausência. Fala de  vida e nela, morremos, renascemos e recriamos novas formas para saborear o tempo. Nesse contexto, a poesia de Fátima Travassos, respira o momento, como quem reconhece o valor de estar aqui, no mais profundo sentimento, levando em consideração o equilibrio e a razão, mas nem por isso, deixando de viver intensamente cada ponto de luz da vida.  

Aquarelar Introspecção, é tentar, meu humilde olhar, interpretar cada mundo de verso escrito, cambiando-os em imagens coloridas, banhadas d’agua. A despeito disto, a aquarela, fora escolhida porque a água é a principal fonte de vida, que  inevitavelmente  remete às lembranças de Viana (1757), cidade natal da poetisa. Viana banhada de àgua por seis meses, transforma-se em clorofila, vivificando todo o bioma que floresce nos campos. Inundar o papel em água e cor, com reflexos da alma versados em poema é como o efeito do Lago de Viana, que inunda a cidade, que conta histórias.

Do encontro ao desencontro, do medo ao contentamento, do amor ao dissabor, tece-se assim, este conjunto de ilustrações que correm para ao menos, chegar, nem que seja de longe, mais perto, destes poemas. O olhar, as percepções , enfim, todos os sentidos, se voltam agora para a palavra, para as formas e para a cor.

A cor afeta os olhos e o coração, tanto física como metaforicamente, de maneira muito mais direta que qualquer outro elemento na pintura.(...) no seu aspecto mais místico e poético, ela pode oscilar entre uma envolvente e palpitante sensação de calor e uma fria e revigorante sensação de luz e espaço.”***

                                                       

Susana Pinheiro

Artista e Especialista em História da Arte e Arquitetura

 

Citações

* Entre Arte e Ciência: A quarela botânica de José dos Reis Carvalho e João Barbosa Rodrigues na produção artísica da segunda metade do século XIX no Rio de Janeiro/ Disertação de Mestrado Chiara Bozzetti.Rio de Janeiro: UFRJ / PPGAV, 20013.

 ** A Filosofia da Arte de Schelling(1775-1854), registros escritos de aula(2008), prof.Dr.Thomaz Brum.

 *** A Nova Arte. In: A estrutura da cor. p.263/264.Gregory Battcock. Sao Paulo: perspectiva, 2013.

 

 

 

Biografia

Susana Pinheiro

É formada em Educação Artística pela Universidade Federal Do Maranhão (UFMA). Especialista em História da Arte e Arquitetura no Brasil pela Pontifícea Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RIO) e membro da  Academia Poética Brasileira (APB – Curitiba). Trabalhou como professora de Hitória da Arte nos segmentos fundamental e ensino médio, em escolas públicas e particulares da capital São Luís e Paço do Lumiar. Exerce a profissão de Artísta visual, dedicando-se à pintura em tela e aquarela. Participou das exposições: Coletiva de Maio(1994), Pinturas e Esculturas (orientação do prof. Donato Fonseca- 1998) apoio UFMA, Talentos Contemporâneos (1998) – SESC, Verso Forma e Cor e Céu de Nosso Lugar (2001) ambas em parceria com o SESC-MA e Minha Alma Pinta (2008) na PUC-Gávea/ RJ. Realizou duas exposições individuais, Tecer de Varandas (2015) com o apoio do SESC-MA e Matiz Vianense (2017) em parceria com Academia Vianense de Letras (AVL-Viana/MA), o que lhe rendeu diploma de Honra ao Mérito pela AVL em reconhecimento ao trabalho de preservação da memória da cidade de Viana.

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