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Convidado: Paulo Urban, "Causos da Psiquiatria - IV"/LHAMA OU ZEBRA, EIS A QUESTÃO!

01/09/2020 18h32
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Por: Mhario Lincoln

Causos da Psiquiatria - IV

(por Paulo Urban, médico psiquiatra e Psicoterapeuta do Encantamento)

(Site: www.amigodaalma.com.br).   (E-mail: urban@paulourban.com.br).

 

LHAMA OU ZEBRA, EIS A QUESTÃO!  

D’Albertini já tinha sido internado por diversas vezes em nossa Casa de Saúde, mantida pela Ordem Hospitaleira de São João de Deus. Seu quadro de entrada, sempre o mesmo: franca excitação maníaca. A cada vez que retornava, a nós encaminhado pelo serviço médico do hospital municipal, expansivo como ele só, já descia da ambulância fazendo festa, distribuindo cumprimentos efusivos ao pessoal da recepção, beijava a enfermeira e me dava aquele abraço de urso, tão apertado que chegava a estalar-me as vértebras. 

Após dez dias de internação, estando seu humor bem mais equilibrado do que quando dera entrada em nossa Casa, o psicólogo e a terapeuta ocupacional vêm me perguntar se podiam incluí-lo na lista do passeio, sobrava uma vaga na perua Kombi e queriam levá-lo junto a um pequeno grupo de pacientes para uma visita ao Simba Safari. Julgando-o em condições suficientemente adequadas, liguei à enfermaria e pedi que avisassem D’Albertini a fim de que rápido se aprontasse. Encontraram-no na sala de leitura, de onde não saía, razão de seu rico e excêntrico vocabulário; e lá foi ele, animadíssimo, agora com bons motivos para essa alegria toda, passar o dia fora, numa atividade terapêutica de sociabilização grupal. 

* * * * * * * * * * * *

Original do texto.

Dia seguinte, ao entrevistá-lo como de rotina fazíamos com os pacientes sob nossos cuidados, D’Albertini não cabia em si de tão contente: 

-- Doutor Paulo, doutor Paulo... doutor Paulo, doutor Paulo...

-- Diga, D’Albertini.

-- Doutor Paulo, doutor Paulo... doutor Paulo... 

-- Sim, o que o amigo tem pra nos contar?

-- Doutor Paulo, doutor Paulo... doutor Paulo....

Achei até que não fosse sair disso, era como se estivesse perplexo de alegria, mas, unindo as mãos em gesto de prece, olhando para cima como se buscasse os anjos, finalmente, desembuchou:

-- Tenho que lhe dizer... tenho que lhe dizer... 

-- Sim? 

-- Doutor Paulo, doutor Paulo... de todas as internações que já tive nesta Casa, que chegam à expressiva monta de quase mil (segundo seu prontuário, desde quando o Hospital fora fundado, em 1989, até o presente ano de 1998, era a 14ª), esta internação está sendo a santíssima suprema, realmente a mais legal de ótima!

-- Santíssima suprema? A mais legal?

-- De ótima! Melhor que isso até! A santíssima suprema máxima sublime augusta aurélia octaviana internação de todas! A super-hiper-extra-mega-gigante internação que jamais tive! 

-- Pelo visto, o passeio lhe fez mesmo muito bem. 

-- Nem fale! O senhor já teve essa alegria imensa, incomensurável, de ir de Kombi com seus melhores amigos ao Simba Safari, dr. Paulo?

-- Pois, sabe que eu nunca estive lá? Já fui ao zoológico algumas vezes, mas ao Simba ainda não. 

-- Pois devia pedir ao psicólogo dr. Waldemar e à terapeuta dra. Márcia que o levem. 

-- Foi bom assim, é?

-- Se foi bom? Ora, o senhor nem imagina! Aquela bicharada é mesmo uma gente muito anfitriã! 

Não pude conter o riso. Ele, abrindo os braços, levantando-se da cadeira, prosseguiu a cena com impostação de voz, inclusive, ares teatrais:

-- Os macacos, desde os grandes aos pequenos, sem exceção, plenos de etiqueta, nobres confrades de Oxford! Especialmente gentis, nos receberam com sorrisos largos... 

E imitou-os. Coçava o cabelo, fazia caretas enquanto dava uns guinchos, e estufando o peito, andando de um lado para o outro da sala, continuou a performance:

-- Já os leões, ora, os leões, esses leões... não à toa que são universalmente reconhecidos como ‘os reis da selva’! Magnânimos, soberanos em suas jubas, imponentes em suas poses, serenos em suas indagações..., feitos os treze ou catorze mosqueteiros, eram um por todos e todos por um, quero dizer, todos juntos formavam um só coração de Ricardo, muito hospitaleiros... assim como os macacos, e tão hospitaleiros eles são deviam ser contratados a trabalhar aqui neste hospital da Ordem hospitaleira... não seria o máximo, dr. Paulo? 

-- O quê?

-- Não seria o máximo que ao chegarmos aqui já encontrássemos leões de chácara sentados logo à porta principal, um de cada lado a nos dar boas-vindas logo ao descermos da ambulância? Assim como os vemos sentados às portas dos palácios igualmente deviam estar zelando pelas portas dos hospícios. Muito mais emocionante a vida selvagem!    

-- E ficam soltos pelo parque, não é? Pelo que sei, chegam bem próximos dos carros. 

-- É de arrepiar, dr. Paulo! Um deles saltou sobre o capô da Kombi e fez um barulhão; parecia Zeus tonitruante! Os mais medrosos de nosso pequeno grupo de Jins da Selva se alarmaram, momento de suspense na aventura, uma certa apreensão pairou na kombi, mas dr. Waldemar corajosamente interveio e nos falou: ‘Nada de pânico!’ E ficamos todos mesmerizados, mansos num piscar de olhos diante do psicólogo adestrador... no final, provou-se que ele estava acerto, nenhum mal nos ocorreu, deviam ser os mesmos leões que se usam nos filmes da Metro, leões galãs, artistas do cinema... o fato é que os bichos todos lá no Simba formam uma só grande família de gente muitíssimo educada! – completou, voltando a sentar-se à minha frente

-- Os animais do Simba estão acostumados à visitação, e são bem alimentados. 

-- Verdade, dr. Paulo, de fato nenhuma daquelas abomináveis feras parecia minimamente disposta a nos devorar, pelo menos não naquele momento, tampouco planejavam nos atacar, a bem da verdade, mantive telepatia com elas, sequer queriam que fôssemos embora. 

-- Como assim?

-- Sim... foi triste a despedida, triste mesmo, como são as despedidas!  

-- ?

-- Mire-se no exemplo das hienas, cujo sentido de estarem no mundo é viver rindo, ironizando, gargalhando... agora, choravam lágrimas sentidas de profunda tristeza... puseram- se tristes quando ameaçamos ir embora. Choravam copiosamente pedindo que ficássemos; pois, não é que vivi para ver até hienas chorando nesta vida? E então vieram os macacos, aqueles mesmo que antes esbanjavam largos sorrisos, mas vieram gritando, agora protestavam em sindicato para que não os deixássemos, e ainda vieram as leoas, também em comitiva, fêmeas de escultural beleza, verdadeiros mármores de Van Gogh, prendadas mulheres do lar nos implorando com seus carinhosos rugidos: ‘como assim, ir embora? Justo agora que íamos passar um cafezinho, servir um pão de queijo?’ 

Fiquei só imaginando a cena, as conversas dentro da Kombi.

-- Internação mais cultural que esta, dr. Paulo, só mesmo indo ao museu. Absurdamente instrutiva esta nossa programação psiquiátrica! Melhor do que todos os remédios que já tomei na vida, embora, convenhamos, um tanto perigosa e arriscada também, melhor digamos, sem meias palavras: uma internação animal!

-- Folgo em saber. Disseram-me que sua alegria no Simba era tanta que o amigo, houve uma hora, até se atracou ao pescoço de uma zebra que enfiara a cara pela janela da Kombi. 

Ele me olhou desconcertado.

-- E não havia santo no mundo que o fizesse largar dela. 

-- Velha amiga minha, dr. Paulo! A Mariquinha, reconhecia-a de minha infância, de minha infância não, minto, eu a reconheci de minha vida passada, época em que éramos vendedores ambulantes... ela quem me levava em seu dorso pelos rincões do mundo a vender artigos de extrema necessidade, como queijos, miçangas, roupas de brechó, óculos de grau e bijuterias de primeiríssima linha! Mas não era zebra, não, dr. Paulo, a Mariquinha que reencontrei no Simba é uma lhama.  

-- O psicólogo e a terapeuta me disseram que foi uma zebra. E que embora lhe pedissem mil vezes pra soltar do pescoço dela, o amigo não a largava de jeito algum. Estavam já a ponto de chamar um segurança lá do parque, com medo de que você ou ela por algum motivo pudessem até se machucar, quando então a zebra lhe deu um tranco, uma pescoçada, sei lá, e saltou de banda.

-- Nada disso! Erro crasso de interpretação psicanalítica! Eu a soltei tão logo cumpriu-se o tempo certo e apropriado para um abraço por várias vidas atrasado, dr. Paulo. Como lhe disse, aquela bicharada toda é muito anfitriã, e aquela lhama, capricho do destino reencontrá-la, já foi minha amiga em mais de uma vida; primeira vez que nos conhecemos eu era ainda um pigmeu africano. 

-- Não era um bicho que parece um cavalo, todo listrado de preto?

-- Esse mesmo! O senhor conhece a Mariquinha? 

-- A descrição que lhe faço é de uma zebra. E segundo consta, as lhamas vivem nos Andes, não existem lá na África. 

-- Confesso que mapa-múndi nunca foi o meu forte, mas de selva entendo bem, quando criança não perdia um só filme do Tarzan. Além disso, li inteirinha a coleção do Fantasma que meu pai comprava nas bancas, histórias que não me permitiram nunca esquecer essa minha vida ancestral, vivida sob a pele de alma de um bravo pigmeu. Na selva, acredite, nunca me perdi. Conheço a selva como as plantas de meus pés e minhas mãos, por isso é que lhe afirmo, e o faço categoricamente: eu me agarrei foi ao pescoço de uma lhama, não tinha zebra alguma por lá! Era uma lhama, dr. Paulo, uma lhama!

-- Uma baita de uma zebra, me disseram.

-- Eita, mas que psiquiatra teimoso! O mais teimoso que já vi. Só porque fez medicina acha que sabe mais de zoologia que eu? E ainda quer saber mais que eu quanto a quem foi que abracei? Logo quem? Logo o senhor que acabou de confessar nunca sequer ter pisado no Simba em toda a sua vida! Pois, anote aí no meu prontuário o que estou a lhe dizer: D’Albertini abraçou uma lhama! Ele-agá-eme-a-má; LHA-MA! 

-- ZE-BRA! 

-- Lhama! 

-- Zebra!

-- Lhama!

-- Deixe estar, D’Albertini. A Márcia fez uma série de fotos do passeio. Assim que forem reveladas irão para o mural da T.O. Daí, vamos juntos nós dois até o quadro e então a gente vê quem tem razão, se o bicho ao qual você se atracou era uma zebra ou uma lhama. 

E diante da prova concreta que viria, por um instante flagrado num flash de dúvida, a saber se se atracara a uma lhama ou a uma zebra, no rasgo dessa possibilidade que se lhe afigurou de que fosse eu a estar com a razão, e a fim de não perder a pose, não deixar cair a peteca, D’Albertini saiu-se com rapidez e elegância:

-- Ora, dr. Paulo.... qual o sentido de nos enveredarmos pela selva das desavenças? Zebra ou lhama... lhama ou zebra... esses detalhes mínimos pouco importam, dr. Paulo; como se fala, não façamos zebras de batalha, menos ainda tempestades num copo de areia do deserto, onde zebras e lhamas nada mais seriam que meros vendavais num copo d’água, pois, quem tudo quer, tudo perde... – a bem da verdade, nunca fui bom nesses ditados... só sei mesmo citar os bíblicos: enfim, é como Jesus nos ensinou: “Lhamai-vos uns aos outros assim como eu lhos lhamei, e olhai as lhamas do campo, nem Salomão em toda a sua glória soube abraçar como elas...” 

Realmente, D’Albertini era impagável!

-- Portanto, dr. Paulo, não nos atraquemos por tolices nem bobagens... o coração tem zebras que as próprias lhamas desconhecem... o fato é que, cientificamente falando, seja na África ou nos Andes, seja nas colônias do Simba ou nas jaulas do zoológico, só tenho mesmo uma única certeza absolutista.

E fez uma pausa dramática, esperando que eu lhe indagasse:

-- E qual certeza é essa? 

-- Que essa bicharada toda que aí está é mesmo uma gente muito anfitriã! Não fossem quadrúpedes, seriam vertebrais! 

De novo, não pude deixar de rir. E ele ainda completou:

-- Certeza que era lhama.

 

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