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Convidada especial: Joema Carvalho (Ceboleiro)

31/08/2020 10h40
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Por: Mhario Lincoln
Original do texto.

CEBOLEIRO

Joema Carvalho

 

Nasci na década de 50, sobre um depósito de lixo de uma pequena chácara. Ali se plantava o que se comia. Trocavam-se os excedentes entre vizinhos. Vi os cultivos de verão durante o tempo chuvoso e quente. E os de inverno, no clima frio e seco quando ainda podíamos controlar o período de plantio pelas estações do ano.

Depois de pouco tempo, a chácara foi loteada. Cada membro da família ficou com uma parte do terreno. O centro da cidade ia ficando cada vez mais próximo dali. Os sons dos pássaros e do trator iam sendo substituídos por veículos, buzinas e construções.

No lote onde fiquei, foi construído um conjunto de edifícios, com várias famílias, cada uma com a sua história. Assim como eu tinha a minha. Vi nascimentos, bebês carregados no colo, logo se balançando sobre meus braços. Tornei-me parte delas. Consideravam meu valor histórico e emocional. Tornei-me Patrimônio do Estado.

Meus familiares encontravam-se nas florestas estacionais e atlânticas, em praticamente toda a América Latina, das Guianas ao Uruguai. Resistíamos a ventos fortes, à adversidade do tempo e das pragas. Nosso ponto fraco: a podridão, um fungo oportunista de ambientes úmidos. Fui parar naquela chácara não sei como, onde fiquei durante décadas.

A pressão do crescimento da cidade e do confinamento das construções impediram, no entanto, que eu ali continuasse. As alterações do ambiente comprometeram meu sistema de raiz. Fui atacada pela podridão. Foram alguns anos, até que toda a minha estrutura interna adoecesse. Eu resistia. Ainda tentava crescer, tanto para cima como para os lados, expandir minhas raízes, copa, galhos e tronco. Queria esparramar-me pela superfície, ocupar espaços que desejava, mas as construções não permitiam. Fiquei entre elas e a podridão que se expandia, cada vez mais, por todo o meu corpo.

Não era a única doente. Todos adoeciam de forma proporcional ao desenvolvimento da cidade. A maioria das pessoas não vivia mais sem remédios, devido, principalmente, ao ambiente poluído e à alimentação inadequada. A mim, faltava água e sol na medida certa e nutrientes.

Os anos passavam, eu cada vez mais fraca, quando um de meus ramos caiu sobre uma das torres do condomínio construído no meu entorno. Os bombeiros comentavam só aquele meu ramo possuía cerca de cinco toneladas. Sem contar as raízes, minha parte visível teria mais de 20 toneladas! Estava com 22 metros de altura e mais de dois metros de largura. Pensei várias vezes em sair andando e mudar de lugar. Mas minha natureza não permitia. Fui engolida pela podridão. O diagnóstico eu já sabia, era o meu fim.

Virei notícia. Mais um caso, no qual cedemos ao “desenvolvimento”. Fui reflexo da pressão exercida sobre as comunidades rurais, sobre os remanescentes e elementos naturais. Muitas perdas de registro da memória e do histórico local e, em paralelo, da biodiversidade de espécies e ambientes naturais.

Apesar de tudo, senti todo o carinho e o adeus. Não existe limite para o sentimento e para as trocas de afetos.

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