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COLUNISTAS: Alessandra Leles Rocha

28/04/2020 13h37
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Por: Mhario Lincoln

Escolha impõe responsabilidade. Escolha impõe consequências...

Por Alessandra Leles Rocha

 

Diante das atuais circunstâncias, imagino que muitas pessoas já tenham desejado que a vida fosse compartimentalizada, de modo que os acontecimentos acontecessem cada um a sua vez.  Mas, não é bem assim!

Como escreveu magistralmente João Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas, “O correr da vida embrulha tudo. a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. Por isso mesmo é que me causa profunda perplexidade perceber a existência de gente que insiste em desconsiderar tudo isso.

E nesses que são tempos de uma atipicidade total, por conta de uma Pandemia que já fez mais de 200 mil mortos ao redor do mundo, vemos pessoas analisando de maneira rasa e imprevidente a situação que temos bem diante do nariz. Ainda que as informações não parem chegar ininterruptamente pelos meios de comunicação.

Enquanto a situação pandêmica estabelece inúmeras demandas de prevenção, controle e cuidados, a vida embora anestesiada por tamanho impacto resiste respirando. Isso significa que, apesar de todos os pesares momentâneos, outras doenças e fatalidades e calamidades, continuam a ocupar espaços importantes entre nós.

O desespero que se vê entre quem precisa de atendimento médico-hospitalar e as equipes que se desdobram nesses atendimentos é justamente por isso. A chegada do COVID-19 não paralisou a dinâmica da vida biológica.

Pessoas continuaram nascendo, morrendo, se ferindo, se acidentando, enfartando,... e assim, ocupando unidades básicas de saúde, hospitais e clínicas; bem como, utilizando equipamentos, medicamentos e outros serviços. Muitas vezes, em nível de gravidade tão complexo quanto o apresentado pelo COVID-19.

Diante disso, a matemática não fecha e, nem mesmo os algoritmos dão conta de bater o martelo para a questão.  Não dá para esvaziar tudo e só atender as urgências e emergências da Pandemia ou o contrário, porque estamos falando de vidas. É o viver que está em jogo. Restituir o bem estar e a sobrevivência humana são as ações que imperam no mundo nesse momento.

É certo de que, antes dos últimos acontecimentos, havia quem não tivesse motivos para se dar conta desse fato. Parecia-lhes que havia suficiência infinita de médicos, hospitais e tudo mais que fosse necessário, de modo que uma pseudossegurança assegurava-lhes certa paz.

Mas, é certo que para uma imensa maioria a realidade já era de pânico total. Tanto que entre esses a judicialização da medicina era pauta cotidiana. Busca de leitos. De UTI. De medicamentos. De cirurgias. De modo que, agora, tudo parece desabar sobre suas cabeças; pois, eles têm a real dimensão do que esse gargalo representa.

Portanto, esse desatino que se estabelece em nome da revolta contra as medidas de isolamento social só aponta o grau de alienação obtusa a que chegou a humanidade. Alguns segmentos da sociedade estão em confronto direto com um inimigo microscópico e desconhecido, como se gritos e gestos pudessem demovê-lo da sua fúria virulenta. Sim, porque ao apelar para as autoridades à abertura dos meios de produção e consumo; se esquecem completamente de que, na verdade, estes estão tão a mercê do vírus quanto quem apela. 

Parece-me evidente, também, que o senso de preservação da própria espécie desapareceu completamente; na medida em que, a mesma sociedade que rechaça a Ciência deposita nesta a esperança de resolução do problema, segundo os seus critérios e desejos, seja por meio de vacinas e/ou remédios.

Há, portanto, uma rebeldia insensata e totalmente antiproducente, a qual pode, inclusive, gerar desdobramentos e consequências mais avassaladoras sobre os interesses dessas pessoas. Basta ver o novo alerta da Organização Mundial de Saúde (OMS), na última sexta-feira, a respeito da impossibilidade de comprovação de imunidade à COVID-19; o que reforça toda e qualquer medida de prevenção e isolamento social.

Que fique claro então, essa não é uma disputa entre pessoas. Não é uma guerra convencional. É uma guerra biológica, na qual o ser humano é que se encontra em total desvantagem, pois conhece muito pouco do seu inimigo até agora e, a Ciência não caminha na velocidade desejada por quem quer que seja, mas na sua própria. Sendo assim...

Toda essa intransigência ignorante, só leva ao dispêndio de energia e mais nada. Querem se expor? Que se exponham. Querem promover aglomerações? Que se aglomerem. Mas, aconteça o que acontecer, moral e eticamente isso lhes retira quaisquer direitos e privilégios; sobretudo, porque estão colocando quem ao menos conhecem em risco também.

Já dizia Pablo Neruda, “Você é livre para fazer suas escolhas, mas é prisioneiro das consequências”. Se quiser se tornar mais um número nas estatísticas da fatalidade, sinta-se à vontade. Você pode até pagar para ver, a questão é que está pagando com a vida e esta não tem preço.

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